Há poucos filmes como Aquarius.

Impactada até os ossos, escrevo sobre o polêmico filme com um tanto de atraso, o que não creio ser problema algum, afinal, se trata de um argumento pleno de assuntos e sensações atemporais.

Polêmico desde sua estreia, aquelas imagens ora fortes, ora sutis que fazem o Aquarius estão além- muito além- do necessário protesto feito pelo elenco em Cannes. O momento político, exigente de resistências, pode ser relacionado e mesmo circunscrito às metáforas do filme, mas certamente não o esgota.

Eventualmente estragarei algumas surpresas para os que ainda não assistiram, mas deveriam. Prossiga sem medo: qualquer spoiler não deve ser trágico.

Difícil escolher uma destas muitas metáforas tocantes para iniciar esta pretensa e passional análise. Na dúvida, talvez seja uma boa ideia começar pelo começo: pelos cabelos de Clara, a protagonista de rara resiliência.

Clara inaugura o filme com seus cabelos curtos, no melhor estilo Elis Regina, anunciando a superação de um câncer e, sobretudo, de seu tratamento. A identificação foi imediata: tendo passado pelo mesmo processo, compreendi que Clara também fazia suas comemorações, buscando cotidianamente seu Eros, embalada por músicas que iam das obras-primas do Queen aos acordes – nem sempre com alguma qualidade- que extraía do seu piano. Mas a qualidade, neste e noutros casos, não era o que importava.

O tratamento do câncer foi uma destas ofensas da vida enfrentadas com sofrimento, mas evidente habilidade. Coisas piores viriam- e sempre vêm- depois: pior do que os efeitos da quimioterapia foram as sensações sofridas por Clara perante o rechaço ao próprio corpo, pelo asco das cicatrizes que, sob olhar iludido e limitado de alguns, passavam do símbolo da vitória à eterna não aceitação da falibilidade humana. Principalmente, da própria falibilidade.

Clara segue se vingando das ofensas da vida habilmente. Estas vinganças se concretizavam em uma vida de risadas, vinhos, becks, discos de vinil,  raras afinidades, uma bela vista para o mar de seu antigo apartamento e, acima de tudo, da afirmação de si perante o que viesse.

E as coisas vinham. O tempo passou e eis que o modo de vida de Clara passou a ser uma ofensa. O seu afeto pelo lar que abrigava tantas lembranças passou a ser um grave empecilho ao futuro da capital pernambucana: era preciso demolir, reformular, ampliar, maximizar os lucros, valorizar aquela vista para o mar e capitalizar até onde possível aquele pedaço de sol. Neste projeto, neste futuro idealizado, seus afetos não mais cabiam. Era preciso, portanto, uma boa razão para covardemente destruí-los.

Racionalizações não faltaram: dos cupins ao medo pela segurança da escritora que vivia só, o coro que clamava pela saída de Clara parecia engrossar, assim como os ataques.

E assim seguiram acontecimentos dominados pela barbárie que revelam um estágio tão cruel e primitivo que só é possível superar sendo Clara. São labirintos -construídos coletivamente – que exigem uma resiliência quase sobre-humana.

Sejamos Clara.