A debacle do lulismo reanimou a esquerda. Foram anos de anestesia em função da busca ao pote de ouro. A inclusão pelo consumo, a chamada de lideranças sociais para compor o governo, a tutela política e a oferta de políticas focalizadas fragmentaram organizações populares numa miríade de pautas e agendas.

A direita avançou e encontrou o campo popular e de esquerda recuado em seus interesses específicos. E, surpreendentemente, a reação à agenda da direita se fez a partir deste cenário.

Nos últimos dois meses, dediquei parte considerável da minha agenda para subir os morros, conversar com lideranças das periferias dos grandes centros, visitar novas lideranças sociais e dirigentes de novos partidos. O que encontrei foi uma lenta convergência de lutas contra a direita. Uma energia e determinação dos anos 1980, sem a amarração que a igreja católica fazia naquele período.

Dos estudantes secundaristas aos movimentos identitários, do Partido à Frente Favela Brasil, do Raiz Movimento Cidadanista à Frente Povo Sem Medo, do MTST às novas articulações de jovens professores dos cursinhos populares ou artistas e lutas urbanas marcadas pelo autonomismo. O PSOL, em parte, se alimenta deste vitral social. A pluralidade de formas e ideários é a novidade que espanta mofo, ácaros e poeira.

O campo popular se rearticula com o fim da conciliação lulista. Algo que a direita, desprovida de capacidade intelectual e forjada na força, nunca imaginou que despertaria.

Enfim, a máxima de Paulo que Marx surrupiou sem lhe dar crédito parece sintetizar o momento: da fragmentação estilhaçada já é possível vislumbrar alguma forma neste mosaico. A unidade poderá vir do respeito à diferença. Sem elementos exógenos ou vanguardas autoproclamadas. Sem teorias românticas sobre a emergência de um tal “comum” fetichizado por segmentos intelectualizados de classe média.

O Brasil é plural. Sempre foi. Talvez, nossa sina seja a carnavalização política.