Na segunda metade do século XIX, Charles Frederick Worth começou a desenhar os caminhos que a moda tomaria para ser o que é hoje. Ele foi o responsável por uma apresentação da coleção que criara para suas clientes. Seu discípulo, Paul Poiret, nos primeiros anos do século XX, aprimorou a apresentação e a transformou em um grande evento da moda e social.

Na década de 40, com a Guerra, a moda americana vê uma possibilidade de se desenvolver e alavancar as suas criações. Portanto, é criada a Press Week, por Eleanor Lambert, produtora de moda, a primeira das semanas de moda. Com o passar dos anos, os desfiles foram se modificando, passando por baixos (como na década de 60, com a problemática da alta costura x prêt-à-porter e pela força da moda jovem que introduziu as ruas no até então muito fechado sistema da moda) e altos (como nos anos 80).

Na semana passada, entre os dias 23 e 28 deste mês, rolou a 42ª SPFW. Entre coleções e apostas de tendências para o Inverno 2017, dois desfiles despontaram e chamaram atenção para além dos veículos de moda: o Lab (marca inserida no selo Laboratório Fantasma, dos sócios-irmãos Emicida e Evandro Fióti) e Ronaldo Fraga.

Em ambos, o principal era muito mais o discurso ali envolvido do que a moda em si, como disse o estilista mineiro “A história toda não está nas roupas e sim em quem as veste”.

Na segunda, dia 24, os irmãos rappers, com a direção criativa de João Pimenta, apresentaram a coleção Yasuke, nome do samurai negro do século XVI que lhe serviu de inspiração. Nas peças, uma mistura do Oriente com a África foi traduzida em estampas gráficas, peças amplas e estruturadas, quimonos, entre outros. Os modelos, personagens principais no desfile, em sua maioria negros (“Fiz com a passarela o que o Estado fez com a cadeia e com a favela. Enchi de preto”, Emicida), mostraram que a moda é (ou deveria ser) para todos. Todas as raças, tipos de corpo e gêneros.

Na quarta (26), foi a vez de Ronaldo Fraga levar 28 transgêneras para desfilarem no Teatro São Pedro a coleção chamada “El dia que o me quieras”. Era composta de uma só modelagem para um vestido cuja variação era vista nas estampas, acessórios ou presença∕ausência de gola e mangas.

A cada edição, o estilista costuma utilizar o espaço para contar histórias (como dos refugiados, amor, entre outros) fazendo da moda um ato político, como já disse em tantas entrevistas. Mas, dentro da moda (brasileira), recebe muitas críticas por isso, como disse em uma entrevista para Elle: “As pessoas me dizem: ‘você vai deixar de vender desse jeito.’ E eu estou aqui pra vender? Eu estou aqui pra viver bem. Estou aqui pra justificar o meu ofício e poder dizer que eu tenho orgulho daquilo que faço. Da mesma forma que um dia eu senti orgulho de chegar no Piauí e ouvir de um jovem que ele só leu Drummond e Guimarães Rosa porque viu um desfile meu na TV”.

Espero que esses grandes “shows” (usando o nome em inglês) possam nos inspirar e fazer entender que a roupa pode ser também nosso discurso e que elas contam muito do que somos e o que queremos. Como Fraga disse na mesma entrevista: “as roupas libertam o ser”.

Link do desfile: http://ffw.uol.com.br/videos/moda/ronaldo-fraga-spfwn42/