A alegoria que representa a justiça precisa ser reconstruída no Brasil. A mulher, cuja venda terá sido removida dos olhos, segurará em uma das mãos uma balança descompensada, fraturada, avariada; e com a outra, fincará uma espada cortante no peito de outra mulher, a alegoria da democracia, que agonizará, ferida mortalmente que está.

O golpe foi consolidado! Engendrado pelo legislativo, com o judiciário forjando sua legalidade e tendo a mídia hegemônica como dedicada propagandista, convenceu parte da população, especialmente os mais despolitizados, desconhecedores de conceitos básicos, como democracia.

Entre eles, há os que se apoiam na falsa legitimidade do processo – que seria ratificada pela participação do STF; há os que defendem que a “maioria” não queria mais a governante no poder, portanto teria de sair – como se este fosse o conceito de democracia, isto é, põe-se e tira-se alguém do poder de acordo com desejos efêmeros; ou ainda os profundamente equivocados que comparam o Estado a uma empresa, alegando que maus funcionários têm de ser demitidos, ora! Todos vítimas da densa manipulação e profunda alienação política construídas e reforçadas pelas narrativas dos meios de comunicação hegemônicos.

Desde antes das eleições de 2014, as grandes mídias iniciaram o processo de construção das narrativas que hoje corroboram e legitimam o golpe. A larga exposição na imprensa de casos de corrupção do poder público em suas várias instâncias recrudesceu a percepção de parte da população, aumentando a sensação de impunidade e o sentimento de indignação. Isto não é novidade, aliás, falta criatividade, pois  assim foi em 1964. As receitas se repetem.

Quando João Goulart sinalizou com pequenas ações para amenizar o profundo abismo das injustiças sociais – de caráter histórico no país -, os grandes meios de comunicação se posicionaram frontalmente contra seu governo. Acusaram-no de ser comunista – o que Goulart nunca foi -, pois sabiam que o termo assombrava a imensa maioria da população que, altamente despolitizada e alienada, sofria de ignorância conceitual sobre ideologias sociopolíticas e reproduzia ideias manipuladas e distorcidas.

No entanto, grupos de esquerda e movimentos operários se aproximaram de Jango por vislumbrarem possíveis avanços sociais. Foi o suficiente para reforçar a narrativa forjada pelas mídias. Os discursos conservadores apontavam para o risco iminente de uma ditadura comunista.

Este cenário causou indignação e pânico nas classes médias conservadoras.

Notícias sobre corrupção começaram a ser largamente propagadas pela imprensa, bem como sobre a crise econômica, o que intensificou a crise política.

No dia 19 de março de 64, uma multidão, insuflada pelos meios de comunicação hegemônicos, saiu às ruas na famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A Marcha foi idealizada pelo deputado federal Antônio Sílvio Cunha Bueno,do Partido Social Democrático de São Paulo, como uma forma de resposta conservadora ao comício da Central do Brasil. O objetivo era mostrar aos articuladores do golpe que havia uma base social de apoio à trama sórdida.

Cunha Bueno buscou apoio logístico entre empresários paulistas e o vice-governador, Laudo Natel, para a empreitada. Foram disponibilizados caminhões e soldados da Força Pública (hoje Polícia Militar do Estado de São Paulo) para manter a ordem.

Os meios de comunicação utilizaram a fala de Jango “não é com rosários que se combatem as reformas”, para construir a narrativa de que haveria perseguição aos cristãos. Uma horda conservadora singrou a ruas do centro de São Paulo até a Praça da Sé, onde ocorreu uma cerimônia de hasteamento da bandeira e a entoação do Hino Nacional. Depois, discursos acalorados de oradores da direita, especialmente da UDN, e a realização da Missa da Democracia, rezada pelo ultraconservador padre irlandês Patrick Peyton, que sempre manifestava discurso de ódio aos comunistas.

A esta manifestação seguiram outras, em várias cidades. Às vésperas do fatídico 1˚ de abril de 1964, o jornal Correio da Manhã clamava por “Basta” (O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta!) e “Fora” (Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia!). Mais tarde, ao fazer um mea-culpa e se colocar como oposição ao regime golpista, o jornal foi perseguido e levado à falência.

Golpe consolidado e os grandes jornais, revistas, rádios e TVs passaram imediatamente a arquitetar a narrativa da revolução – desconstruindo o caráter de golpe do puscht civil-militar. No dia 2 de abril, os jornais noticiavam a deposição de João Goulart e a posse de Raniere Mazzilli, Presidente da Câmara, que assumiu interinamente o cargo de Presidente da República.

Ibrahim Sued, em sua coluna no Diário de Notícias, vaticinou sobre o fim do comunismo no Brasil; O Estado de São Paulo publicou em sua manchete de capa: “Vitorioso o movimento democrático”; O Globo comemorou: “Ressurge a democracia”; O Dia estampou: “Fabulosa demonstração de repulsa ao comunismo”; a revista Cruzeiro trouxe na capa da edição de 10 de abril a figura sorridente do artífice do golpe, Magalhães Pinto, e a manchete “Edição histórica da revolução”; o Diário de Piracicaba acendeu a chama da esperança do povo ao publicar: “Cessadas as operações militares, a calma volta a reinar no país”.

Algumas manchetes dos primeiros dias após o golpe nos permitem enxergar mais nitidamente a construção destas narrativas. O Globo estampou: “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos” e “Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”; O Dia publicou: “A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento”; A Tribuna da Imprensa trouxe: “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr. João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu”; o Jornal do Brasil indagou: “Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”.

Após o golpe, as notícias sobre corrupção política desapareceram. Quem ousasse acusá-los corria o risco de perseguição, tortura e morte. Portanto, a sensação de impunidade da população se dissipou. Alguns saudosistas ainda hoje exaltam que naqueles tempos havia ordem.

Em 31 de março de 1973, o editorial do Jornal do Brasil avaliou: “Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se. Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela não moveu o País, com o apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades”. Isto é, forjou-se a ideia de milagre econômico pelas ações do governo militar.

A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Marx é atualíssimo. As narrativas do golpe civil-militar de 64 reproduzem-se de maneira muito similar neste golpe legislativo-judiciário de 2016.

As notícias sobre corrupção arrefeceram – o que não implica que a corrupção tenha diminuído, mas a percepção sobre ela sim -, as matérias sobre crise econômica desapareceram, as manchetes trazem ideias mais otimistas. A Folha de São Paulo publicou entre maio e julho passados: “Economistas veem sinais de saída do fundo do poço”, “Sinais mistos sobre a economia indicam saída da recessão”; O G1 estampou: “No G20, Temer diz que já há sinais de retomada da economia brasileira”; a Isto É cravou: “A retomada do otimismo”; o Estadão comemorou: “Humor com economia começa a melhorar”. Ora, notícias deste quilate, repetidas incansavelmente, mudam a sensação sobre as realidades do país para a imensa maioria da população, que não tem conhecimento sobre economia e nem senso crítico para perceber as narrativas forjadas pelas mídias hegemônicas.

Assim, a percepção das realidades se altera ao gosto dos meios de comunicação, que não se furtam aos mais desonestos embustes. As narrativas para justificar o estado de exceção estão sendo construídas. As mídias escondem a truculência policial no trato com os manifestantes contra o governo golpista e usa a exceção, isto é, um ou outro ato de resistência dos participantes, para legitimar a violência do Estado.

Destarte, deverá se juntar à alegoria da justiça ferindo mortalmente a democracia a figura da imprensa, uma mulher que furtivamente troca os linotipos, distorcendo e manipulando as informações e conteúdos. Este cenário, construído pelas três mulheres representará o segundo golpe sofrido pela população brasileira nos últimos 52 anos.

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