Ontem estive no Aglomerado da Serra, aqui em BH. Fui conversar com um pessoal encantador, a convite do sambista Ademir Liberdade. No começo, era gente da minha idade, alguns poucos mais jovens. Depois, chegaram muitos jovens que estavam jogando futebol. Quando saí, disseram que a conversa rolaria madrugada adentro.

É morro e, em várias esquinas da região, grupinhos de garotos com bonés e tênis reluzentes que parecem ter saído da caixa há alguns minutos gritam “tá rolando” de tempos em tempos e logo param os carros de bacanas para fazer sua compra. Num muro, a inscrição “Tá rolando. PCP”.

Tem isso. Mas tem outras coisas.

Verdade que as casas estão sem pintura e sem reboco. Mas o pessoal do morro não dá sinais de pobreza. Aliás, me ofereceram um baita churrasco. Eu só não me atirei na churrasqueira para dar impressão de que sou educado. Uma cachaça fantástica, macia e doce, com leve aroma de banana; tira-gosto de fígado com jiló de desbancar o Mercado Central. Perguntei para o churrasqueiro se ele já havia pensado em abrir um restaurante ou boteco.  A resposta foi que ele gosta de cozinhar por prazer, para os amigos. Sorriu, timidamente, sabendo que tinha sido aprovado mais uma vez. Fiquei sabendo que nos finais de semana ele faz comida para um batalhão e deixa tudo na cozinha à espera dos amigos. Ele mesmo me confessou que fez um feijão com pedaços de joelho de porco defumado e deixou por lá. Diz que sempre chega amigo no final de semana e precisa ter o que oferecer.

Fez um churrasco e tanto. Muito diferente do que comia na periferia de São Paulo nos anos 1990. Naquela época, mesmo tendo um belo sabor, o churrasco era feito com bifes finos, direto na chapa, com bastante colorau, que se comia com pão francês. As cervejas eram geladas, mas de marca pouco conhecida.

O morro mudou. Ontem, era carne gorda, suculenta, feita por gente que entende da arte. Os pedaços eram generosos. A cerveja era bem conhecida e estupidamente gelada.

O pessoal que me acolheu é forte, alegre, bonito e usa roupas estilosas, coloridas. Os jogadores usavam grifes. Sei que parece meio exagerado e piegas, mas não é. E não há relação alguma com o tráfico. Vários são funcionários públicos, alguns aposentados. Formam a típica comunidade de morro. Um deles deu aulas na escolinha de futebol da comunidade e apontava seus pupilos de 2 metros, que comentavam aos gritos o jogo que havia terminado alguns minutos antes.

Na frente da casa, lá embaixo da escadaria íngreme que pegamos para chegar ao encontro, havia uma academia de ginástica ao ar livre que alguns que estavam ali ajudaram a construir. A casa onde foi feito o churrasco era a mesma de toda classe média brasileira (a famosa classe C, talvez com um padrão superior a este segmento de renda que virou classe social na literatura fácil da economia liberal).

O morro mudou. Dá orgulho.

É isso que me mata por dentro ao ouvir as asneiras do (des) governo Temer. Eles não sabem o que os morros viraram na última década. E querem destruir esta mudança. Pois se preparem. Retirar a segurança e a qualidade de vida que este pessoal começou a conquistar terá um preço alto.

Este pessoal desqualificado do (des) governo Temer pensa que o mundo que conta é o da Corte. Aprenderão duramente como esta é mais uma bobagem do seu repertório.

homem branco não assume, o homem negro também não, e a mulher negra vai e faz tudo o que tem que ser feito“revistacult.uol.com.br

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