Como de costume, punha-se pensativo em cada situação que a vida lhe apresentava; não fora diferente nestas últimas semanas. Aliás, arrisco-me a dizer que, nestes últimos tempos, tem se dedicado especialmente a entender o que se passa – quando algo se passa –, e, considerando a forma como se apresentam, porque de ser assim. Certamente, como sempre insisto em dizer, era um sujeitinho peculiar; era realmente interessante a forma como olhava para a vida e para as coisas, e como analisava cada pormenor com que se deparava, mas assumo que, por vezes, apresentava notas de depressão com algo parecido à resignação; noutras vezes, todavia, parecia irremediavelmente otimista e confiante, o que lhe concedia certo caráter prepotente e envaidecido, fazendo-se intragável nalgumas conversas.

Não abandonava, de modo algum, seu café fumegante; aliás, não só o café era fumegante, mas a brasa do seu cigarro também o era. Fumava com parcimônia, pois sabia que alguns venenos devem ser ingeridos cautelosa e vagarosamente, pois, caso contrário, de supetão poderia se afogar, e não teria qualquer efeito, pois deixaria imediatamente de sentir qualquer coisa. O café era, para si, o que o oxigênio é para o corpo. Dividia-se em inúmeros sujeitos em um só: havia aquele que brindava o café para qualquer situação; o outro que, por acaso, sorvia o café lentamente para cada pensamento e reflexão iluminada; ainda outro, um mais elegante talvez, que pedia nobremente um café raso, forte e bastante pigmentado, sem um naco de açúcar sequer, para que pudesse apreciar a grandeza das distintas damas que vez ou outra lhe apraziam. O café era, definitivamente, sua razão de ser nesta vida, e era o trampolim das várias filosofias que lucubrava dentro de si.

Desta vez, diferentemente de outras que narrei sobre sua vaidade intransigente, falarei sobre suas compenetrações e reservas, que lhe prestavam algum desserviço em dias deprimidos. Nada obstante, eram dias de tecer a si mesmo; de destruir a si e construir-se novamente; de ver o que há em si e reorganizá-las, de modo que fizessem melhor sentido… Ou mais sentido… Ou algum sentido. Quero falar sobre a sua perspectiva, seu modo de operar, de funcionar e de existir; sobretudo, tentarei narrar sobre viver e existir.

Não fosse sua implacável obstinação em continuar seguindo seu caminho, aquele caminho que se constrói no tempo e no espaço; aquele caminho que acontece quando se escala a montanha; não fosse a obstinação, mesmo todo despedaçado, tenho certeza de que ele já teria se resignado e se entregue às traças; mas digo de entregar-se definitivamente, sem volta, sem negociações; não aquela resignação entre um dia e outro, de modo que, depois de algumas xícaras de café, alguns maços de cigarro, alguns orgasmos trocados, as coisas voltassem à superfície da normalidade, e reluzisse a melodiosa coloração da existência. Não, nada disto. Falo de uma obstinação que, mesmo às margens da vida, à base de chicotadas e truculência, seguia peregrinando. Não fosse pela firmeza dos seus valores, e a convicção de uma alma que transcende o tempo de milênios, não me restam dúvidas de que ele já teria sucumbido às investidas agressivas da vida. De outra maneira, eu diria até que, talvez, não sejam mesmo da vida as investidas agressivas, mas das pessoas; sim, das pessoas, porque a vida, em si, não investe em ninguém nada além da sua própria energia vital, para que se viva, efetivamente, mas quem investe agressividade são as pessoas. São as pessoas que investem, aquelas que não desejam que nada mais lhes seja investido, senão trocos; sim, trocos, trocados, poucas moedas, moedas zombeteiras, que não fazem nada mais que se rastejar para dentro dos bolsos.

De todas as coisas que já tínhamos conversado, e de todas as reflexões que já tínhamos realizado; e de todos os sentimentos e pensamentos que já tínhamos esquadrinhado e degustado, ao sabor e dissabor de cafés e cigarros, dois eram os que me chamavam atenção e solicitavam meu pensar: o amor raro, de um lado, com sua intenção reveladora e expansível, de sentimentos que inauguram espaços do si-mesmo, que provê vida ao tempo, para que se torne, ao fim e ao cabo, um tempo-vivo; e de outro, o desprezo, que era poderosamente castrador, que embotava e constrangia até as tempestades solares; tão destrutivo quanto o era o silêncio mudo, que não comunica, apenas aprisiona a palavra no escuro da fantasia; o desprezo, que de tão e completamente amargo, mais parecia que a morte deitava-se de bruços sobre qualquer expectativa reluzente e, por ser o desprezo, tão poderosamente vil, que nem mesmo o amor lhe resistiria, mesmo que fosse o amor raro.

Dizia-me, contido e absorto, volvendo a face para a área escura da sala, que fazia contraponto às janelas escandalosamente iluminadas pela luz da rua: “amor raro de um lado; desprezo, de outro. Vida e morte como conjugações de um mesmo verbo; tempos diferentes do mesmo verbo, porquanto não possam ocorrer no tempo presente, ao mesmo tempo, como corpos que ocupam o mesmo lugar no espaço. Amor raro enquanto aquele que encerra abraços que expandem os limites do si-mesmo; o desprezo, na sua maledicente arrogância, encerra mortes, muitas vezes antes do próprio nascimento. No fim de tudo, altivo amigo, é isto que me destrói, parte por parte, a cada vez que sou preterido”. Não era, verdadeiramente, a coisa que sabia dar conta e, assumidamente, dizia que ainda estava para nascer o dia em que morreria só um pouco numa similar situação; “o desprezo, refinado companheiro, convoca as mais violentas emoções, que pudéramos nós que fossem contidas; seria mais fácil aceitar que o mundo irá se acabar do que aceitar que se foi desprezado”; estava para nascer o dia em que morreria só um pouco, enquanto, em todos os outros dias, morria-se profunda e completamente.

Dizia, quando falava do amor raro e do desprezo, que a vida nos trazia as pulsões de vida e de morte, de modo que pudéssemos nos dedicar a uma delas. A sordidez de um lado; o deleitante de outro. O asqueroso de um lado; o aprazível de outro. O descortês de um lado; o nobre de outro. “Resta-nos, sublimíssimo acompanhante, que escolhamos a qual lado pertencemos e gostaríamos de continuar pertencendo: ao lado que expande, que enriquece, que deleita, que vive o tempo-vivo; ou ao lado que embota, que destrói, que é amargurado e que vive o desamor?” O desprezo, penso eu, depois que suas palavras ricochetearam em mim, é a evidência do desamor; aquele que despreza é tão pequeno, e tão pobre, e tão desolado, quanto seu estado desamoroso, desassistido, desamparado; “o desprezo, meu predileto companheiro, é a arma dos desarmados; é a defesa dos coitados, o ataque dos infelizes e a experiência dos moribundos; desprezar é, por si só, pedir socorro àquele que se golpeia”.

Confortava-me pensar que o desprezo, investida tão cínica e indecorosa, é a postura dos infelizes; confortava-me especialmente pensar que eu, tal como ele, repugnava o desprezo, o que implicaria dizer que não, não somos seres que desprezam. Enquanto eu apenas repugnava, ele se desmanchava. O sujeito que despreza supostamente apenas existe; aquele que sofre com seu desprezo, quem sabe seja possível dizer que vive, pois se sofre, é porque há vida dentro de si; se há vida dentro de si, é oportuno dizer que também vive. Lembremo-nos, contudo, que a vida é mais do que viver.

Quando me dava com suas reflexões, destas que ensaiam sobre a vida e a existência, pensava mesmo que era um sujeito que nasceu para filosofar. É certo dizer que seus pensamentos eram, ao mesmo tempo, o olho do furacão e o próprio furacão; é o centro da tormenta, um lugar silencioso, calmo, quase parado, embora aterrorizador, agitado e indefinível. Tornara-se, com o tempo, refinado em suas filosofias e aprimorado em suas reflexões, de modo que não pensava apenas no significado de algo, mas nos conceitos dos significados, sobretudo nas consequências das inflexões da sua capacidade. Um torvelinho violento e brisante, algo entre a volúpia e a meditação.

Da outra vez que nos demos, numa noite destas em que se pesa a semana e que se cansa dos afazeres da vida, em que se deseja apenas desmoronar no sofá, na cadeira ou no canto, encolher-se e retrair-se, proteger-se e projetar-se, pedi-lhe que discutisse comigo sobre a vida e seus significados. Afinal, tínhamos a garantia de que era uma temática relevante, pois tínhamos a certeza de que fora uma questão que ocupou o pensamento dos homens no transcurso dos anos e dos séculos. Falar sobre a vida era, naquele momento, resignar-se à sua ocorrência, e crer-se enquanto alguém que vive, pois pensa sobre o viver. Diferentemente do outro sujeito, que dizia que se pensa, então existe, afirmávamos nós, filósofos da contramão, que, se pensamos, não necessariamente existimos, pois a existência vai além do pensar; a existência não se reduz ao pensar, e o cogito não revela nada mais que um cérebro em funcionamento. Para existir é necessário que se sinta a existência; para se sentir a existência, precisa-se, sobretudo, que não se pense sobre ela: que apenas a deixe atravessar a si mesmo, e que ela possa invadir e preencher os vãos que há em nós.

A esta sugestão filosófica, ele respondera-me, compenetrado, dedicado em observar os movimentos do seu café frio e pungente, enquanto pendulava a xícara de um lado ao outro: “ah, a vida! Que de tão complexa e de tão abstrata, sequer sabemos o que realmente significa; aliás, digo mais: sequer sabemos se há um significado; sequer sabemos se há um signo para significá-la e se há, de outro modo, um sentido para se lhe atribuir.

“Penso que a vida seja mais do que viver. Como lhe disse noutra feita, a vida compreende mais do que o ato de estar vivo e de passar pela vida: qualquer um que respire passa pela vida, mas a vida não passa por qualquer um que respire. É preciso que estejamos atentos a ela; é preciso que a queiramos; é preciso que a precisemos. É uma sucessão de acontecimentos que, se acaso não estivermos atentos ao aqui-agora, então deveremos saber que teremos perdido a oportunidade de ter uma porção de vida vivida; se pensarmos que basta que se nos olhem para que sejamos vistos, então deveremos lembrar que teremos perdido a chance de termos sido reconhecidos.

“A vida se dá nas relações, e as relações se dão em vias de mão dupla. Não há qualquer relação que ocorra pela investidura de um; aliás, não seria uma relação se assim o fosse. É por isto que prefiro que sejamos ermitões se não soubermos nos relacionar; é por isto que prefiro que sejamos mudos se não soubermos nos comunicar; e é por isto que prefiro que estejamos mortos se já não soubermos viver. Mas não prefiro que nos desprezemos; nos desinteressemos; nos afastemos se não soubermos amar; é preciso que nos aproximemos para isto; é preciso que nos toquemos para que aprendamos a amar; é preciso que nos entendamos, nos compreendamos, nos ouçamos, nos vejamos, nos descansemos um no outro para que passemos a sentir um ao outro. Nada frutificará se semearmos no asfalto.

“Viver em si mesmo, encavernado dentro de si, não nos permitirá adentrar o outro; se não sairmos de nós, não poderemos ter a possibilidade de entrar no outro; e quando digo sobre entrar no outro, refiro-me a fazer sentido na existência e na vivência do outro. A existência é o todo contínuo, que começa antes de nós, e que não termina quando nós mesmos já terminamos; a vivência, por outro lado, ainda cria da mesma natureza, mas de caráter distinto e brevíssimo, é o momento no tempo: a vida é um momento no tempo; a vida é o momento no tempo em que o tempo vive; a vida é a expressão do tempo-vivo. Se não há expansões, se não há explosões, se não há incandescências, não há, então, vida alguma naquele corpo que existe. E, para isto, devemos lastimar por existir alguém morto dentro de um corpo que deveria viver.

“A propósito, existem pessoas que nos matam; sim, há pessoas que nos matam. Matam-nos muito, inclusive. E não é só uma vez que nos matam. O lado mais cruel destas pessoas que nos matam é que, além de nos matarem, elas não nos revivem; não nos revigoram; não nos recriam; não plantam nada em nós. Não somos terrenos nos quais deverá ser edificado; somos terrenos nos quais deverá ser semeado. Nós germinaremos se formos bem cuidados e bem tratados e bem alimentados e bem semeados. Todavia, há pessoas que não são lavradoras; há pessoas que são colonizadoras, e quando tentam tomar a terra para si, fazem com ela o que bem entendem… inclusive nada. Quando fazem nada, demonstram, além do motivo por que vieram, também que são pessoas pobres, pequenas, diminutas, risíveis; pessoas pelas quais devemos ter pena, por não existirem mais dentro delas mesmas.

“Não creio, absolutamente, que as pessoas devam passar umas pelas outras sem deixar suas marcas; não há qualquer sentido em cruzar com alguém sem ter sabido disto. Não há qualquer noção de razoabilidade se não nos esforçamos para que possamos nos tornar relevantes para o outro; não há, definitivamente, vida no viver, se, ao darmos com o outro, estivermos vazios de nós. É necessário, antes, que nos apropriemos de nós, para que, então, em seguida, possamos oferecer nós mesmos aos outros: quando servirmos de presente a ser dado a outrem, então deveremos lembrar que aproveitamos a oportunidade de viver na vida.

“A vida é, por assim dizer, um algo que se faz com ela. Parece-me plausível afirmar que a vida é um conceito clássico, romantizado, quase barroco; algo entre o claro e o escuro; a luz e a penumbra; ambos os lados da lua. Estar na vida é considerar a possibilidade de aproveitar, na sua inteireza, todos os sentimentos que nossa condição humana nos permite e a que nos convida; devemos considerar a possibilidade de experimentar e conhecer as emoções alegradoras, revigorantes, semeadoras; mas devemos não ser tolos e imaturos, e igualmente considerar a possibilidade – quiçá necessidade! – de viver, também, as emoções desoladoras, aquelas que parecem apagar a fogueira, aquelas que parecem chorar quando se nos olham os olhos. É necessário estar dos dois lados da mesa, e servir-se de pratos cheios com tudo que a vida oferece para degustar; viver de meias experiências é descobrir-se metade de si, e achar que se é inteiro com aquela pífia parte”.

Outra vez, sentia que acompanhar suas reflexões era o mesmo que dispor-me às marretadas do ferreiro, e aprontar-me em brasa acesa. Era escandalosamente agressivo nas suas ruminações, mas ao mesmo tempo tão escandalosamente realista, que ficava em dúvida entre decidir pelas minhas propostas filosóficas, de que a vida é o que se segue, dia após o outro, sem muitas meditações sobre isto, ou se a vida é este todo complexo, de tramas tão hermeticamente enredadas, de experiências tão poderosamente cheias de tempo-vivo e de infinitas expansões do si-mesmo. Pensava comigo e com meus botões, que a vida é mesmo uma opção, e não um fardo, uma consequência de se estar vivo, ou o destino daquele que nasce. A vida não é algo que se recebe; é algo que se toma para si. Não é algo que se leva adiante por tê-la recebido no início da jornada; é aquilo que se encontra, lá na centésima parte da viagem, quase no fim: quando se descobre a vida, no processo de viver, descobre-se, ao fim e ao cabo, que não há mais pelo que se dedicar; que não há mais pelo que brigar; e que não há mais nada que verdadeiramente importe, senão gozar a bonança da vida que se conquistou, à duras penas, na incipiente jornada do viver.

Ele, por certo, gostava das suas alegorias, e neste dia não tinha sido diferente. Dissera-me, depois de sorver de um último gole o café que já há muito esfriara, e depois de esbaforir resignadamente a última névoa de fumaça do cigarro, aprontando-se para ir para a rua, caminhar de cabeça baixa, boca cerrada e olhos apertados, como quem não tem certeza se conseguirá dar o próximo passo, sua alegoria para a vida. Localizava-a em algum lugar no tempo-espaço, e comparava-a as situações cotidianas, para que fosse possível, do mais bobo ao mais sábio, compreender aquilo que pretendia dizer: “a vida, primoroso amado, é uma rua que espera por seus transeuntes: ela sempre estará lá, mas nem sempre passaremos por ela”.32