Reportagem da Tribuna de Minas

Faz alguns dias que precisei levar meu pai para uma consulta no hospital que atende ao plano de saúde dele. Aos 88 anos, “seu” José apresentava um quadro de tosse persistente e, como teve pneumonia recentemente, eu me preocupei. Chegando na Santa Casa, ele foi chamado pelo médico plantonista. De cara, percebi que o profissional que estava ali para escutá-lo não tinha habilidade com gente. Olhou-nos com desdém e deixou a porta do consultório aberta. Perguntou o que meu pai sentia, mediu a pressão dele, auscultou o pulmão e o mandou para o Raio-X, não sem antes emitir um sonoro bocejo na nossa frente, como se estivesse em casa, no sofá da sala, em frente à televisão. Fiquei pasma! De que material era feito esse homem que estudou tanto para ser chamado de doutor, mas que não sabia nada sobre o respeito ao paciente que estava a sua frente?

Fiquei pensando no que tem acontecido nos consultórios de todo o país, quando quem está do outro lado da mesa perdeu a capacidade de ter empatia com o sofrimento do outro. Se o conhecimento de saúde é fundamental, um sinal de sabedoria é acolher quem está em condição de vulnerabilidade. Confesso que ainda não digeri a minha indignação.

Por outro lado, no Raio-X do hospital e na nova consulta, desta vez feita por um cardiologista, sobrou solidariedade. Talvez os que manejavam as máquinas tenham olhado para o meu pai e pensado no deles e em como gostariam que tratassem um amor seu. Que falta faz o hábito de colocar-se no lugar do outro. Se isso fosse um exercício permanente, teríamos um cotidiano mais ameno, porque nos lembraríamos de ser gentis uns com os outros.

Terminei a minha semana a caminho do cinema, e mais uma cena chamou minha atenção. No meio do shopping, vi um Papai Noel sentado em seu trono vermelho, às moscas, desolado, esperando que uma criança reconhecesse nele a magia dos contos infantis. Sem tempo para olhar Papai Noel, os meninos deslizavam pelos corredores com seus patins de rodinhas, febre entre a garotada, ou andavam de cabeça baixa correndo os dedos pelos celulares em busca de novos joguinhos.

Ri pensando no quanto estamos nos tornando estranhos, ainda mais depois que vi que a foto com o Bom Velhinho saía a R$ 30. Talvez isso ajude a explicar o abandono daquele vovô.

O mundo anda mesmo sem tempo para delicadezas. Dia virá em que teremos que nos reprogramar para não sermos asfixiados por nós mesmos!

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