Uma das características mais marcantes da sociedade industrial é o fato de que ela isolou cada vez mais os indivíduos. Hoje em dia é cada um por si. Basta andar pelas grandes cidades do mundo e perceber que elas são habitadas por multidões de indivíduos isolados, trancados e incapazes de se comunicarem uns com os outros.

Apesar dos avanços tecnológicos na área da comunicação, ironicamente cada vez mais nos comunicamos menos e pior.

Na esteira deste processo cada vez mais rápido de individualização, veio também a quase extinção do senso de pertencimento e de coletividade. É cada vez mais raro as pessoas se sentirem verdadeiramente pertencentes a algo maior. Membros de uma comunidade ou de uma classe social que compartilhem valores. É um grande cada um por si.

Mas, apesar de raro, existem ainda manifestações humanas que mantêm este senso de pertencimento, como o futebol. A relação dos torcedores de futebol com seu clube lembra muito o das tribos com seus totens. Os totens são elementos simbólicos que revelam como as tribos veem a si próprias, e estes símbolos podem ser desde animais, rios, montanhas, plantas e até os alimentos que a tribo consome. Ou seja, o totem, grosseiramente falando, é o que mantém a coesão, a unidade e a sobrevivência da própria tribo. Uma das poucas coisas que unem as pessoas hoje em dia é o futebol.

Os totens dos clubes podem ser seus distintivos, as cores da camisa ou os mascotes. Os mascotes, especificamente, geralmente simbolizam características positivas que os torcedores projetam em suas equipes do coração. E o leque de símbolos utilizados é grande. Eles podem ser animais, máquinas, santos, personagens folclóricos, forças da natureza, personagens literários ou de história em quadrinhos.

No mundo dos animais, temos o galo (Atlético Mineiro, Ituano, XV de Jaú, Independente de Limeira), que remete à virilidade; a raposa (Cruzeiro), que lembra a esperteza; o coelho (América-MG), simbolizando a fertilidade; o leão (Sport, Fortaleza, Inter de Limeira); o tigre (Novorizontino-SP, Criciúma); o touro (Barretos-SP), representando a força; a cobra, caçadora astuta (Santa Cruz). A lista de animais é enorme; tem tubarão,

tucano, lobo, tamanduá, pantera, cachorro, formiga, carcará, canário, águia, gavião, timbu, cavalo, dinossauro, jegue e muitos outros.

Em muitos casos, para entender o porquê da escolha de um determinado mascote, basta compreender o que eles significam, como fiz nos clubes acima; em outras situações, a escolha se deve muito à fauna da região do time, como o jegue do Jacobina, da Bahia, ou o carcará do Salgueiro, de Pernambuco.

Da mesma forma, torcedores rivais criam totens “heréticos” que têm por objetivo ofender e provocar seus adversários e que ironicamente, em alguns casos, perdem seu caráter ofensivo ao longo do tempo e acabam sendo também adotados pelos alvos da ofensa, como o porco pelo Palmeiras, o urubu pelo Flamengo e a macaca pela Ponte Preta. Outros, no entanto, mantêm o caráter agressivo, como o gambá para o Corinthians e o bambi para o São Paulo.

De qualquer forma, este componente tribal do futebol demonstra o quanto os seres humanos, apesar das evoluções tecnológicas e das transformações sociais ao longo da história, mantêm certas características elementares e, por mais que se tente disfarçá-las, sublimá-las e até mesmo extingui-las, elas ainda permanecem vivas. No caso, por mais que vivamos em um mundo cada vez mais individualista, ainda temos a necessidade de nos sentirmos parte de algo maior, necessidade esta que é satisfeita, para muita gente, pelo futebol.

Se o futebol é capaz de revelar o melhor e o pior que existem em cada um de nós, ele também é capaz de revelar nossos traços mais ancestrais, até mesmo aqueles que acreditamos já terem se perdido. Podemos até não viver mais em tribos, mas de alguma maneira a tribo ainda vive dentro de nós.