Ao mesmo tempo em que fico extremamente indignado com a leniência coletiva e com a subserviência popular frente ao destroçamento social que trespassa o Brasil, debruço-me a tentar compreender as causas desse marasmo que nos faz aceitar com absoluta normalidade um golpe de estado, a venda do pré-sal a preço de banana, o retrocesso em mais de cem anos dos direitos trabalhistas e, logo mais, o fim da previdência publica.

Os mecanismos capitalistas para manutenção do poder nas mãos da burguesia são realmente robustos e refinados: a falácia democrática ajuda a manter um clima de ordem; líderes religiosos amenizam intenções de levantes com promessas de uma vida melhor para os que se comportarem como vacas de presépio; lideranças sindicais vendem a passividade de suas categorias por um punhado de favores e moedas; a grande imprensa joga pesado na desinformação e na catequização dos ignaros; a necessidade de foco nas preocupações e obrigações cotidianas de cada um saca a luz dos acontecimentos políticos, por mais catastróficos que estes se apresentem – sempre no sentido de priorizar as ocorrências rotineiras.

No entanto, ainda que sejam estes fatores importantes na composição desse nosso comportamento passivo e masoquista, entendo que a razão principal de aceitarmos esse caos que nos impõem é que somos todos egoístas e individualistas de berço; temos a competição como valor introjetado desde a primeira infância e assim acabamos por aceitar pragmaticamente a desgraça coletiva desde que enxerguemos alguma fresta individual de escape.

Que merda de mundo criamos, que merda de sociedade alimentamos e que merda de gente nos tornamos!