Das coisas inventadas pelos seres humanos, poucas podem explicar tanta coisa quanto o futebol. E poucas coisas podem explicar tão bem a natureza humana quanto uma partida de futebol.

Diz a sabedoria popular que tão importante quanto saber perder é saber ganhar. Se por um lado o mau perdedor pode ser uma ameaça às regras do jogo, por outro, o mau vencedor é, antes de mais nada, um arrogante.

Estes lados, a vitória e a derrota, o futebol e o esporte em geral nos ensinam desde pequenos quando os praticamos ou simplesmente torcemos. Quem torce ou quem joga já viveu momentos de alegria e tristeza. Todo mundo, principalmente durante a infância, também já foi um mau vencedor ou perdedor. E o próprio jogo os ensinou a maneira correta de agir, a arte de saber ganhar e perder.

Mas, mesmo assim, poucas dores são tão ridiculamente intensas quanto a dor de uma derrota. Digo ridículas, pois sabemos racionalmente que existem milhões de outras coisas mais importantes do que o futebol. E sabemos também que, apesar da derrota ou vitória do seu time, do campeonato perdido ou conquistado, a vida segue e aqueles problemas maiores persistem: a crise, a economia, a política, a vida adulta e o escambau. Se o seu time foi goleado, humilhado ou linchado em praça pública, pouco importa, nada mudou na sua vida, ou melhor, quase nada mudou.

A sutil diferença está neste quase. Você ficou triste, e às vezes até chorou na hora da derrota, mas, passado algum tempo, esta derrota será praticamente esquecida. Acontece que em muitos casos a nossa memória atua como uma ferramenta de autodefesa. Lembramos do que gostamos e sutilmente varremos para debaixo do tapete aquilo que nos desagrada. Pelo menos é assim na psiquê do torcedor do futebol. Ou seja, de fato quase nada mudou em sua vida, mas tem uma pulguinha sublimada escondidinha, quietinha, bem atrás de sua orelha. Nunca se sabe quando ela vai acordar e começar a te incomodar, talvez logo, talvez nunca.

Enquanto a pulguinha da derrota esquecida continua adormecida, o torcedor, a não ser que seja masoquista, só vai lembrar as vitórias e conquistas de seu time. As derrotas, enfim, deixa pra lá.

Todo torcedor adora ficar discutindo, recordando e revivendo os principais feitos de sua equipe, mas dificilmente tem a mesma empolgação quando se trata das conquistas de algum rival. As vitórias dos outros são direcionadas ao limbo, elas não importam. Elas devem ser abandonadas e escondidas. Se possível, até mesmo jogadas fora.

O torcedor de futebol é, antes de tudo, um indivíduo de memória seletiva. Ele é como  aqueles cronistas medievais que narravam a vida de um rei, apenas exaltando suas glórias e qualidades, e jamais mencionando eventuais defeitos e fracassos. A história contada pelos torcedores é a dos vencedores, dos seus vencedores, não dos vencedores dos outros.

Por isso, neste final de ano, com o campeonato brasileiro nas últimas rodadas, e o título do Palmeiras cada vez mais próximo, acontecerá um grande festival de esquecimento coletivo por todo Brasil, como todo ano acontece, não importando o campeão. Após ser levantada a taça palmeirense, estourado o último rojão, cessados os gritos de euforia, todas as lembranças deste evento desaparecerão, como por encanto, da memória de corinthianos, santistas, são-paulinos, flamenguistas e dos torcedores das demais equipes da Série A. Será como se o título palestrino nunca tivesse existido.

Os únicos que não esquecerão nada, obviamente, serão os torcedores do Palmeiras, que insistentemente tentarão lembrar os demais torcedores de outros clubes dos detalhes de sua conquista, compartilhando imagens e vídeos no facebook ou desfilando pelas ruas, ostentando orgulhosamente a camisa do time campeão. Mas mesmo assim, isto não terá efeito nenhum para os torcedores dos outros times, eles continuarão não se lembrando de nada.

  Eu, por exemplo, já esqueci tudo. Gabriel Jesus? Nunca ouvi falar.