A quem serve o preconceito? O preconceito serve para alguém?

E muito.

Enquanto ficamos nos culpando (o que melhor sabemos fazer) por causa dos nossos preconceitos, inclusive porque não sabemos onde eles residem em nós e como nos livrarmos deles, ou mais, por que nos livrarmos deles, enquanto isso, não notamos de que forma eles vão sendo alimentados em nós.

O preconceito é construído. Ele não vem no gene, no DNA. Ele se reproduz pela cultura, mas é implantado pelos discursos de poder.

E tão bem implantado que temos a impressão de que ele nasce em nós mesmos, no nosso íntimo, ou de que ele é uma resposta “natural”, em defesa, ao que acreditamos ser o certo, o bom, o verdadeiro. Temos a impressão de que sempre foi assim e sempre será.

Muitos não reconhecem o preconceito como um “mal”, um sentimento indesejável. Isso porque sentem que a recusa ao que está sendo discriminado, rejeitar o outro, é absolutamente natural e necessário dentro da cosmogonia em que ele vive.

Se você cria um mundo, uma verdade para o mundo, em que todos os seres devem possuir duas pernas, quem possuir três, seis ou nenhuma será diferenciado do coletivo. E nessa diferenciação cabe um julgamento (quando se pretende o poder): é bom ou ruim ter uma perna, apenas? Do ponto de vista produtivo, ter uma perna é pior do que ter duas. Sendo assim, vamos rejeitar e excluir, ou até eliminar, todas as pessoas com uma perna.

Essas cosmogonias enganosas vão sendo construídas, para nós, através dos discursos de poder que nos rodeiam. Eles são de vários tipos, manifestam-se por meio de diferentes instituições (aliás, instituições foram criadas para dar corpo sólido aos discursos de poder).

Durante muitos séculos, era a Igreja Católica no Ocidente que definia as cosmogonias nas quais TODOS deveriam acreditar.

Uta Ranke-Heinemann, considerada a maior teóloga do mundo, perdeu sua cátedra na Universidade Alemã, ao apresentar seu pós-doutorado, sendo excomungada pelo papa da época, quando publicou seu livro: EUNUCOS PELO REINO DE DEUS, Mulheres, Sexualidade e a Igreja Católica (livro obrigatório para qualquer cristão). Nesse livro, baseado em documentos sigilosos medievais, Uta consegue reconstituir a história do conceito de mulher construída pelos papas, teólogos e pensadores do cristianismo, ao longo de décadas.

Nossos conceitos sobre a virgindade, e seu culto a ela, a visão sobre o aborto, sobre o controle de natalidade e contracepção, a proibição do prazer, as regulações dos corpos, a homossexualidade… toda essa cosmogonia, nossa visão de nossa realidade, foi sendo construída pelo discurso religioso, e com seus consequentes preconceitos.

O discurso religioso é um discurso que não precisa apresentar provas que sustentem seus dogmas. Deus falou, tá falado.

Nessas condições, com Deus tendo todos os direitos adquiridos e absolutos e irrefutáveis, nós ficamos na pior. Eles, donos do discurso religioso, se tornaram ricos. E muitos ficaram mais pobres. Guerras, sangue e a desigualdade, que seria compensada no plano astral, num pós-vida. Tipo: aqui já era, conforme-se.

Em condições de sofrimento é mais fácil você seduzir alguém com um discurso religioso, de esperanças. Funciona em qualquer época.

As pessoas mais simples materialmente, maiores vítimas dos discursos de poder, não são mais ignorantes porque não tiveram estudo, são apenas, e muito, sofridas. E o sofrimento da carne leva à outra forma de encarar a vida. E a morte (inclusive, induzir ao pensamento de que todo pobre, porque não teve estudo, é ignorante e inferior intelectualmente, é a estruturação de um preconceito de classe implantado por um discurso de poder).

O discurso religioso nos chafurdou em dezenas de preconceitos, que cultivamos até hoje!

TODOS os preconceitos ligados à mulher, ao gênero feminino, ou à feminilidade, foram gerados principalmente pela Igreja Católica, que era poderoso sistema de controle, inclusive político, no Ocidente. No Oriente, com variáveis.

Estado laico ainda é utopia!

A chegada do discurso científico, que pretendia provar experimentalmente as verdades, causou muitas mortes, mas trouxe uma nova luz ao conhecimento.

MAS, a vontade de poder não deixou de existir.

O novo discurso, científico, também foi submetido aos desejos de dominação.

Dos primeiros manuais de anatomia ocidental não constavam a mulher, o corpo feminino, ou qualquer outro valor referente somente a ela. A mulher não existia para o discurso científico.

E isso, esse tipo de “erro”, esse tipo de controle, durou até recentemente.

Imagine que o clitóris, fundamental órgão de prazer no corpo feminino, é descrito pela primeira vez por volta de 1500. No entanto, ele só vai figurar definitivamente nos manuais de anatomia, em toda sua complexidade, nos anos 2000, descrito por uma mulher. Mesmo sabendo que ele existia, os manuais de anatomia, o discurso científico, ocultavam o fato.

O que isso quer dizer? Quer dizer que o discurso científico está submetido a escolhas externas ao seu corpo conceitual. A ciência deveria descrever a verdade dos fatos, dos corpos no caso da anatomia, porém, mesmo conhecendo a existência do clitóris, outros motivos levaram o discurso científico a ocultar a informação sobre o único órgão humano totalmente dedicado ao prazer.

Então, identificamos sem dificuldade que tanto o discurso religioso quanto o discurso científico (só para citar 2) decidem revelar e ocultar fatores da realidade, criando assim uma realidade parcial, modificada, forjada, mas que nós, os interlocutores, desconhecemos.

O discurso político não difere.

Da mesma forma, e repetidas vezes, ambos os discursos vêm estabelecendo o certo, o bom e o verdadeiro para a sociedade, conforme seus interesses.

Não vou discutir os interesses, mas quero apenas observar que, para implantar esses discursos em nossos comportamentos, muitos instrumentos são utilizados: o preconceito é um deles.

Preservar o poder de poucos sobre muitos não é uma tarefa fácil. Se for necessária a força física para manter o controle sobre um grupo grande de pessoas, o trabalho torna-se muito dispendioso, temporal e materialmente.

Formas de controle e manipulação menos físicas, mais baratas são os preconceitos.

Por causa dos preconceitos, a coletividade se reparte em grupos menores que lutam entre si. Brancos contra negros, civilizados contra nativos, homens contra mulheres, normais contra anormais, saudáveis contra pervertidos, ricos contra pobres, superiores contra inferiores, etc.

Enquanto as pessoas preservam fervorosamente seus preconceitos, acreditando defender seu grupo contra a destruição pelo alheio, elas na verdade estão preservando o poder no poder.

A história do preconceito racial é das mais antigas formas de dominação entre grupos. A disputa por terra, território, propriedade, sempre foi ligada à guerra, subjugação entre povos, escravidão e preconceito.

São inúmeros os exemplos, sendo o preconceito estabelecido sobre os seres humanos a partir da cor da pele, um dos mais reproduzidos ao longo da história.

Embora o discurso religioso tenha contribuído para os preconceitos entre grupos étnicos, foi o discurso científico que embasou e sustentou, até pouco tempo, o preconceito racial contra negros. Foi o discurso científico que dividiu a humanidade em raças (hoje sabido serem inexistentes, ou ser essa tese infundada), justificando inúmeras atrocidades de povos brancos contra povos afrodescendentes, chamados negros.

O objetivo da disseminação do preconceito racial foi o mesmo na disseminação do preconceito de gênero, o mesmo na disseminação do preconceito social, intelectual, etc.: poder e controle sobre grupos de pessoas.

Suponha que, para algumas pessoas enriquecerem materialmente, outras terão que trabalhar escravizadamente. Como seria possível manter escravizadas pessoas, sem que se revoltem e se recusem ao trabalho escravo?

A princípio, pela violência física. No segundo momento, essa violência é internalizada e mantida pelo do preconceito.

Ou seja, o preconceito tem sido um eficiente instrumento de poder e controle sobre as sociedades.

Supondo que esse raciocínio tenha fundamento no real, podemos entender que alimentar, preservar ou expressar um preconceito é servir ao sistema de opressão estabelecido.

Sendo assim, eliminar preconceitos é uma ação efetiva de luta contra essa opressão.

O mais difícil nessa história toda é fazer o preconceituoso compreender que a opressão que ele expressa (pelo preconceito) contra o grupo discriminado, além de colaborar gratuitamente com o sistema de poder vigente, faz dele mesmo apenas um instrumento e, como tal, oprimido.

E aí cabe a máxima de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.