Chegamos à 30ª edição da nossa e-revista Língua de Trapo.

Dias tristes e desalentadores para uma comemoração.

Os disfarces não mais se sustentam:  assistimos, dia após dia, a confirmação das previsões políticas mais catastróficas. Nos tornamos espectadores atônitos de uma avalanche que destrói o pouco que conquistamos nos últimos tempos, apesar dos pesares. Caem por terra programas- ou obrigações- sociais e esperanças. Emerge nossa sensação de impotência.

Confirmações catastróficas para nós, mas vantajosas para eles. Sim, caros e caras leitoras: há divisão entre “nós” e “eles” enquanto houver estes desmandos abomináveis, esta subserviência ao especulador, esta entrega incondicional de nossas riquezas que faz só pensar que nós, bem, nós nos odiamos. Há divisão enquanto nos desdobrarmos para sustentar o insustentável, enquanto apoiarmos cegamente nossos algozes. Há divisão mesmo que não compreendamos que muitos dos que se acham “eles”, na verdade, fazem parte de nós.

Dias tristes. Mas nem tudo é treva. E assim, resistimos.

Resistimos também aqui nesta revista, escancarando nossa indignação. Usamos a palavra sem grandes medos. E assim um pouco de alegria e orgulho mistura-se ao caldo: é, afinal, um projeto motivado por aquilo que sentimos como mais genuíno, pelas angústias persistentes que, perante este Absurdo, não vão nos deixar. Felizmente.

É, acima de tudo, um projeto que emerge do desejo de combater a estupidez: primeiramente, a nossa própria. Depois, a do mundo.

Enquanto comemoro e torço pela vida longa dessa nossa confraria- que inclui você, leitor ou leitora- deixo as lembranças destes meses me invadirem.

Preciosas memórias!

Foi durante os trabalhos para a Língua que descobri que não se escreve “Ciclana” ou “Ciclano’ e sim Sicrana. Não concordei, mas aceitei.

Foi pelo julgamento do nosso revisor Rodrigo César Dias – cuja sinceridade ultrapassa os parâmetros da tradição-  que sofri imenso choque ao descobrir que o verbo que define a atividade dos gladiadores romanos é digladiar- sim, com i mesmo- e não degladiar, forma que minha mente preferia.

Foi me entregando ao difícil ato da escrita que descobri – imagino que ficarão pasmos- que a cor cinza não admite plural. Outras cores sim. Mas cinza não. Que tal?

Não me culpo: nesses labirintos alógicos da gramática às vezes erramos justamente por acertar.

Foi ao me jogar no desafio da escrita que descobri um grande, enorme pavor: a página em branco impossível de ser preenchida em dias de bloqueio. Uma insuportável página em branco do Word que não se preenche sozinha e faz, naquele momento, todos os outros problemas parecerem facilmente superáveis.

É dito por aí que para tudo há solução. Encontrei a minha: agora sempre escrevo primeiramente a lápis. E borracha. Muita borracha para muitos erros. Não sei dizer a razão, mas o papel e o lápis facilitam. Além de proporcionarem certo ar retrô, um ludismo que em nada faz mal. Contra a terrível inércia vale tudo, inclusive mudar o cenário para um confortável gramado, como ilustra a foto tirada em tempo real.

Foi também nas tarefas semanais para a Língua de Trapo que descobri o quanto bambeamos perante o julgamento alheio. As pernas tremem, sobretudo, perante o julgamento de quem importa. Mas logo aprendi uma maneira de deixar as pernas mais firmes. Como? Uma antiga fórmula mágica: leitura, curiosidade, pesquisa e coragem. Creiam: os elementos veem quase nesta ordem e nos fortalecem naturalmente.  Nada além disso: para deixar as pernas mais firmes é possível recorrer ao Conhecimento, esta coisa humana tão desprezada nestes dias.

Foi pelo contato com algumas pessoas resistentes ao Conhecimento que conheci, de maneira inédita, como é receber críticas sem lógica, sem ética, anacrônicas e perversas. A elas dedico um estranho agradecimento, já que nos permitem sermos menos tolas, menos ingênuas e enxergar, finalmente, o quanto ainda temos uma longuíssima luta a ser travada contra o domínio da estupidez.

Mas isso é pequeno perto do principal: foi pelo contato com o público da Língua de Trapo que senti, como nunca, a veracidade do clichê que diz “juntos, somos mais fortes”.

E é com este clichê- pouco acadêmico, mas muito verdadeiro- que finalizo com um agradecimento aos outros editores, ao time de colunistas e time de leitores!

Em breve, na 300º edição, retorno com mais aprendizados.

Vida longa à Língua!