Desde 2013, com as manifestações de junho, a relação conflituosa entre Estado (constituído por instâncias jurídicas e políticas) e a sociedade organizada ficou ainda mais estreita. O ano de 2016, nesse sentido, parece ser a expressão dessa relação, a qual mostra, cada vez mais, a repressão de um lado e a resistência do outro.

Poderia citar inúmeros casos em que a repressão e a resistência se constituíram ao mesmo tempo, como quando a Polícia Militar interrompeu e proibiu a continuidade de um espetáculo de rua, em Santos; quando o Estado ignora as demandas dos secundaristas, que resistem ocupando as escolas; quando a polícia reprime com bombas de efeito moral movimentos de greve; quando o Estado massacra pessoas por morarem no Pinheirinho; ou quando o governo pretende impedir a livre manifestação de emotions em rede social. Exemplos graves e tacanhos mostram como o ano de 2016 não passará em branco, e isso falando apenas de Brasil.

Apesar dessa relação repressão e resistência parecer evidente, há um sentido aí que está funcionando: o esquecimento. A repressão, seja ela qual for, precisa funcionar pelo esquecimento, pois, ao reprimir, apaga-se a construção de uma memória.

A tática da repressão é antiga, na Grécia se puniam aqueles que faziam peças de teatro que lembravam aos atenienses uma guerra e seus inimigos. Os autores eram condenados ao esquecimento e suas peças não podiam mais ser encenadas. Isso não mudou, é assim que o Estado (capitalista) age: combatendo qualquer possibilidade de construção de sentidos outros.

O Estado se utiliza da arte do esquecimento, do que as pessoas precisam “lembrar de esquecer”, como escreveu Nicole Loraux, e essa arte possibilita, em alguma medida, que as pessoas dividam o que precisa ser lembrado e o que precisa ser esquecido, para que a vida continue sendo possível.

Quando o Estado reprime uma manifestação, um espetáculo de teatro, uma demanda social, e a mídia noticia, esse movimento catártico produz nas pessoas a ilusão de que as questões complexas estão aparentemente resolvidas e assim elas podem continuar suas vidas “em paz”.

Pensando nesse Estado capitalista, pergunto: o que é preciso lembrar de esquecer para que a sociedade continue se movimentando? Parece-me que foi preciso criar um inimigo comum, que não é propriamente a esquerda, mas tudo que nos remeta à ela, segregando, assim, milhares de pessoas e individualizando a problemática; pois, ao eliminar sujeitos, apagam-se as questões estruturais.

Talvez estejamos diante de um novo paradigma social, como escreveu Eni Orlandi: ou você está dentro ou está fora, uma resolução maniqueísta entre o bem e o mal. Um mundo que se caracteriza pela violência, pelas coerções, imposições econômicas, a tirania do consenso, a crença em soluções autoritárias e a divisão entre os que devem existir e os que devem ser eliminados, como num jogo de big brother, de uma sociedade cada vez mais espetacularizada.

Esse funcionamento social – reprimir para esquecer – é ideológico e ele parece estar regendo o imaginário social: criou-se o mito da coesão, então tudo que está fora precisa ser eliminado, produzindo a segregação (aquilo que fica de fora).

Enquanto o Estado reprime e impõe o esquecimento, ele imprime uma ideia de consenso; e essa ideia diz que quem resiste a essa ordem consensual é um marginal. O marginal é aquele que carrega o sentido de segregação consigo, tendo o preconceito como base da exclusão.

Não é a primeira vez que tudo aquilo que remete a uma memória e a um sentido de esquerda é marginalizado pelas instituições de poder, por isso que a história não é cronológica e nem evolutiva, mas política. O imaginário repressivo está impregnado em nossa sociedade, por isso a repressão sempre volta, ainda que de formas diferentes.

A praticada pelo Estado se relaciona com o sentido de extinção. Não é apenas a repressão que está funcionando em nossa sociedade, mas a necessidade de esquecimento do outro, legitimado por um Estado que aparece cada vez mais como um administrador técnico da sociedade, tendo o mercado como aquele que rege a vida das pessoas, de modo dominante.

A repressão/extinção como prática de esquecimento não está se realizando pela negação, mas pela afirmação, como quando o Estado desautoriza a ocupação de um espaço público por secundaristas, afirmando que são baderneiros ou vândalos, uma metáfora política de como Brasil atual é permissivo para alguns e repressivo para outros.