Vi-me outrora nos versos de Drummond

Sou apenas um homem.

Um homem pequenino à beira de um rio.

Vejo as águas que passam e não as compreendo.

 Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.*

Isso foi outrora, quando me bastava apenas  ser um homem e ter ouvidos atentos  às mensagens que me chegavam  com as águas do extenso rio. Sabia-me pequeno,  e ouvia…

Escuro, quando descia  a noite, me enfiava, inobservado, na estrada  a caminho de casa, cioso de tudo o que ouvira. Não desejava  que me percebessem nem que  me interrogassem sobre o que escutara. Sabia-me pequeno, e ouvia…

Casa distante. Então, a caminho, não me  era incomum  esbarrar em sombras sem rumo, bêbados com nula  esperança de transcendência, ou curta  melodia que escapara, sem que notassem, do violão de algum solitário  ou do órgão que, idoso, ressonava  na abadia a poucos  quilômetros da estrada em que me enfiara.

Outrora existi, a ouvir um rio…

Tempo-rio, que nunca imaginei tão imprevisto.

Hoje, mesmo com a  balbúrdia da  cidade grande, é possível que por vezes, sem que perceba, fique à beira do  mesmo rio.

Mas, Noite, quem ainda existe para me  chamar de casa?

* Poema América, de  A rosa do povo