Do amigo nano empreendedor lutando pelo caixa da empresa no térreo da rotina aos impérios corporativos de evidência geopolítica, a obstinação pelo crescimento econômico patológico é a mesma, e recai sem questionamentos sobre o trabalhador. O Estado e instituições a reboque ardem da mesma febre e o sofisma do progresso ganha o endosso da sociedade com ares de privilégios que não são bem seus.

Ainda que sejamos signatários de acordos para mitigar as tragédias socioambientais em curso, nenhum dos atores do que convencionamos chamar “realidade” dirá, olhos nos olhos de seus descendentes: – Sonhamos um novo modelo de bem-estar social!

Na economia da negação do óbvio e do relativismo ético, é garantida a liberdade de investir e lucrar explorando sociedade e meio ambiente. Para muito além de qualquer prioridade social, o mercado cria leis e as cumpre como se fosse natural manter o ritmo de expropriação dos recursos e escolhas disponíveis para o futuro.

A cadeia alimentar privatista faz crer que tudo que há no perímetro de posse da terra dá direito ao que há sobre e sob a terra. E vai além. Em qualquer parte do planeta, montanhas de logomarcas rangem entre dentes, sob resíduos: – Quem me pariu, lucrou!

Se for óbvio que não há um meio ambiente privado e outro público, desvelar a obviedade é recusar-se à naturalização dessa infecção do crescimento pelo crescimento. No entanto, mesmo entre os que lutam por transformações, parece haver uma privação de sentidos, uma recusa íntima em compreender a causa como um todo. Entre ideologias e esquizofrenias, vamos cindidos por aí, sem saber quem é responsável pelo quê, e qual sustentabilidade é para quem…

Será mesmo que o Capital está do lado de lá de nossos hábitos e mimos civilizatórios, anseios, confortos e manias, isolado de nossas utopias?

Dormimos e acordamos com o inimigo todos os dias. Somos parte do problema. Aceitamos o acordo capEtalista a cada item de nossa lista de despesas. Trabalhamos para o crescimento. Produzimos para o crescimento, e nós mesmos compramos toda a tralha que gera e mantém o lucro que não vemos. Somos os sócios opacos que pagam a conta, mas não sabem do quê… Investimos nossas vidas em produtos. Bancamos a obsolência, a negação do óbvio e a futilidade de tudo que é produzido. Nós mesmos atropelamos nossos anseios maiores e referências de prioridades. Compramos conteúdos, publicidade e embalagens. Pagamos, em tudo que compramos, pela produção, pelos custos de vendas e pelos resíduos.

Quem lucra — independente de lei ou consciência — despeja a responsabilidade pelas consequências sobre o coletivo. O Estado também faz seu papel de sócio silente, e impõe à sociedade o retorno das matérias-primas ao mercado, através da voluntariosa coleta seletiva e da reciclagem. Além de assumir o que não é só seu, o cidadão acredita que isto basta, e segue consumindo e lutando para consumir mais e mais…

Cada item material de nossas vidas existe porque assim desejamos. Tão óbvio quanto “ter” parece seguro em todas as medidas, o tempo que investimos no que compramos e mantemos e cuidamos e lavamos e limpamos e ostentamos e, claro, usufruímos um pouco; parece não ter tanto valor assim. Fazemos de conta que nosso tempo não nos custa nada, – vai no embrulho. Doamos, gratuita e mansamente, nosso melhor tempo de vida ao mercado. E não nos perguntamos: – Pagamos essa conta e ainda temos que limpar o planeta, em troca de quê? Do futuro de quem?

Se nos dizem que um sofá fofo com “design” xis; uma grande tela de plasma de tecnologia fugaz ou um tapete com quinze centímetros de pelos sintéticos cheios de ácaros significam conforto, pagamos por eles. Endividamo-nos como se mobiliássemos, não a sala, mas o oco do peito. Como se isso sanasse o vazio da escravidão à rotina… Todos têm direito ao alento, ao descanso, a um mínimo de conforto material! Mas passar a vida anestesiadxs por coisas e para coisas?

Você que sonha com a aposentadoria e o dia hipotético em que, finalmente, plantará seus amigos, seus discos e livros, e nada mais; considera sua participação, consciente ou inconsciente, corresponsável ou cúmplice, pela fração de danos socioambientais gerados pela espuma de seu colchão, o pneu de seu carro, seu chinelo ou aquela máquina de lavar que samba nos fundos de casa?…Haverá sítio tranquilo próximo à natureza quando chegar o dia?

Sério que você não tem nada com isso? Ou é melhor nem pensar? De repente, o melhor negócio é aceitar que, antes de qualquer  capEtalismo opressor, nossa consciência é a maior ameaça à nossa renda e, portanto, ao nosso padrão de consumo. Mas isso fica entre nós, certo?

Comprar é uma forma de investir indiretamente… O custo de todo o ciclo de vida de um produto ou serviço é dividido entre os consumidores. Não é difícil desmistificar o economês usando nominhos simples e didáticos. Não é preciso grande esforço para aceitar que é você mesmo quem financia a festa, e pouco se diverte.

Ciclo de vida? Faça uma lista simples, é como montar uma árvore genealógica, porém, em vez de nomes de antepassados, locais e datas de nascimento e morte, você vai lá e coloca a matéria-prima, os insumos, relaciona passivos sociais e ambientais gerados, os custos energéticos e outros detalhes da pegada envolvidos em cada fase do processo. Enfim, são essas as informações que não aparecem nos rótulos e anúncios. São verdades omitidas dos consumidores por corporações, governos, mídia – mesmo quando dissimulam que estão vendendo para o consumidor “consciente” – leia-se, você ou quem vai entrar com a grana e endossar o empreendimento.

Consumo Crítico demanda investigação permanente de informações isentas, não patrocinadas por quem vende. Raríssimos os “empreendedores” francos a ponto de escancararem, na íntegra, o modo de produção que sustenta seus lucros. Está bem, sustenta fornecedores, prestadores de serviços em geral, salários, sindicatos, impostos, governos… Pode sustentar o mundo, mas a honestidade começaria pela clareza de que, não fosse pelo lucro, raramente o empreendimento existiria.

Dizem que empresas têm função social. E não podemos negar que há gente muito bem-intencionada por aí. Mas sabemos que nem todas as informações são consideradas como direito de quem consome. Sabemos que há produtos e serviços dependentes de alienação, entretenimento, publicidades questionáveis, enfim, itens completamente inúteis, inócuos e mesmo perigosos – à venda, à luz do dia, não é?

É preciso dizer que o direito ao sigilo de quem produz é, muitas vezes, maior que o direito ao bem-estar de quem consome. Não há contrapartida ética efetiva nessa troca: as pessoas compram o que consomem sem saberem o que, de fato, bancam.

A verdade suficiente e “consciente” – sem direito a didática ou olhar crítico — é editada por quem produz; limitada a rótulos, folhetos, pirotecnia publicitária… Pouco sabemos, pouco querem que saibamos neste livre – pero no mucho – mercado, esta entidade de tantas mãos invisíveis onde a consciência é combatida por prejudicar as vendas de venenos, vícios e engodos bem embalados.

Por exemplo… Nossas tradições de alimentação e saúde estão decadentes e são, na prática, mola de vendas da medicina institucional. Pela doença maior; a inconsciência pela dispersão; cria-se um ciclo de “sustentabilidade” para o mercado da doença.

Enquanto isso, a atenção das pessoas é preenchida por estatísticas, anúncios, entrevistas, especialidades, pesquisas em apoio às vendas bombando na mídia com anúncios simultâneos, síndromes pontuais catalogadas a cada dia para vender mais procedimentos, mais seguros, mais medicamentos… E ainda me aparece gente orgulhosa de ter uma doença raríssima, como se fosse grande privilégio!

O rombo que estamos abrindo sob nossos pés é financiado por nós mesmos. Pode até ser que nosso sócio seja um opressor, um completo mau-caráter, sociopata, mas dizer que o combatemos de outra banda quando o fazemos dentro de suas regras e somos seus parceiros em cada tolice que o mercado põe em nossos olhos, é incoerente.

O símbolo maior do consumismo, moralmente, a mais pobre de todas as classes — a classe média —, é, hoje, o modelo de tudo que não podemos apontar como sustentável. Não pode ser meta de ascensão social ou cidadania nem modelo de bem-estar. Insuflar o sonho burguês como desígnio de dignidade ou querer isto para outrem é um equívoco imenso, um endosso à barbárie socioambiental que vem logo ali!

Já somos grandinhos para saber a verdade. A vida de consumidores – nascer em hospital, ir à escola paga, esfolar o viço atrás de uma profissão serviçal ao mercado, eventualmente, empreender; aprender a psicopatia corporativa, engordar, pagar boletos, carnês, juros, antidepressivos, tomar empréstimo para quitar dívidas, pedir aposentadoria e ir pescar — não é mais unanimidade. Mas o modelo de normalidade que sustenta o mercado é constituído por variações mínimas… Por isso, quem desperta da narcose de classe média – ou do sonho de chegar lá [lá, onde?] – precisa aprender urgentemente que hábitos não são dogmas pétreos. Hábitos, principalmente, aqueles que fazem mal a quem os mantém — e garantem lucros assim mesmo –, precisam ser questionados com a coragem de desobedecer a si e ao mercado.

Então, ainda que sob o risco de ser linchado, proponho um exemplo. Doloroso, antipático, até. Mas necessário, porque didático e; por que não?; sarcástico, uma vez que mete o dedo na ferida do apego ao banal. E vira!

Digamos que você, rebelde antissistema ou classe média ou ambos, mas consumidor assumido, quer chamar uma pizza. Sim, a santa pizza de todo sabadão, monumento ao entretenimento, desígnio de urbanidade, o rango da celebração, troféu do tesão reprimido  – aquela pizza: fumegante, queijo gorduroso empoçado sobre molho de tomates intoxicados e massa de farinha branca com fio de azeite, quase sempre batizado – enfim, aquele festival de “commodities” ao forno que o povo da medicina jura que faz mal, mas também compra, come e recomenda.

Na hora da pizza, amigx, você não está nem aí com ciclo de vida de coisa alguma. O sigilo industrial, suas coerências, veladas autocríticas, autoconhecimento em falta, questões de classe, seu lugar na cadeia de consumo, seus vieses partidários ou sua saúde – não importam. Só importa o instantâneo, o fluxo de prazer aprendido.

Claro que um ecochato vindo a pé da Eco 92 não seria seu convidado… Mas já que usei o exemplo, o convite é meu. Se não estiver traçando sua pizza, pense comigo…

O que é necessário para que a tal da pizza chegue à sua mesa?

Trigo importado, quiçá, transgênico?… Você tem ideia da área que é desmatada para plantar este trigo? Que agrotóxicos são usados? O regime de trabalho? O equipamento agrícola utilizado? E a logística envolvida para que cada capinzinho de trigo vire grão, para ser colhido, exportado, transportado, beneficiado, moído, ensacado, vendido para distribuidores, reembalado e de novo transportado e estocado como farinha em neve até chegar à pizzaria?… Os empregos, impostos e serviços gerados justificam os passivos? Há alguma compensação ambiental ou social?

E a lânguida muçarela? Sério que você não quer conversar sobre as vaquinhas escravas de tetas drenadas a vácuo?Será que há muito hormônio no queijo? Antibióticos? Desmatamento para pasto? Mais agrotóxicos? Alta produção de metano a cada cagada no pasto, neah? E as sementes para pastagem? E os bezerros desmamados? Mais desmatamento pra plantar soja pra ração? Logística também, neah? Transporte? Combustível? Energia? Estradas de terra, de ferro, de asfalto? Rebite do motorista de caminhão? Vinte pneus, fora o aço, a madeira, os plásticos, óleos, combustível e graxas – por carreta? Pallets, lonas, cordas? Pedágios? Armazéns? Veneno de rato no galpão? Logística da distribuidora? Custos fiscais? Custos dos intermediários? As instalações da pizzaria? A conta de telefone? O estresse do entregador? O papelão da embalagem? O que mais cabe na genealogia de sua pizza?… Molho de tomates?

Só com uma cerva, fala sério? Ou um refri bem doce e gelado? E o que você bebe pra empurrar o grude, não tem ciclo de vida? Vamos falar no ciclo de vida da cerveja ou faz de conta que basta uma “artesanal” para sumir com o problema?

Talvez, seja melhor nem pensar há quantos anos comemos pizza. Nem quanta lenha queimada ou gases emitidos… E ponha na conta sua saúde, claro! O transtorno de seu organismo pra digerir a maçaroca de carboidrato, gordura e proteína animal a cada sabadão deve entrar no cálculo dos pequenos baratos da rotina…

Parece irrisório: – É só uma pizza, É só um refri. É só um bife. É só um litro de óleo, um pacote de biscoitos. É só minha saúde… Mas, no pacote global, individualidades multiplicadas por coletivos custam escandalosamente caro ao planeta.

Vai rolar salada no próximo sábado?

Você pode extrapolar a lógica para tudo o que consome, de uma agulha a um automóvel, de um tomate a um apartamento inteiro… Pode abstrair para qualquer processo de produção, de qualquer produto e, quando menos, perceberá que tem menos motivos que imagina para consumir supérfluos – Caralho, pizza é supérfluo?

Você não deixará de comer sua pizza nem que venha embebida em veneno. Porque o problema é contextual. Se não podemos mudar tudo, industrial e confortavelmente, com aceitação de família, amigos, vizinhos – melhor não mudar nada! Foda-se o capEtalismo! Foda-se o futuro! Dê a pizza aqui!

Vivemos da crença na rotina e na normalidade, sem questionamentos. Certos ou errados, não importa, o que queremos é aceitação e prazer!… São as bases subliminares de segurança. Repetir o que significa segurança parece seguro… Seus hábitos são sagrados, foram herdados ou impressos em você ao calor dos vínculos psicoafetivos, à luz da história de sua vida, seus melhores e piores momentos, vozes e lembranças dos entes mais queridos, sua infância, sua juventude perdida, enfim… A pizza não é a pizza, mas o que ela significa para você… Saber o que bilhões de pizzas por sábado significam para o planeta é outro papo!

Romper hábitos é reconhecer significados… Você, talvez, não tenha pensado assim, mas os marqueteiros e os santinhos empreendedores sabem disso como ninguém! Por isso, não dão trégua para nossas consciências! Consciência não vende! E dá-lhe publicidade e entretenimento até a tampa! Dá-lhe tédio e vazio até dar fome ou vontade de comprar!

Não me desculpe se parecer redundante… Para ter o mísero consolo de sábado, essa nesga quente, cremosa e salgada de bem-estar passando pelas papilas gustativas por poucos minutos, você paga sua fração por todos os ciclos de vida envolvidos. E paga alegremente alienado, para alegria de quem lucra. Paga pela pizza, pelos significados e assim por diante – para todos os hábitos e itens que mantém na lista.

Patético é pensar que cada um de nós produz o próprio salário e também paga para trabalhar, mas concorda com o mercado quando compra… Se o consumidor paga pelo ciclo de vida de cada produto, e quem compra o maior volume de produtos é o trabalhador assalariado, por que somente apenas quem vende tem credibilidade para estabelecer a verdade sobre os ciclos de vida? Escancarar isto não faz parte de nossas lutas e utopias, por quê?

Nossas bem-intencionadas panaceias de papel e tecnologias não nos dizem que toda a economia formal é burguesa. Nossos hábitos de consumo, como a pizza de que falávamos, estão ligados pelo umbigo a este modelo de bem-estar social e nenhum outro… Cada cartório, cada loja de eletrodomésticos, cada cosmético, cada toco de vela que acendemos para que o tal meteoro chegue logo – tudo depende do investimento inconsciente do parceirão-consumidor na produção. E o sonho à venda diz que é um privilégio ser escravo para comprar, comprar, comprar, comprar e fugir cada vez mais da simplicidade e da consciência que, afinal, não remuneram lucros.

Tem que ser dito: – Nossa pizza, a qualidade de vida em queda, nas cidades e fora delas, e o desmatamento generalizado são partes de um mesmo problema, e quem os financia, direta ou indiretamente, é quem consome… E os governos e corporações e contingentes políticos de todas as cores do espectro ideológico aplaudem de pé!

Você conhece supermercado que sobreviva sem a lista de compras do trabalhador? Sindicato que exista sem o emprego? Indústria que sobreviva sem alguém inconsciente que torre seu salário no cassino do mercado? Conhece governo que não goste de impostos? Conhece sociedade em que alguém recuse privilégios?

Então, será que há interesse em utopia, de fato, utopia ecológica, libertária e não liberaloide; interesse em um novo padrão de bem-estar humano para equacionar as relações legais de produção, trabalho e consumo?

– Herege! Pecador! Queimem este reaça! Aquecimento global é papo de coxinha!!

Diante da inexorável realidade climática a caminho e da nítida degradação em que já vivemos, o sonho de igualdade social carregado dos valores da definitivamente velha burguesia está fora de sintonia de qualquer sustentabilidade – entenda-se aí, sustentabilidade de fato!

Nossas parcas utopias, restritas a promover o acesso justo e igualitário ao mundo do consumismo em cidades maçônicas, áridas, tristes e desumanas, já vão meio século defasadas, precisam de urgente ponderação e políticas focadas em autonomia e empoderamento, não na habilitação de mais reféns do mercado e opressores.

O desenvolvimento, como o conhecemos, preso à lógica da escassez, movido a crises e insatisfações que promovem o consumismo como caminho para completude psíquica ou referência de dignidade, é uma quimera com prazo de validade vencido que, infelizmente, ainda purgará no planeta por um longo tempo…

Se sonhamos com um mundo abundante e suficiente para todos, onde paz, saúde e simplicidade sejam prioridades, qual o sentido de repercutirmos o passado por nossos próprios hábitos de consumo e pseudoprivilégios de classe, como sócios e cúmplices do mais arrogante valor civilizatório – a destruição impune da natureza?

Vamos comer uma pizza?