Naquele 2 de outubro, o Pavilhão 9 foi tingido de vermelho. O sangue era varrido por jatos de água no piso de cimento, uma tentativa de lavar a sujeira provocada pelo assassinato em massa na Casa de Detenção de São Paulo. Mas nada conseguia amenizar o cheiro da morte. No IML, caixões improvisados com madeira barata guardavam corpos sem nome. O que se via eram números desenhados na perna de cada cadáver: 001, 002, 003, 015… 111 escreveu-se no último a ser contabilizado. Quem se importa?

Vinte e quatro anos depois do Massacre do Carandiru, como a chacina de 111 presos ficou conhecida na História, viu-se de tudo um pouco, nada, porém, que se assemelhasse a um ato de justiça. Usando a agressividade para justificar a violência, policiais militares comandados pelo coronel Ubiratan iniciaram uma intervenção militar desastrosa para conter a rebelião na carceragem. Despreparados, os PMs que atenderam à ocorrência entraram atirando sem medir o risco. Quando os tiros cessaram, o que se viu foram corpos amontoados. Várias vítimas não tiveram tempo de esboçar reação. Alguns morreram com uma bala atravessada na cabeça.

Passado o choque inicial, o Brasil enterrou e, literalmente, implodiu o Carandiru. Os detentos já haviam sido silenciados em vida, pois o destino deles já não interessava a ninguém. Afinal, eram bandidos e, como tal, tiveram a sua humanidade destituída bem antes do capítulo final de suas histórias.

Condenado a mais de 600 anos, Ubiratan, o homem que deu a ordem para que os outros apertassem o gatilho, elegeu-se deputado antes do cumprimento da sentença. Ganhou foro privilegiado e teve o julgamento anulado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Setenta e quatro PMs acusados de participação no massacre também tiveram suas condenações anuladas há 24 dias pelo ex-presidente do Tribunal paulista, o desembargador Ivan Sartori, que acolheu a tese de legítima defesa.

Depois do episódio, o país assistiu ao recrudescimento da violência. As cadeias paulistas reagiram ao massacre com a criação do PCC, nascido exatamente um ano depois do massacre, segundo levantamento do jornalista Bruno Paes Manso. Pesquisador do Núcleo de Violências e Estudos da USP, Manso é um dos jornalistas que assina o livro Mascarados, sobre o movimento dos black blocs. Recentemente, ele deu uma aula de História e elegância no sofá de Jô Soares, em uma ruidosa entrevista que deixou o famoso entrevistador chamuscado.

Voltando ao Carandiru, arrisco dizer que a insegurança social não é só fruto de uma sociedade que vive sob o manto da violência. Se a Justiça escolhe um lado, ficamos todos à mercê de julgadores sem a mínima isenção para realizar seu ofício. Quando apenas pobres e negros são sentenciados – o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo -, todos corremos perigo.

Dói assistir a morte da Justiça. Precisamos, urgentemente, de esperança e de magistrados que definam a pena não pela cor dos réus e sua condição social, mas pelo critério único da aplicação de uma lei que valha para todos.