O mito de Ariadne e Teseu reverbera ainda hoje altissonante conforme toca igualmente passado e presente, a Grécia e o outro lado do Atlântico. Teseu, decidido a derrotar a besta-fera do labirinto de Dédalo e inscrever-se na memória dos homens como imortal, recebe conselho preciso do Oráculo de Delfos: o Minotauro pode-se vencer com o auxílio do amor. A trama do mito segue assim conforme se articulam o trivium de Teseu, Ariadne e o Minotauro com o quadrivium da memória gloriosa, da sabedoria divinatória, do amor e do combate. E uma série de vinculações entre seus termos será crucial para o trágico desfecho de uma Ariadne lançada à própria sorte na ilha de Naxos, mulher que aspira a se tornar mais uma das tantas mulheres de Atenas da canção de Chico Buarque, e, como elas, tomada em proveito dos caprichos e projetos dos homens e dos deuses.

A trama do mito se tece com diversos “fios” de ações. Teseu confia sua sorte ao saber oracular, e também se fia no amor e na estratégia de Ariadne que, em troca, crê em sua fidelidade. Ariadne desfia seu novelo, Teseu toma este fio como bússola e garantia de vitória. Mas o fio que liga Teseu a Ariadne não ata o primeiro ao segundo de forma irrevogável: diante do sonho imprecatório do deus, que Teseu toma como implacável ameaça contra sua glória, não há hesitação em desatar o frouxo nó entre seu destino e o de Ariadne, entre os louros que Atenas lhe promete e as feras que, ao menos na versão musicada de Monteverdi, Naxos lega à lamentosa Arianna

Todos estes fios – da confiança-entrega, da fiança-garantia, da fidelidade que ata duas existências pelos laços da confiança e da fiança, concretizada materialmente no novelo-guia sem o qual a vitória contra o Minotauro seria impossível – implicam, pela possibilidade mesma de seu rompimento, entrar num território de risco. Afinal, o que garante que a entrega de sua sorte ao outro não será traída (como, aliás, foi), o que assegura o cumprimento da promessa, o que indica que o fio que guia e une não será rompido? Esta incerteza, onipresente como espectro sutil, não se pode dissipar nem pelos acordos, nem pelas cauções, nem pela constância esperada, nem mesmo pela resistência física de um barbante. Um contrato, uma hipoteca, uma linha, até um caráter, tudo é passível de rompimento, calote, decepção, traição.

No entanto, e isso mesmo nas versões do mito em que Ariadne é recolhida à morada do deus – como se isso lhe compensasse afinal a dupla traição humana e divina –, um mesmo problema emerge. Seja pelo abandono de Teseu, seja por aderir ao plano de Dionísio como cessão diante do destino inescapável, ele, o destino, que entre os antigos gregos se denominava pela tríade das moirai – aquelas que teciam os fios da sorte e da vida dos mortais –, lança impiedosamente seus dados para lembrar que, mais do que viver por um fio, é no fio que se pode viver. Não cabendo aos mortais prever ou interferir no acaso implacável, resta, então, lidar com todos os perigos presentes na necessária, árdua e incessante tarefa de estabelecer alianças – trabalho imperativo tanto da perspectiva duma ética quanto da práxis política.

Dois ou mais fios, quando numa aliança produzem nós, também operam um estremecimento fundamental. Fios fazendo nós, isso quer dizer: sujeitos que articulam propósitos ou intenções numa zona de intersecção formando um de ação; e que, além disso, fazem tocar expectativas, afetos, formas de vida, formando um nós que desestabiliza parcialmente os eus isolados. Esses nós, substantivos e pronominais, como limiares entre individualidades e zonas de risco que se escolhe correr – em que condições, até que ponto, podem subsistir sem que suas partes sejam aniquiladas em sua mistura provisória? Mesmo que consideremos que a confiança que permita produzir esses nós, sempre duplos, substantivo-pronome, referente ao concreto enlace e à relação entre suas partes; mesmo que uma confiança possa se estabelecer nessa dualidade, nossas histórias individuais sempre nos lançam à desconfiança, prudente, é certo, de exigir mais que formalidades como um novelo-guia ou uma fiança caucionada por ritos de glória futuros. Afinal, nenhum líder a dirigir nosso destino nem uma Promessa redentora a ser cumprida num futuro apoteótico asseguram, hoje, aqui, nesta ação singular que nos faz nó/s, que o fio que assim nos faz não será, por necessidade ou eventualidade, desfiado até romper.

Como produzir esses nós, como ser esse nós? Se as moirai não nos deixam apelar à ingênua crença na simples palavra, se elas não interrompem jamais a roda de nossas vidas e do tear que as tecem, nós, mortais, atados em parte ao presente e a suas limitações, exigimos bem mais que a promessa, a ordem ou a reflexão distanciada incapaz de produzir algo além de um contingente de eus desconexos. Nenhuma forma de palavra – discurso, ordem, promessa – poderá romper as películas de nossas particularidades. Estas frágeis membranas – o que explica nosso impulso de protegê-las – decerto podem ser rompidas por uma classe potente de palavras: aquelas que efetivam liames pelo exemplo de constância na ação, pela paciência revolucionária no convívio e pela sábia mediação de nossas fraquezas, limitações e modos de agir. Esta palavra, porém, não é propriamente enunciada, mas reverberada de um fio a outro de uma rede. Em rede, pois, não se trata de encontrar a razão acústica ou a fonte que emite uma voz, mas compreender que, nas lutas, nos acordos urgentes que o momento nos pede, cada uma das vozes, de suas posições individuais, só se fará ouvir com força se conseguir ser resposta, e não origem, das outras.

Estaremos à altura deste desafio? Saberemos escutar o chamado a sermos nós, ecos confiáveis uns dos outros na ação política? Enquanto nos perdemos em encontrar meios de responder a estas questões, a sair de nossas bolhas, as moirai continuam tecendo sua trama. Indiferentes e zombeteiras quanto às nossas vontades próprias.