Quantas e quantas vezes ouvimos que liberdade é ter escolhas?

Escolher é um exercício fundamental de liberdade. Não escolher ou escolher em âmbitos distantes do senso comum também é, mas pouco se fala disso…

Sem uma consciência crítica mínima, principalmente, quando falamos em hábitos de consumo, o risco de nossas escolhas se tornarem prisões é imenso. Taí o endividamento que não me permite mentir… Principalmente, quando diante de inúmeras pressões e impressões, acreditamos que é mais urgente e necessário escolher sem questionamento que, simplesmente, ponderar. Faz parte da ansiedade ambiente…

Não adianta se debater: hábitos ou sua ausência são escolhas. Sim, você acha que é livre para tomar veneno todos os dias e jogar a garrafa pela janela, mas este mundo aí da liberdade pela liberdade está com os dias contados. E não cabe no Novo Paradigma, justamente, porque os tempos do absolutismo individual estão no fim. Há pessoas que se coçam diante da palavra “coletivo”, mas estamos diante da primeira causa coletiva da humanidade. Sustentabilidade não é propriedade privada, ainda que as consciências sejam individuais e os investimentos em farsas verdes sejam muitos.

Alguns hábitos vendidos como imprescindíveis não eram imprescindíveis antes da orgia consumista e, decerto, serão esquecidos quando e se toda essa insanidade do consumismo acabar, por um simples motivo: são supérfluos. E sendo supérfluos, consomem recursos naturais, energia e investimentos nada prioritários, diante de uma clareza inquestionável: os recursos naturais disponíveis são finitos! Óbvio que não dá no mesmo priorizar o essencial ou delirar em frivolidades… E para quem relativiza, basta pensar naquelas coisas que sempre foram e sempre serão. Coisas sem as quais ninguém sobrevive.

Embotados de rotina e senso comum, intoxicados de hábitos, publicidade e apegos a insustentáveis valores herdados, fazemos de conta que tudo é imprescindível, contanto que caiba no que determinamos como “normalidade”, e batemos no peito: – Eu sou livre para beber veneno todos os dias e jogar a garrafa pela janela! – Eu sou livre para poluir o que bem entender com meus efluentes porque pago pelo que consumo e não compro nada ilegal! – Eu sou livre para produzir o que eu quiser pelas regras do mercado, e dane-se o mundo!

No dicionário dos entusiastas deste mercado do empreendedorismo inconsequente, liberdade só tem uma tradução: EU!

Mas não estamos sozinhos, por maior que seja a solidão imposta pela mercantilização de tudo… É a partir de nosso padrão de hábitos de consumo que decidimos o que é necessário e o que é supérfluo. Antes das mercadorias e pedaços mercantilizados de vida que consumimos, são nossos hábitos que devemos questionar.

Então, procure reparar o que é escolha de fato no imenso mercado de tralhas coloridas e bem desenhadas que tantos supõem como opções… Mas antes de se obrigar a escolher entre produtos, serviços, investimentos, despesas, procure observar o que sustém seu hábito.

Memória afetiva? Prazer? Consciência de classe? Baixa autoestima, alta? Inveja? Sedução publicitária? Senso de privilégio? Insegurança ou sensação de inferioridade? Autoimagem? Vida profissional? Pressão social? Pertencimento? Compensação? Recompensa? Por que você faz questão de preservar hábitos que, muitas vezes, são prejudiciais à sua saúde ou de outrem, que são nocivos ao meio ambiente ou à sociedade?

Seja radical! É tempo de questionar hábitos! É tempo de mudar hábitos! E mesmo o mais individualista de nós terá que entender que não mudará o mundo se não mudar a si mesmo – na prática!

Se estiver certo da necessidade de um item de consumo, procure ir à raiz do que está disponível no mercado e repare: uma infinidade de produtos e serviços à venda são meras versões. Muda embalagem, cor, preço, linguagem publicitária, nicho de consumo, mas, não raro, é a mesma matéria-prima, o mesmo processamento e, pior: o mesmo Ciclo de Vida!

Compramos em ondas. Ondas industriais, tecnológicas, científicas, políticas, ambientais. Muda o design, então, achamos que temos exclusividade… Mudam as cores e achamos que mudamos de estação. Enquanto isso, quem produz pigmentos determina nossas cartelas…

Mas não se engane. Devastamos em ondas, do mesmo modo. Compramos e descartamos segundo ditames do mercado, da sociedade, da moda, das tendências. Compramos porque já desenvolvemos o hábito doentio de comprar, inexoravelmente, todos os dias, o tempo todo.

Não comprar, mesmo o que sabemos que não devemos comprar, ainda não faz parte de nossa cultura. E é tudo que nosso planeta está pedindo: que deixemos de consumir desnecessidades e deixemos de estimular a produção de passivos desnecessários! Não é caso de privação, não. Podemos viver com relativo conforto sem tamanha desigualdade e degradação, uma vez que em poucos anos seremos nove bilhões de pessoas consumindo praticamente as mesmas coisas.

Independente das razões de ser dos produtos, dos hábitos de consumo e demandas impostas por todos os meios de mídia e marqueting, em nossos dias — e já com atraso de décadas no Brasil –, cresce a cultura do Consumo Crítico, baseada na observação dos Ciclos de Vida. Portanto, seus hábitos e suas escolhas de consumo devem levar em conta as implicações socioambientais envolvidas. Parece óbvio, redundante, cansativo, mas teremos que assimilar o assunto.

Apenas como exemplo, há cento e poucos anos ninguém usava xampus industriais. Inicialmente, xampus foram desenvolvidos para problemas dermatológicos causados pelo tingimento de cabelos. Eram vendidos especificamente para isto… Logo, uma diversidade incrível de xampus e outros milhares de cosméticos tomou conta do mundo. Cada marca com suas séries de produtos, cada produto com suas embalagens, cada embalagem com seu rótulo, promessa miraculosa e conteúdo. Cada centavo de lucro com um Ciclo de Vida e os consumidores financiando todo o processo.

Você tem ideia de quantos xampus existem? Só no Brasil, em torno de quarenta fabricantes mantêm linhas completas de xampus com, pelo menos, seis princípios ativos cada. Fora os xampus neutros, fora os manipulados artesanalmente, fora os xampus em barra, fora os cremes, máscaras e, claro, os que se dizem ecológicos… Você é livre para escolher entre essas quase trezentas opções. Mas já se perguntou se realmente escolhe algo além de um ou outro detalhe?

E por que você tem que usar xampu?

O artigo ficaria muito mais longo se eu detalhasse a composição dos xampus até concluir que a maioria é feita do mesmo jeito. O que você escolhe, eventualmente, é um princípio ativo, uma função. Talvez, influenciado por preço, características da embalagem e muita, muita publicidade… E por maior que seja o diferencial, o contraponto ao hospício insustentável de opções e possibilidades estéticas é que a humanidade chegou ao século XX usando tratamentos capilares simples e muito eficazes. Coisas chãs como ervas, frutas, sabões artesanais, óleos naturais e muita, muita água pura.

Sim, tais simplicidades funcionam! Tão bem quanto ou melhor que os produtos industriais!

Este é o olhar do século XXI. Todo e qualquer xampu que você escolha tem praticamente a mesma origem e o mesmo destino: recursos extraídos do meio ambiente voltando na forma de efluentes para o meio ambiente, sacou? Vai pelo ralo tão logo você se enxagua… Claro que limpa, alisa, amacia, perfuma, encaracola e dá brilho. Mas não há garantia alguma de que toda essa química presente em sua composição seja, um dia, retirada da água – essa água preciosa de todos nós — por qualquer tratamento. Além disso, a maioria dos cosméticos vive de dependência, ou seja, você vicia seu cabelo em silicone, por exemplo, e vicia seu hábito ao toque e seu gosto pela semelhança com os modelos, e acaba se esquecendo de seu cabelo como ele é.

A propósito, você tem memória de como era seu cabelo antes de começar a usar xampus?

Então, que liberdade de escolha é essa que não lhe diz que meia banana e uma colherinha de bicarbonato de sódio são suficientes para produzir um excelente xampu hidratante, a um custo ínfimo e praticamente gerando zero de passivos? Por que a tal liberdade nunca inclui o não uso, o não consumo, a alternativa gratuita? Não lhe parece desonesto omitir isso?

Cá pra nós, estou há mais de uma década sem tosar a cabeleira enroladíssima deste armênio. Há oito anos, os únicos produtos industriais de higiene pessoal que compro são, eventualmente, sabão de coco e bicarbonato de sódio. O resto são os princípios ativos que livre mente escolho entre frutas, chás, óleos e sumos. “De grátis”, ecológico, funcional, sem prejuízos à vaidade… Vai querer?

Entre alunos felizes e satisfeitos que deixaram de posar de bichos de pelúcia siliconados pela indústria — por derrubarem, às vezes, quarenta por cento das despesas deixando de comprar xampus e cremes e máscaras e químicas e bombas ambientais para esfregar no cabelo e no corpo — tenho visto gente belíssima, muito asseada e vaidosa dos cabelos com que nasceu, e com o sorriso lindo dos que não aumentam a sujeira do mundo.

A mesma lógica cabe de um simples talher a um imóvel. Promete que vai pensar nisso para muito além dos xampus? Então, tá…

As classes aburguesadas que constituem o deserto consumista – inclusive, as que preconizam o capEtalismo verde como o melhor dos mundos — padecem de completa confusão mental quanto a prioridades. Optaram pelo alheamento, descolaram da sociedade a partir de seus privilégios e acreditam que seus padrões são diferenciados quando, na real, são apenas uns ou outros entre nichos de mercado.

Apesar de todo o estardalhaço ambiental, os consumistas perderam por completo a liberdade de escolher, exatamente porque não conseguem mais distinguir desejos de necessidades. Nem se lembram do básico e, por consciência de classe, apostam alto na “nobreza” de consumirem para muito além do necessário… Urram pela liberdade de não entenderem seu papel no planeta, mas sabem muito bem que estão negando o direito de toda a sociedade a um mundo mais saudável e sustentável quando decidem escolher e beber – e, depois urinar – sua dose diária de veneno e jogar a garrafa pela janela…

Vale registrar o verbete do Aurélio.

Privilégio [Do lat. privilegiu.]

S. m. 

 1. Vantagem que se concede a alguém com exclusão de outrem e contra o direito comum. 

 2. Permissão especial. 

 3. Prerrogativa, imunidade. 

 4. Dom, condão.

Se, historicamente, privilégios significam imunidade, inclusive às necessidades, o grande sonho de consumo da maioria das pessoas cujo bom senso foi incendiado pela cultura de marqueting é ter plena liberdade somente pelo prisma dos desejos. Nessa hora, vale o direito – o direito de desejar e de buscar o deleite do poder de compra como senha para o “nirvana” do infinito acesso aos bens do cardápio, todos feitos na mesma cozinha insustentável.

Sim, o capEtalismo diz que somos livres para destruir o planeta, contanto que isso gere mais oportunidades, sejam lá quais forem, de lucros.  Sim, é tido, ainda e por muito tempo, como sensato destruir – mesmo que à sombra de uma forja legal sob medida – em nome do crescimento econômico infinito…

Não importa se direitos mínimos deixarão de ser honrados, se o outro — esse sempre outro que é como nós mesmos – padecerá refém de uma corporação ou de qualquer aventura para obter um mínimo de renda em nome dessa liberdade. Importa é que possamos, todos, beber o veneno escolhido e — opa, temos que ser sustentáveis – e reciclar as garrafas!

Este é um grave problema nas relações de consumo desconectadas da cidadania e refogadas nessa água suja da meritocracia.  A maior parte do que consumimos naturaliza privilégios. E as pessoas pensam, de verdade, que podem e devem comprar tudo que seus méritos convertidos em dinheiro conseguirem comprar. Não apenas consagram supérfluos como extremamente necessários, como desdenham dos que mal conseguem consumir o básico… Não é incrível como o dinheiro sobe à cabeça das pessoas transformando hábitos dispensáveis em referência psíquica de bem-estar e a negação do essencial em privilégios?

Olha o nervo saltado aí. Consumir para além do essencial é um privilégio! Também porque trabalho e renda para além do essencial são privilégios. Que poder de barganha para quem emprega, não?  Ou em algum momento vivemos o pleno emprego?

Vamos deixar de inocência. Se consumir além do essencial – como se o acesso ao essencial fosse direito garantido — não fosse privilégio, o consumo não seria estratificado em classes pelas usinas estatísticas oficiais. E os xampus e outras tralhas não seriam vendidos em lojas, prateleiras, embalagens, rótulos tão diversos, repletos de especificidades.

A impressão que fica da lógica institucional voltada para classes já distantes do básico é que os que não podem consumir – haja vista a falta de renda — não têm direito a coisa alguma. Não é à toa que o mínimo que se propõe como cumprimento da Constituição visando justiça social seja automaticamente metralhado como paternalismo, populismo, barganha eleitoral, comunismo…

Saca só… Justiça social e sustentabilidade são indissociáveis. Não é preciso esforço para compreender que o que está em questão quanto à Sustentabilidade não são privilégios de consumo, mas direitos a partir de necessidades. Nossa tensão global acerca do Novo Paradigma é regida pela velha rinha ideológica que contrapõe privado e coletivo, privilégios e os diretos. Então, raciocine comigo… Há como sonhar com Sustentabilidade na primeira pessoa do singular?

A velha negação do óbvio está em seu auge e precisa ser questionada frontalmente se quisermos sobreviver ao colapso anunciado. Teremos que falar em Consumo Crítico. É inevitável, para além de qualquer didática ambiental focada na natureza. Porque é o consumo que produz as demandas por recursos. É pra repetir até…

Por que você acha que a mídia investe milhões em imagens de degradação socioambiental, mas jamais fala em prioridades ou demandas de consumo impostas por seus anunciantes como causas da degradação dramatizada? Questionar o consumismo e perder anúncios? Jamais! Mais fácil dizer groselhas vagas como “O homem está destruindo o planeta!”… “Salve a natureza!” [de quem?]… “Precisamos amar os animais!”, “Faça sua selfie plantando uma árvore!”… Ora, é mais fácil associar marcas aos sentidos das pessoas e fazê-las crer que usando este ou aquele produto verde evitarão o dramalhão ambiental do que puxar o fio que leva às causas de todos os desastres, nossos hábitos de consumo!

Tenho dito por aí que, se as pessoas soubessem como são feitas todas as coisas que consomem, voltaríamos nus e a pé para as florestas – se ainda houvesse florestas… Também costumo dizer que quanto mais demorarmos para mudar nossos hábitos, menos voluntárias serão nossas mudanças.

A liberdade de consumir é imposta pelo mercado, será tão difícil de assimilar? Basta olhar ao seu redor e constatar a degradação absoluta da sociedade e do meio ambiente para entender que, em si, a liberdade proposta pelo mercado é um equívoco. E o pior, toda a legislação que aí está é eivada pelos lobbies corporativos, distantes demais da sociedade e deste mesmo meio ambiente que evocamos como reserva de vida.

As pessoas bradam por liberdade. Liberdade de comprar. Liberdade de fazerem o que quiserem contanto que paguem, em dinheiro, por isso… Rasgadas as prioridades essenciais, restam as liberdades toscas de escolher as cores das tintas de seus carros, seus canais de tevê e operadoras,  a espuma que recheia seus colchões, a marca da margarina, os modelos de seus eletrodomésticos de metal e plástico, o entretenimento a que chamarão de cultura, o sabor dos alimentos com que entupirão suas veias… Mas em momento algum compreendem que tal liberdade é irreal à medida que nega o direito coletivo a um meio ambiente saudável, equilibrado e sustentável, ou seja, à medida que nega o direito das próximas gerações a terem escolhas!

Uns tantos autores já divagaram sobre as falsas liberdades de escolha e temperos com as quais somos cozidos neste sistema. Infelizmente, muita gente se recusa a parar para pensar a respeito, inclusive, porque sabe que o questionamento, mais que indignar, humaniza, evoca direitos, acende a chama justiceira, faz lembrar tudo o que tem sido enterrado em nome desse folclore de sobrevivência urbana baseado em jogos de meritocracia, empilhamento de classes de consumo e expropriação de recursos naturais coletivos para o lucro de uns poucos…

A ruptura cultural necessária, a recostura estética e referencial para o século XXI, pautada pelas urgências em Sustentabilidade de Fato, o necessário desapego, cada vez mais, deixam de ser uma provocação ideológica, uma subversão do capEtalismo, uma “pegada” de consciência de aloprados e ecochatos para tomar contornos de paradigma.

Perdidos na rotina política institucional, ainda não assimilamos o quanto há de identidade entre os processos de Sustentabilidade de Fato e o ideário humanista, coletivista, solidário. E este é um dos porquês da urgência do capital em deturpar qualquer olhar ideológico e impor o fascismo global a toque de caixa. As causas humanitárias, sociais, ambientais, todas enraizadas no mesmo pertencimento e no direito ao meio ambiente, começam a soldar seus pedaços e, aqui e ali, recusar o consumismo, recusar a fórmula de mercado, recusar aquela dose de veneno insustentável justificada pela reciclagem da garrafa.

Estamos assistindo a uma reação global do capital a todos os movimentos ligados ao Novo Paradigma. Apropriações de pautas, contaminação de representações, corrupção de legitimidades, psicopatas assumindo o poder, trituração de direitos e tudo mais que constitui os métodos tradicionais dos que não aceitam que seu tempo acabou…

O que fica claro nas transformações em curso, no desinteresse da juventude pelo velho paradigma, no êxodo em direção a ecovilas, no sucesso de alternativas orgânicas de produção de alimentos, no desapego material crescente é que aqueles que são um tanto livres e escolhem de verdade querem viver suas vidas sem as garras do mercado fincadas em seus corações espremendo escolhas a serviço do lucro.

Liberdade de escolhas? Uma sociedade que não consegue mudar simples hábitos de consumo em nome da vida, do coletivo, de seus próprios descendentes, sabe o que sobre liberdade?