Há quem imagine que situações surreais ou absurdas caminham ao lado do pânico, que imobiliza. Os desavisados são surpreendidos e realmente empacam. Se o absurdo se multiplica em mais desfaçatez, cria-se a impressão de que um mundo paralelo, uma paralogia, se apresenta logo ali. A reação é, muitas vezes, a das crianças imaginando a chegada do bicho-papão: fingir que não vê ou cobrir a cabeça com o lençol.

Mas não é somente impotência que o absurdo gera. Gera potência, também. De duas naturezas distintas.

A primeira, aquela fundada no escárnio provido da certeza da dominação completa dos produtores dos absurdos sobre os pobres mortais. A sensação é um sofisma, mas carrega o corpo de adrenalina e estimula o confronto e mais uma carreata de absurdos. Como a de invadir um hospital, no horário em que uma pessoa está aguardando ser operada devido a uma grave doença, para prender um parente seu, indefeso e procurando forças para ser positivo.

Mas há a segunda potência: o humor, o discurso que estica o absurdo ao limite, tornando-o uma frágil tentativa de convencimento sobre a mentira. Ionesco foi um mestre desta técnica discursiva. Gogol também trabalhou o absurdo que se esconde no trivial, como em O Nariz.

O absurdo, enfim, é uma mentira e, de certa maneira, uma paranoia. É uma evidente fuga da realidade, muitas vezes motivada por derrotas sucessivas ou um desamor que persegue o seu autor por grande parte de sua vida. Algo que seduz e motiva um baixinho, com jeito e cara de velho, cuja fala é previsível e sonífera, o que lhe projeta na conquista de uma jovem curvilínea como que para sugerir que atrás do estilo decadente há algum segredo que a maioria ignora.

O absurdo é um embuste. E uma boa maneira de enfrentá-lo é brincar e ridicularizar sua fantasia destrutiva e autoritária.