Eu tenho uma máquina de fazer vazios

Como quem tem uma máquina de encher balões

Só que além

Ela produz o vazio dos balões

e os salões pendurados

em repetidos festejos

Engenhosidade de precisão

Cálculo exato, eficaz e eficiente.

A programação de um nervo latente

Quanto mais fins de festa realizados

Mais vazios alcançados

Não é possível viver sem a festa,

Como também

Não é possível morar em uma.

(“a ansiedade é a prima histérica da esperança”)

Eu tenho uma máquina de fazer vazios.

Nela, produzo vultos sem rosto

Mãos sem toque

Apegos sem aferro

Razão sem sentimentos

Jantares enlatados “Como foi seu dia?”

Automáticos ou adiados

e ainda mãos-dadas já decepadas

sair da cama engolir café

de sal engasgar-se

bom dia, até logo

facebook twitter whatsapp foi só sexo fingir ignorar sufocar

(e o “amor não é sexualmente transmissível”?)

E os vazios se reproduzem

Induzem

Na rapidez a ilusão de liberdade

Na quantidade a sensação de sensibilidade

(“o dominante é dominado pela dominância” e o resistente é endurecido pela resistência 3X1)

O medo do medo

O sólido em líquido

Amores liquefeitos

(contra o capitalismo Consumir “amores líquidos” Liberar-esmos?)

E anoréxicos lambem o copo

Para manterem a forma do verão

Ressequidos para sempre

Mas preservados in memorian

E empalhados

Eu tenho uma máquina de fazer vazios

E viciada pela máquina

(e pelo medo)

Fujo sempre antes do amanhecer

Dos intervalos

Quase-afagos

Fluidos evaporados

Sopro do peito

Quase-amores

Ensaiar a vida

Sem nunca apresentar meu espetáculo

seu movimento apenas

Fetos de afetos Abortados

Eu tenho uma máquina de fazer vazios

De combustível bem alimentada.

Perfeito funcionamento

Excelente estado.

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Infinita de ecos

Sinfonia de retidos

eu

Agora

A máquina

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À venda. Obrigada.