Nos últimos anos, desde que me apeguei ao estudo da ciência acabei me deparando com um tipo de dilema que é bastante natural ao campo: discernir entre quem defende a ciência, sua racionalidade e seus argumentos; e quem não a defende, e quais suas razões e argumentos.

Qualquer um que se preza por ciência e tecnologia – pilares modernos tão necessários quanto pouco compreendidos pela maioria das pessoas, ainda mais em um país como o Brasil -, tem de cara quem são os inimigos dos resultados científicos: criacionistas, entortadores de colheres, espiritualistas, homeopatas e todos aqueles que normalmente vendem as crenças religiosas como ciência. Creio que a maioria dos interessados em temas científicos sabe que essas pessoas irão denegrir a ciência a bem de seus dogmas e falsidades. E isso, muitas vezes, a qualquer custo.

Mas uma coisa que também é fato é que esses não são os únicos tipos de inimigos da ciência. Há um tipo peculiar, sonoro e que merece atenção pela influencia que exerce. São as pessoas que vendem sua ideologia política como ciência, ou fazem ainda pior: usam seus dogmas políticos tanto para impedir a investigação científica, ou, quando é o caso, o próprio desenvolvimento da ciência. A história nos mostra exemplos fartos desse tipo, e que abrangem todos os vieses e influências políticas (alguns anteriores à clássica visão “direita” x “esquerda”, oriunda do Iluminismo). São nomes que vão de Cardeal Bellarmino a Josef Stalin

Creio que deve ser notada a oposição que constantemente tem sido feita à ciência por parte de alguns tipos de “humanistas” (alguns tão seculares quanto eu) e, em especial, progressistas do espectro político. Quanto a este último tipo, os de orientação marxista são os que mais têm me chamado a atenção.

Hoje, diferentemente dos tempos em que se lutava para implantar institucionalmente o criacionismo nas escolas, são notáveis as tendências de rechaço à ciência por parte de progressistas. São exemplos de tal postura: depredação de laboratórios de pesquisa com sementes transgênicas, boicotes a pesquisas científicas envolvendo testes em animais, pressões militantes para a aprovação de substâncias médicas de efeitos inconclusivos (como é o atual caso da fosfoetanolamina) e artimanhas “ambientalistas” que buscam rejeitar estudos científicos quanto à eficácia ou ineficácia de determinadas formas de energia (como a eólica). Um estranho ponto comum é que, por serem progressistas, muitas das pessoas que se opõem à ciência se identificam como sendo da esquerda política. Não raro, marxistas.

Outrora, a esquerda era conhecida por seu espírito científico e pela sua adesão ao realismo científico (cosmovisão filosófica segundo a qual a realidade externa pode ser conhecida independentemente dos cinco sentidos humanos). Mas hoje é público e notório que a esquerda política tem inimigos da ciência tão atuantes quanto os clássicos criacionistas, cardeais, espiritualistas e entortadores de colheres, que flertam com crenças mais à direita (3) e em prol do capitalismo e de viés político oposto.

Os argumentos dos inimigos de esquerda da ciência são normalmente de tipo cético pirrônico (estado de dúvida que não permite a própria capacidade de se conhecer e investigar a realidade). O melhor exemplo disso tem sido os “apelos à vivência”, tão notados em tendências pós-modernas, que se apregoam em alguns temas da sociologia e “modas” acadêmicas. Do mesmo tipo são também os argumentos antirrealistas (não há uma realidade externa independente ao sujeito, ou o sujeito, mesmo com seus sentidos, nunca pode conhecê-la de forma independente).

Outro tipo comum de argumento parece ter raiz na conclusão marxista do homem enquanto ser social (que parece inclusive ser uma paráfrase de Aristóteles, que dizia que “o homem é um animal político”). Se somos seres sociais, logo, todas as atividades, ideações e interações humanas têm algum propósito social e estão incondicionalmente presas à cultura, à história e ao tempo. Este germe, que foi modernamente introduzido na filosofia por Hegel, que juntamente com Kant e pelo fato de serem idealistas, foi um dos primeiros precursores do pós-modernismo p este “refinamento” do relativismo (doutrina filosófica que prega que não existem verdades universais e independentes dos contextos culturais).

A forma mais comum de ataques à ciência por parte da esquerda e progressistas é tanto resultado de um desconhecimento filosófico quanto de uma antiga moda: denunciar qualquer investigação científica como “positivista”, “cientificista”, “cartesiana” ou, ainda, “burguesa” (como se “burguês” automaticamente significasse algo “falso”, “ilusório”). Com relação aos dois primeiros adjetivos, é comum notar o evidente desconhecimento do que significam tais termos.

O positivismo é uma doutrina oriunda do empirismo, que preconizava a consideração direta aos dados científicos, de modo que esses fossem percebidos pelos cinco sentidos. Nesse aspecto, é muito parecido com o idealismo, por desconsiderar a possibilidade de conhecimento da realidade externa independente dos sentidos (tratando-se assim de uma cosmovisão antirrealista e prejudicial à ciência). Além de reduzir a investigação científica à mera consideração de dados. Vale lembrar que não existe nenhum positivista vivo desde o fim, nos anos 50, da tendência filosófica que ficou conhecida como “positivismo lógico”.

O cientificismo é o elemento onde mais se faz confusão. Trata-se da consideração de que a ciência é o melhor meio – não sendo o único – para se obter conhecimento factível e preciso sobre um determinado campo de conhecimento. A confusão reside no fato de que as antigas versões do positivismo tinham por componente o cientificismo. Isto é, os positivistas defendiam a ciência. Feita a distinção, é notório que cientificismo e positivismo não são a mesma coisa. E defensores da ciência não podem ser vistos como membros de um bloco só, como “positivistas”.

O cartesianismo, que também pode ser entendido por “racionalismo forte”, é uma cosmovisão iniciada pelo filósofo iluminista René Descartes, que considerava que a razão (faculdade humana de pensamento e senso crítico) deveria ser a base de investigação das ciências naturais. Uma das principais características do cartesianismo é o dualismo corpo e mente, algo que vai contra os mais atuais desenvolvimentos na neurociência e nas ciências da mente, e que também é antirrealista, por considerar que a realidade não pode ser conhecida pelos sentidos, uma vez que a mente seria a responsável por “raciocionar”, por “idealizar” o mundo externo mas nada existiria externamente, na realidade.  A máxima de Descartes, “cogito ergo sum”, traduz essa infame característica. Se levada a extremo, pode-se atingir o solipsismo (doutrina filosófica que considera a inexistência da realidade externa; além de nós, só valeriam as nossas experiências pessoais e internas, algo muito parecido com a mentalidade pós-moderna da “vivência”).

Torna-se claro que o cartesianismo e o positivismo são cosmovisões daninhas à ciência e que, atualmente, não são plenamente considerados aceitos pela grande maioria dos cientistas. Hoje contamos com avanços na física, na química e nas próprias ciências sociais que não nos permitem reduzir o conhecimento da realidade aos cinco sentidos ou a diversas formas de subjetivismo. Assim, é de se questionar o que se quer dizer ao se chamar alguém de “positivista”, “cientificista” ou qualquer tipo de argumentum ad hominem em sentido de descaracterizar ou desqualificar a defesa de determinado posicionamento científico – principalmente quando motivações políticas estão por detrás dessa atitude.

Aos que defendem a ciência, é bom ter atenção não apenas ao campo religioso. Mas um outro parecido com ele: o político. A filosofia é uma poderosa ferramenta de investigação para se analisar como se dão esses ataques por parte dos que o filósofo francês Julien Benda chamava de “clérigos”. São intelectuais – das massas do senso comum ou da academia do senso crítico -, que traem as causas e verdades universais por conta de suas orientações políticas e/ou religiosas.

Os piores inimigos da ciência são aqueles que aparentam defendê-la. Mas, quando se trata de colocar temas políticos e/ou religiosos em voga numa discussão, eles não sabem mensurar os devidos assuntos ou nem buscam compreender o ethos científico e seu funcionamento social independente. Num salto de fé, abraçam eus dogmas políticos, religiosos, ou ambos, tal como um pietista busca esquivar-se dos demônios que assolam a suas crenças.