Na minha adolescência, joguei muita pelada de rua. Hoje, estou mais nostálgico. A pelada de rua sempre é a mais gostosa de todas as peladas. Tem sabor especial, com uma pitada que incendeia a molecada. E a pelada é o jogo mais democrático que existe. Joga gordo, magro, alto, baixo, preto, branco, bom de bola, ruim de bola, pobre, rico. Joga todo mundo. Quem estiver na rua naquele momento, joga. Não tem essa de não jogar. É chegar, sentar e esperar a vez de entrar em time. A diversão é o maior objetivo. Geralmente, são dez minutos ou dois gols. O time que fizer os dois gols em dez minutos vai ficando em campo. Para maior equilíbrio dos times, os melhores jogadores são separados, ficando em times diferentes. Além da diversão, assim o jogo fica mais equânime para todos os times. Mas, há sempre os mais habilidosos.

Quando eu jogava pelada de rua, tinha um tal de Lula que era disputado por todos os times. Ele gostava de jogar no time dos sem camisas. Ele falava que os sem camisas eram mais livres, mais alegres. E esse time do Lula foi virando o campeão das peladas. Na pelada, tem um detalhe muito importante que esqueci de mencionar. Geralmente, o dono da bola é o cara mais chato, ruim de bola , cabeça de bagre  e também o riquinho do bairro. Ele sempre é o último a ser escolhido. O Lula, como era muito bom de bola, escolhia o time e sempre colocava esse cara dono da bola. Como ele não atrapalhava muito, ia ficando no time.

Só que nossa pelada foi ganhando nome, saindo do bairro e até disputando campeonatos municipais. Daí pra disputa de campeonatos estaduais, foi um pulo. E sempre ganhando.

Um belo dia, fomos convidados para disputar o campeonato nacional. E, na final do campeonato de pelada nacional, o Lula, de novo ele, fez uma bela jogada. O jogo tava truncado. Os dois times estavam com o meio de campo fechado. O Lula pegou a bola no meio de campo, driblou um, dois, três, jogou debaixo das pernas de outro, deu um drible da vaca na pequena área e um totozinho por cima do goleiro. Um golaçooo mermão!!!! O Lula era o cara! E estávamos ganhando com os pés nas costas, como se diz. Pra nosso azar, o Lula machucou e não voltou para o segundo tempo. No seu lugar, entrou um jogador mais voluntarioso, que não tinha sua habilidade, nem sua ginga. Além de tudo isso, o dono da bola ficou puto de não ter sido chamado pra substituir o Lula, pois ele era o capitão do time.

Ele era um garoto assim, meio marrento e, no segundo tempo do jogo, em um golpe de covardia, pegou a bola e saiu correndo. Pegou a bola debaixo dos braços e sumiu no mundo. Ficamos todos boquiabertos. Em um golpe baixo, ele acabou com a partida. Ninguém entendeu nada. A torcida gritava enfurecida mas, infelizmente, não tínhamos bola reserva. Bola reserva pra pelada de rua? Isso não tinha.

Perdemos aquela partida por WO. Como o nosso time era o mais querido pela torcida apaixonada e aguerrida lá do nosso bairro, e de bairros vizinhos, não paramos de jogar. Ao contrário. Uma vez peladeiro, sempre peladeiro. Nosso amigo não tinha ideia do que ele fez. Até torcida adversária veio nos dar força, veio incentivar. Ele acabou nos fazendo um dos times mais queridos de pelada de rua daqueles tempos. Teve até torcida que marcou protesto em frente à casa dele contra o golpe baixo.

Ele não sabia que o nosso espírito é de peladeiro. Uma pena! E nem quando um time profissional de burocráticos entra em campo, achando que ganhou a torcida, que o jogo tá definido, não desistimos. É bom ele ficar temerário, pois ainda não deu o tempo corrido. E ainda tem a prorrogação. Bom, ele fica esperto. Nas quebradas, a gente ama jogar pelada !!!