Depois que me tornei pesquisador e colecionador de currículos subjetivos e xadrezes, é missionário difundir essa criatividade alheia. São apresentações pessoais que traduzem o que alguém pensa e sente. Admiro e respeito os currículos formais, com descrição de conquistas e saberes, mas ando bem envolvido pelo formato xadrez.

O mais sucinto que encontrei até hoje foi: “Não tenho lado B”. Olha que beleza este: “Apaixonada por duas xícaras de café nublado em dias fortes.” Fico imaginando a pessoa e faço amizade imaginária com essa turma. Quanto mais diversidade, melhor. “Católico roxo, rubro-negro. Acredito no Amor e na absurda felicidade. Gosto de cálculos.” Não combina comigo, mas tem aumentado o meu respeito às diferenças.

Esse pessoal xadrez não parece interessado em emprego, mas se eu fosse da área de RH contrataria todos esses talentos. Muitos com promoção imediata, como este: “Entrou para a vida do crime (e castigo, muito castigo) porque gostava de escrever, mas esqueceu-se disso por um tempo. É pseudo-nerd e poser de boas cervejas. Joga RPG nas horas pagas.” Ocuparia cargo de confiança na minha empresa fictícia: “Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás – inclusive empregos – e cair na estrada.” Quando o descritivo me incomoda ou traduz, gosto mais ainda: “Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão dos outros.”

Percebo que as mulheres se revelam corajosas demais, enigmáticas demais, poderosas demais. Escuta pra ver: “Trovadora indócil na inútil e urgente causa de desadestrar leões e reensinar pássaros a voar. Projeto piloto em teste consigo mesma.” Eu sou errado, sou errante e busco referências. Tenho encontrado muitas: “Sou cúbica, áspera, múltipla pornofônica como Waly; Sou poeta, doceira, baiana, jamais um ser humano comum.” Por vezes, me pego entrevistando pessoas que não conheço e tenho certeza que elas respondem: “Por vocação: psicóloga. Por intuição: filósofa. Por karma: sexóloga. Por desejo: cantora. Por amor: mãe. Atualmente: articulista de mim mesma.”

Consultei duas profissionais de RH para saber de que forma currículos xadrezes são avaliados num processo seletivo. Aí me deparei com um entrave. É estranho apresentar entrevistadas apenas pelo lado xadrez. A conclusão é que o currículo formal tem a sua importância e a sua hora. Marta Lúcia da Silva, Mestrado em Psicologia Social, com ênfase em políticas públicas de Educação na PUC-SP, Executive Coach e Consultora de desenvolvimento humano e organizacional, falou bonito: “Um currículo xadrez e/ou o padronizado pode ou não atender às atribuições para um cargo ou uma determinada função, independe. Não são somente as palavras que determinam quem é o ator social, mas essas somadas às ações, atitudes, ao contexto, as outras competências técnicas e comportamentais do ator social em relação às atribuições a serem exercidas e solicitadas. Portanto, um currículo excêntrico que revela subjetividade e identidade da pessoa pode também revelar condutas interessantes e relevantes para ocupação de determinados cargos e atribuições, basta ter um olhar mais subjetivo, mais real e menos preconceituoso, entendendo sua identidade e suas escolhas pessoais, não tentando encaixá-lo apenas em crenças e valores próprios.”

Alguns xadrezes parecem ter escrito sob medida pra mim: “No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.” Outros me levam a criar personagens: “Jornalista e zineiro desde moleque e, cronicamente, um caipira punk”. Há mistura de dados convencionais com xadrezes: “É visto como uma figura satânica pelos amigos, picaresca pelos alunos, exemplar pelos pais e jeitosa pela namorada.” Uns adotam o estilo ame-o ou deixe-o: “…corinthiano, dependente de literatura, não compartilha receitas gostosinhas no Facebook. Por onde vai carrega essa bobagem de ter em si todos os sonhos do mundo.”

O maior texto encontrado é primoroso: “Ator, Pesquisador, Pai, Marido, Filho (mas Neto não mais, infelizmente!). Usa Brincos. Rizomático. Prefere sempre a Esquerda. Crítico. Positivo Vital. Livre, Solto e Careca. Carrega sempre um pouco de amarelo, sol e noite nos bolsos para distribuir gratuitamente”, e por aí vai. A psicóloga Maria Sílvia Ribeiro, doutoranda na PUC-SP, fez um aportezinho sobre a questão: “É preciso ter olhos xadrezes para escrever, mas também para ler um currículo xadrez”. Sílvia é xadrez: “Psicóloga de formação, cidadã brasileira em luta por convicção.” “A Marta tem” é: “Aprendiz do conhecimento, da vida, das pessoas, e com as pessoas.”

São pessoas familiarizadas com as palavras: “Publicitária em horário comercial e escritora em todas as horas do dia.” Me sinto amigo de infância de vários autores: “…misândrica e racista reversa por convicção, fala abobrinhas e baboseiras por hobby e dá patadas por esporte. Mas é boa gente sempre que pode. Dá trabalho, mas costuma valer a pena.”

Eu nasci com olhos xadrezes e posso afirmar: cada quadradinho do xadrez me permite ter diversas visões sobre a vida, as pessoas, os animais, as circunstâncias etc. Quem escreve currículos xadrezes amplia o olhar sobre si mesmo e o seu mundo. Quanto a mim, jornalista e outros dados curriculares se tornam pequenos diante deste perfil: “JardiNHeiro de olhos xadrezes que escuta pra ver”.