“Sua puta”

 “Sua comunista”

Aquele não foi um domingo pacífico para a atriz Letícia Sabatella. Alvo de agressões virtuais desde que optou por revelar certas hipocrisias sociopolíticas, Letícia naquele dia lamentavelmente conheceu um outro lado do ódio, ainda mais intenso, ausente de filtros, ainda mais revelador.

Com as vozes e gestos carregados de raiva, alguns manifestantes que protestavam na cidade de Curitiba gritaram ofensas contra a atriz, aproximando-se, chegando mesmo a esboçar ataques físicos contidos por policiais.

Não há inocência ou ingenuidade naquilo que aflora contra o outro. Carregado de estigmas, criados na ausência da capacidade de exercer a alteridade e alimentados por uma falta de intelectualidade absurda que impede de lidar com conceitos filosóficos, nos xingamentos contra Letícia se condensa um mundo inteiro de explicações.

Valeria se deter nas singularidades do acontecimento, caso fossem exceção. Mas não o são. Ataques desde tipo, cada vez mais frequentes e crescentes- na mesma dimensão da crise política- tornaram-se ordinários, parte do cenário cotidiano.

 “Letícias” sofrem todos os dias com experiências parecidas como esta. Não me refiro aos ataques que eventualmente emergem de um intenso debate, mas sim aos ataques que emergem diretamente do ódio e da barbárie – a partir de pessoas “comuns”, que nada têm de análogo ao estereótipo extraordinário de vilões-  e atingem Letícias, Júlias, Rafaelas, Marias, Paulos, Pedros e mais uma infinidade de sujeitos.

Argumenta-se que a agressividade – esse traço tão humano- é praticada igualmente por lados diferentes. Tão diferente a prática não seria, já que, realmente, demonstramos nossas emoções de maneiras muito parecidas, qualquer que seja o posicionamento escolhido. Tomemos o protesto como uma expressão humana, mas diferenciemos seus métodos e alvos, já que podem ser radicalmente diferentes os seus propósitos: gritos contra uma situação, ou contra um estado de coisas não são, de maneira alguma, equivalentes aos gritos contra uma pessoa. Muito menos contra uma pessoa que protesta pacificamente.

 Não cabe aqui a leviandade da análise que tudo iguala-  geralmente a serviço de quem agrediu. Cabe aqui diferenciar o que está por trás de um “fora, Temer”, ou mesmo de um “fora, Dilma” daquilo que está por trás de um “sua puta” – e equivalentes- carregado de desejo por violência física.

Explicações satisfatórias para estas expressões de violência persistentes não faltam: podemos nos orientar pela teórica política Hannah Arendt, que nos explica – sob o estarrecimento do que presenciou no julgamento do oficial alemão Adolf Eichmann – sobre a banalização do mal e a ausência, o vazio de reflexão que leva os “assustadoramente normais” a praticarem atrocidades; podemos, ainda, mergulhar na obra de Freud para conhecermos as pulsões, principalmente a pulsão de morte; ou então poderíamos enfrentar a obra de Kant para compreender a noção da radicalidade do mal e o imperativo categórico.

As possibilidades são inúmeras, mas convergem para o mesmo ponto: em uma sociedade onde a Educação é quase uma ofensa e a barbárie só faz crescer, é preciso parar e pensar, refletir, transformar.

Este texto é apenas um convite.