A crise de identidade da moda brasileira, de algum modo, sempre existiu, se considerarmos que, só a partir da década de 90 do século passado, o Brasil se profissionalizou e passou a contar com um calendário nacional de valorização e estabilização da indústria.

Já falei sobre um pouco dessa crise e busca aqui (http://www.revistalinguadetrapo.com.br/qual-a-identidade-da-moda-brasileira-por-nadia-mello/).

Essa busca, que aparentemente não tem fim, começou motivada pela imprensa internacional (e nosso desejo em agradá-la) e pela vontade de crescimento e internacionalização de algumas marcas.

Para agradá-los (nosso complexo de vira-latas), em vez de buscar a identidade, referências culturais e do que o país se constitui, tal como foi o show da abertura e encerramento das Olimpíadas, a tentativa de ganhar mercado se deu através de adivinhação do que eles queriam ou imaginavam daqui.

É por isso que a mídia internacional foi a primeira a questionar quem é o país enquanto criador de moda. Claro que, ao abrir uma loja, é preciso estudar o público para levar peças de que vão vender e manter o negócio, mas por que não fazer como a maioria das marcas gringas que trazem o que é compatível com o público daqui dentre o mix de produtos existentes?

Por que voltar a criação a fim de atender à demanda do público internacional e não pensar em conceito e identidade enquanto marca e isso ser o atrativo do negócio?

Não à toa, por muitos anos, a moda brasileira foi associada aos artefatos exagerados e coloridos do imaginário que possuem sobre os índios e da Carmem Miranda, que remete a uma característica que consideram nossa: o ser exótico. E, na parceria com a Adidas, a Farm usou e abusou dessa imagem estereotipada com estampas de abacaxi, tucanos, cores da bandeira brasileira, praias e paisagens típicas daqui.

Há quem faça moda autoral e traga referenciais diferentes destes esperados (estereotipados), como Alexandre Herchcovitch, Osklen e Ronaldo Fraga (este último já foi eleito por três vezes um dos sete designers mais inovadores, premiação realizada anualmente pelo Design Museum, em Londres) e não é de surpreender que todos tenham reconhecimento internacional.

Será que não está na hora do brasileiro mostrar como quer ser visto e reconhecido? Será que não está na hora de entender que somos nós, brasileiros, que devemos dizer qual é a nossa imagem e identidade e não moldá-la pelos olhos dos outros?