A capa da revista Veja desta semana triunfa sobre a desgraça petista (edição 2494, 7 de setembro de 2016). A imagem fala por si: foi concebida não para os seus leitores, mas para os derrotados. Trata-se de escarnecer!

É cruel, mas ingênuo. O PT não acabou! Um partido não desaparece enquanto as condições histórico-materiais que o engendraram estiverem vivas. E o PT foi forjado no cerne da ofensiva neoliberal contra o Estado e o trabalho. Emergiu da resistência de importantes setores da sociedade brasileira que tinham na inflação e na obscena privatização da política seu horizonte imediato de lutas. Embate que permanece protagonista nesta quadra histórica.

E foi devorado pela mesma força que o trouxe à vida: o espírito da burguesia neoliberal! E ela hoje comemora, tripudia. Mas, ao PT, a dor da derrota é ainda mais amarga: soma-se à da traição. Sim, as boas relações de Lula e Odebrecht são expressões de uma crença programática: a de que a relação capital-trabalho poderia ser harmoniosa. Sim, falar em luta de classes era coisa vetusta, démodé. Afinal, o muro caíra para um dos lados. Agora a política é uma questão de perspectiva, do discurso, da arte da negociação. Lula orgulhava-se de seu talento, de sua arte na mesa de negociações com o Capital. A contradição de classes será, doravante, um mero problema de ajuste semântico. Dialética? É o fim do fardo epistemológico! A História parecia dar de ombros para suas pretensões ontológicas… Mas eis que 2008 se aproximava, irresistível: e nada como uma crise econômica para devolver as peças a seus lugares naturais…

Em 1873, Marx apostava que os primeiros engasgos da crise que se pressentia na Europa fariam a dialética entrar na cabeça até do mais tacanho burguês. Ela não é, pois, mera expressão ideal de uma aparência fenomênica. A dialética está no mundo, e deve ser expressada pela teoria. E o PT pensou as categorias como duas unidades substanciais, qual mônadas, cujas relações cumpria, tão-só, harmonizar. Erro sutil, mas fatal; erro lógico… e político! Capital e trabalho não são categorias em si mesmas, mas expressões de uma relação social específica, que os funda e lhes dá seu distintivo social. Assim como o próprio PT é uma expressão de conflitos específicos dados numa quadra histórica circunscrita da vida política brasileira. A compreensão da natureza relacional e conflituosa dessas relações é condição básica para que a leitura sobre a tática e a estratégia esteja em acordo com os movimentos tectônicos da História. E, nisso, o PT se mostrou desastroso. Seu relacionamento direto e cotidiano com as massas foi terceirizado para mediadores burocráticos aplicadores das chamadas tecnologias sociais: quando o ceifeiro do Capital desceu a lâmina, o fez diretamente, com a Constituição em punho.

Agora se projeta a formação de uma frente de esquerda. Como condição básica, adianta-se que não deve haver hegemonia de um grupo ou de outro em sua liderança. Democracia, portanto, sim? Provavelmente essa fórmula de relacionamento político será uma novidade [indigesta] tanto para o PT como para o PCdoB, habituados que estão à adrenalina das pré-reuniões, imprescindíveis no centralismo democrático. Mas a correlação de forças mudou; não apenas na sociedade brasileira, mas na própria esquerda. O PT deve reconhecer que foi apeado do poder, perdeu sua representação popular e boa parte de seus intelectuais migraram de suas fileiras. Possui um candidato representativo, alguns poucos honestos e muitos corruptos. Terá de compor, não para dominar, mas para existir. A Central Única dos Trabalhadores, importante órgão sindical independente que se retirou da tutela do Estado pela primeira vez desde Vargas, terá de voltar à independência: a porta da gaiola está aberta.

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Começou:

A resistência ao governo golpista começou, e se mostra enérgica; como não se mostrou na defesa do mandato de Dilma Rousseff. São coisas diferentes, naturalmente. As polaridades estão flagrantes, a dialética, escancarada. Mas essa resistência, apesar de numerosa, ainda é especializada: são os militantes e a sociedade civil politizada que compõem essas trincheiras. A esses o governo golpista deve enviar, no máximo, seus brutamontes.

Mas à instabilidade política soma-se a crise econômica. Ela é real, aliás, é a própria base material das demais crises, inclusive a política. Ela é o gatilho possível que poderá engrossar as fileiras atuais com a massa de trabalhadores, que ora observa, desconfiada, os gritos de guerra.

Essa é a condição, ou melhor, a reunião de condições que pode suscitar o movimento real na História: movimento real e expressão ideal: unidade entre teoria e prática. A atuação política, nas ruas, em consonância com os tormentos que a crise deve promover, gerará as condições objetivas para a articulação de uma força política de fato popular, que possa assumir democraticamente a condução de seu futuro. Movimentos populares como o MST, MTST e tantos outros, organicamente fincados nas periferias e nos sertões esquecidos, devem conduzir a resistência e universalizar a diversidade dos embates. Para tal, há apenas uma única filosofia capaz de fornecer a lógica adequada para que a refrega das ruas se torne democracia real: o vetusto marxismo e seus homens e mulheres do século XIX. Continuemos!