Nada como chamar a mentira de verdade, para que ela seja verdade. Tratar um Golpe de Estado como Vitória da Democracia é mais uma infame manifestação de um mecanismo histórico primordial a esse país: o da eternização do passado.

Quando, naquele sete de setembro, há quase duzentos anos, um filho de um rei de Portugal tomou a labiríntica decisão de decretar a independência do Brasil, não fazia ideia da insignificância do que estava realizando para a História do país que pretensamente nascia. A começar que aquilo seria qualquer coisa, menos independente. E por mais que, em seus planos, as coisas devessem continuar sob o controle dos que sempre tiveram o controle, nem seu sonho mais otimista lhe diria que jamais sairíamos do século XIX.

Quando, sessenta e sete anos depois, os proprietários das terras mais ricas do país, com o apoio decisivo do exército nacional, tomaram a decisão de fazer valer seus interesses e assumir o poder do Brasil, também não faziam ideia da insignificância do que estavam realizando para a História da República que pretensamente nascia. A começar que aquilo seria qualquer coisa, menos uma República. E por mais que, em seus planos, as coisas devessem, a partir de então, permanecer sob o controle dos que ali consolidavam o controle, nem seus sonhos mais otimistas lhes diriam que jamais ficariam muito tempo sem o país a seus pés e que essa condição atravessaria os séculos. O embuste de Pedro I ganhava sequência, para se perpetuar como uma espécie de maldição.

Quando, em abril de 1964, depois de muito perturbar, as Forças Armadas finalmente assumiram o poder do país e iniciaram uma Ditadura assassina, jamais poderiam imaginar o quanto ela duraria para além do seu suposto fim. Alguém achou que seria a última vez que as esperanças seriam rasgadas. Ingenuidade nunca nos pode faltar, para que tudo possa ser como sempre.

Hoje, com um empurrãozinho da imprensa mais filha da puta do mundo, tudo o que nos impuseram os militares e as elites se consagrou como o ethos nacional. A colônia, preservada de modo magnânimo pela farsa de Pedro I, conservada ad infinitum pelos donos do país e categoricamente almejada pelo capital externo, ainda está engastada em nossa alma, firme como nunca.

As coisas funcionam de forma estranha no tempo, por aqui. As datas não dizem nada e as mesmas histórias se acumulam como mobília velha em uma casa velha. De vez em quando, alguém faz uma gambiarra nas fiações, alguém veda um cano aqui e outro ali. Quando tudo nos parece absolutamente insuportável, mandamos pintar as paredes da frente com as cores da moda. E, para bancar o restauro, damos um jeito de baixar o salário da faxineira. Não por não termos dinheiro para nada, mas porque temos que gastá-lo em alguma metrópole da Europa ou da América do Norte. Por fora, tudo deve parecer bem. Por dentro, o Diabo se perderia.

É certo que diante da iniquidade arbitrária e fraudulenta, ir às ruas não é garantia de que vai se estancar o golpe e se reescrever a História. No entanto, não ir representa não só que vai se assegurar à mentira uma vida para além de nós, como significa, sobretudo, consentir que se entregue a remotas e conhecidas misérias o destino de boa parte de um povo.