Na mídia em geral, na internet, no mundinho institucional, nos vãos da rotina, convivemos com um festival de dispersões – e interesses imediatos — que absorvem a atenção até dos mais pragmáticos políticos, militantes, intelectuais, ativistas… E a gente se pergunta: – É essa gente intoxicada que está definindo nossas utopias?

A resposta é quase sempre: Sim! Mas não estamos falando da ala óbvia de intoxicados à direita da mesa redonda, nem dos prestidigitadores da publicidade ou de psicopatas corporativos… O que destoa cada vez mais na paisagem são os coxinhas de esquerda, os revolucionários conservadores, os apegados ao velho regime…  Entre eles, ativistas, militantes, ambientalistas consumistas em diversas frentes ideológicas e até comunistas consumistas, pasmemos! Do mesmo modo, não faltam intelectuais pregando a luta de classes a partir do acesso ao consumo aleatório… Tenho carapuças de vários números, cores e tamanhos, é só pegar!

Enfim, na banda de cá, essa a que chamamos “progressista”, não faltam escravos arrogantes da incoerência, parados no século XX, lutando pela manutenção do delírio civilizatório equivocado que nos trouxe até aqui – a quimera do bem-estar burguês ao alcance de todxs, o reino encantado do mercado livre e repleto de oportunidades meritocráticas… Não nos faltam exemplos contundentes e demasiado tristes de deslumbramento.

Muitos de nossos revolucionários e subversivos, expoentes intelectuais e lideranças encarnadas são desenvolvimentistas, industrialistas, consumistas mesmo! Estão presos a velhas doutrinas sem revisão, esperando a espiral da História passar. Desdenham da luta pela preservação do meio ambiente, indiferentes ou supondo um milagre tecnológico bem caro para abolir o aquecimento global… Importante, para esses, é manter o padrão conquistado ou conquistá-lo, sem ruptura com o velho paradigma, dentro dos valores de conforto e segurança da sociedade industrial – causa do atual desalento de toda a espécie. Mas não basta desejar tudo isso para si. É preciso lutar para socializar valores individuais ultrapassados como verdades coletivas… Faz pensar sobre o recheio de nossos partidos políticos?

É comum trombarmos, além dos feudais de direita, com quem se diz de esquerda e nos acusa; a nós, ativistas na área de sustentabilidade; de utopia e poesia. Pode isso?

Às vezes, beira o perigo falar em novo paradigma, busca de autossuficiência alimentar sem venenos, produção artesanal em pequenas propriedades, volta à terra, desapego, ruptura com o mito da urbanidade, permacultura urbana, empoderamento, desvinculação moral entre dignidade e consumo… O discurso colérico inalterado do “trabalho dignificante” em fábricas seculares  — verdadeiros hospícios salariais –, o papo de “vir a ser alguém”, “subir na vida”, “vencer”, tomando o parâmetro burguês de sucesso, é parte da artilharia de uns tantos companheiros, como assim?, de esquerda!… Há dias que bate a gana suicida de sair pelado por aí berrando que não há divisão ideológica sensata entre as mentes industrialistas. Direita, esquerda, qualquer parte – os caras não ponderam outro mundo, não. O sonho virou obsessão e o que querem é poder. Qualquer poder onde possam controlar uma grande economia!

Debater uma possível mudança de paradigma, supor mudança de fato nas relações entre modo de produção, trabalho e consumo, por exemplo; pode mostrar que, mesmo entre os mais aguerridos militantes, há uns tão afeitos à lógica civilizatória vigente quanto qualquer maçom. Desdenham da possibilidade de um novo modelo de economia, de outra forma de gerir o tempo, uma vida mais simples ou mais bem compartilhada. Riem de quem abre mão do sistema. Riem de quem luta pela preservação ambiental. Riem de quem não consome… Só há a sua revolução!

Tratam da busca por sustentabilidade de fato com a mesma arrogância resignada de qualquer político ortodoxo de direita. Por isso, essa sensação sufocante e desanimadora de que muitos não passam de rebeldes embatumados lutando pelo controle da democracia burguesa, completamente privatizada e carburada pela cumplicidade adoecida entre produção e trabalho; esse teatro mercantil movido a consumismo organizado de classes. A luta de alguns não passa da tomada de privilégios para si ou para sua classe. Já lemos este livro, não?

Não sabemos como tais protorrevolucionários lidarão com as Mudanças Climáticas depois da COP 21, que praticamente definiu uma tomada tardia de consciência quanto ao aquecimento global. Mas tudo indica que irão até o fim lutando pelo que já têm. Afinal, tanto foi investido na luta que já não importa… Enquanto isso e há muito tempo, os envolvidos na mesma luta contra o capEtalismo, pelo viés ecológico, esperam uma definição, um apoio, um abraço camarada.

Tenho uma certeza fincada sob meu pé esquerdo: raros são os que compreendem que o mundo institucional em que atuam é, todo ele, focado em protocolos de classe consumistas, e que o inimigo imediato está nessas entrelinhas. Digo, mancando: – De uma filipeta a uma fábrica inteira, tudo é demanda por recursos – coletivos e finitos!

Como se fosse possível causa ser solução, há quem sonhe em tomar de assalto o controle institucional da barbárie burguesa, sem ruptura alguma. É o sonho dos embatumados. Manter a referência de bem-estar social centrada no poder econômico. São capEtalistas de esquerda ou o quê? … Enquanto isso, não nos faltam ambientalistas lançando as iscas do capEtalismo verde para os distraídos… Sabe, há pessoas que têm a nítida ilusão de que mudar é mudar a cor do verso do baralho e continuar jogando o mesmo pôquer!

Qual a dificuldade de aceitarmos que há um novo paradigma posto como alternativa à barbárie capEtalista, por uma catástrofe climática logo ali? Como podemos – nós mesmos, que nos dizemos revolucionários  – negar o resgate do óbvio, do simples, do frugal, orgânico, artesanal? Por que as “vanguardas” não podem romper com os próprios dogmas pelo bem coletivo? Trata-se de religião? Inocente,eu?

Penso que destes questionamentos deve crescer entre nós esta nova militância. Uma ação política mais oxigenada, mais fluente, próxima ao povo e sua rotina pessoal. Uma militância propagando um olhar ecológico e o enfrentamento ao capEtalismo pelo Não-Consumo, pelo Consumo Crítico, como já acontece em vários movimentos.

Não é preciso romper com a lei de mercado, ao contrário. Desconstruir a procura por produtos não prioritários é o caminho. A lei de mercado, aplicada com legitimidade e transparência pode fazer parte desta luta, mas sem perder o viés humanista, sem perder a capacidade de compreender que coletivismo não implica  soluções sociais industriais, em crescimento ilimitado e privatização ou estatização acelerada de recursos naturais – sob o poder de quem quer que seja.

Em tempos de mergulhos rasos, textos curtos e compreensões comprimidas para maquiar o que têm de imediatistas e lineares, dá até impressão de que estamos cercados de revolucionários com medo de pensar fora da caixinha vermelha.

Talvez, se pensassem sem medo de perder o que já investiram, deixando de agir como os conservadores que combatem; compreenderiam que o mundo que brota do  aquecimento global já está fadado a um agravamento dos problemas socioambientais e que as  — sempre —  massas humanas mais distantes do embuste civilizatório sofrerão os maiores impactos. E vamos teimar no embuste? Vamos ignorar que todo passivo ambiental é social? Não vamos deduzir que todo passivo social gera passivos ambientais também? O tempo é de arredondar os pensamentos, juntar as pontas…

Enquanto o mundo discutia se as Mudanças Climáticas eram pra valer — ou se não passavam de rompantes neocomunistas contra o desenvolvimentismo –, algo mudou profundamente. Cresceu o questionamento sobre as responsabilidades pelo aquecimento global. Este é o fortalecimento, não do mercado verde, mas de abordagens mais térreas e críticas sobre os hábitos de consumo e, portanto, de um enfrentamento, uma ruptura moral, estética, cultural com este paradigma… As coisas tendem a ficar mais divertidas mesmo quando sacarmos que, por vias tortas, a falsa liberdade de produzir, vender e comprar o que der na telha está com os dias contados!

Os servos das corporações conseguem dormir, mantendo o ciclo de vida de seus produtos em sigilo, na tentativa vil de socializar a responsabilidade pelos passivos socioambientais globais… A dúvida em escala política é: – Será que nossos rebeldes e revolucionários partidários, os que lutam pelas maiorias oprimidas com as mentes compactadas de atrasos, seriam capazes de contar a verdade para quem consome?

É inevitável que a consciência crítica sobre os modos de produção mude drasticamente as relações entre capital e trabalho, permitindo novas formas de militância política e um novo olhar sobre o bem-estar social.

É duro para os industrialistas e para os fissurados no economês castiço darem de cara com o óbvio. E o óbvio é que estamos diante de uma mudança drástica de modo de vida e de uma volta urgente ao que nossos ancestrais próximos, bem mais empoderados que as manadas urbanas atuais, tratavam como prioridades.

Teremos que assimilar o conceito de sustentabilidade para a nossa espécie, inclusive, para a sobrevivência coletiva, para os seres vivos – não apenas para o caixa das corporações e seus fantoches institucionais. É claro que isso nos leva à palidez de compreendermos que esse papo todo de Mudanças Climáticas atinge em cheio as ideologias industrialistas, tão susceptíveis aos lobbies corporativos e farsas venais.

Quem se diz vanguarda e é incapaz de mudar sua visão de mundo e seus hábitos, quem se diz antenado e não assimila o novo paradigma que NÃO me desculpe – é companheiro mesmo do desenvolvimentismo burguês que está destruindo o planeta.

Não é papo de ecochato, não. Não estamos mais diante de uma questão simples como pintar o verso do baralho de verde greenwashing, vermelho poluição chinesa, azul privilégio ou amarelo náusea. A queda da qualidade de vida é generalizada, nas cidades e fora delas e a máquina institucional não para, mesmo sabendo que as consequências da degradação já estão impactando a todxs.

Cabe questionarmos ideologicamente e ao largo de qualquer apelo à continuidade deste modelo civilizatório: – Como será socializado o impacto das Mudanças Climáticas sob tamanha desigualdade social?

Será tão difícil, entre tantas ideologias, ao mesmo tempo, opostas, mas tão cúmplices do poder econômico, compreendermos que não há revolução social nem encaminhamento objetivo para as emissões de gases, sem uma ruptura radical com o modo de produção capEtalista?

O recado não é apenas para os rebeldes embatumados e é simples como o mundo de que necessitamos: – A nova subversão é não consumir!