“Doutora, um absurdo! Eles vão lá em casa só pra comer. Chegam na hora do almoço, da janta, comem, levantam da mesa e vão ver televisão. Não colocam sequer o prato na pia. Não ajudam com dinheiro nenhum, não ajudam a pagar o tratamento do pai. Só sabem pedir. Pedem ajuda, pedem pra pagar a faculdade, pedem carro emprestado, pedem pra ficar com os filhos deles pra eles saírem, pedem dinheiro… Falaram que eu devia construir uma piscina lá em casa pra eles passearem no fim de semana com as crianças! O mais velho ontem disse que eu devia passar tudo pro nome dele pra evitar brigas no futuro. Dá pra acreditar?!”

“Não.”

“Pois eles fazem plano com o nosso salário: você ganha tanto. Com o salário do meu pai, mais tanto. Com esse dinheiro eu faria isso e isso e isso. Outro dia chegou depois do horário do almoço e não foi embora enquanto eu não arrumei a comida pra ele, de novo. E a cozinha, que já tava arrumada, ficou uma bagunça outra vez.”

“Em que momento você acha que você deixou a situação chegar a esse ponto?”

“Eu? Como assim?”

“Você. Onde você acha que o seu comportamento deu a abertura que eles precisavam pra começarem a agir assim com você?”

“Não tô entendendo a sua pergunta.”

“Eles agem assim com mais alguém da família?”

“Não. Só lá em casa. Eles são muito folgados.”

“Mas eles são folgados com mais alguém?”

“Não… (um silêncio pra engolir) Você tá querendo dizer que a culpa de tudo isso é minha?”

“A culpa, não. A responsabilidade. É bem assim: os outros só fazem conosco o que permitimos que eles façam. Por que você anda permitindo que as pessoas ajam assim com você?”

Choro inevitável… “Por mais absurdo que pareça, mesmo com todo esse abuso deles, eu ainda prefiro que eles continuem indo lá em casa. Tenho tanto medo de ficar mais velha, doente, sozinha, sem ninguém da família pra cuidar de mim.”

“O pai deles está velho, doente, sozinho. Eles estão ajudando a cuidar?”

“Não… Ai, doutora, Júlia. Eu venho aqui pra você me ajudar a melhorar e você fica me jogando essas coisas na cara?!”

“É pra te ajudar a melhorar.”