No dia 10 de novembro, uma sexta-feira, visitei algumas escolas estaduais ocupadas na cidade de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte. As escolas, invariavelmente, estampam uma enorme faixa na sua entrada indicando que estão ocupadas.

Na entrada, estudantes guardam o portão e ao ingressar você é obrigado a apresentar seu nome e CPF, que são registrados num livro de controle. Tudo acompanhado por estudantes e alguns professores ou diretores da escola.

Há, ao menos, duas surpresas que qualquer visitante percebe de início: o grau de politização dos secundaristas e o grau de organização.

Numa das escolas que visitei, a mais tradicional da cidade, o clima era muito agradável. A escola possui 1.200 alunos e a assembleia que decidiu pela ocupação teve ao redor de 300 votos a favor contra 100 pela não ocupação. Desses 100, ao redor de 40 deles não se deram por vencidos e intimidam e atacam os ocupantes, chegando a fazer ameaças gravíssimas. Mas, a caravana passa…

Para o início da ocupação, os pais assinaram autorizações para que pudessem dormir na unidade escolar. Sempre acompanhados por apoiadores – professores ou membros de ONGs locais – que estão o tempo todo no interior da escola.

O grau de organização é surpreendente. Existe uma coordenação (que faz o contato externo, responsável pela comunicação e coleta de alimentos e outros mantimentos) e comissões (limpeza, alimentação). As comissões funcionam como um relógio e não há imposição, o que me surpreendeu bastante. Os alunos definem espontaneamente sua função.

Cheguei nesta escola na hora do lanche da tarde: pão sovado com ovo mexido e alface acompanhado de suco. O mais interessante é que, além de saboroso, com cuidado na apresentação.

Há programação diária. Ontem, tiveram uma longa discussão sobre feminismo. Anteontem, tiveram a tradicional “queimada” nos dois turnos. Criaram um “café cultural” que realiza atividades e debates nas escolas.

Existem regras muito bem definidas e rígidas sobre namoros e uso de álcool. Professores se revezam para dormir com os alunos, numa espécie de vigília e segurança de adultos.

O mais surpreendente é o grau de politização. As ocupações são lideradas por mulheres. Há muitos homens, mas são elas as lideranças, sempre amáveis, mas seguras. Abrem sorrisos, são meigas, mas a liderança é incontestável. Professores e estudantes se referem às líderes como referências legítimas.

Ao conversar com elas, percebe-se nitidamente a firmeza de convicções e uma leitura das mais realistas sobre suas condições e as resistências existentes. Já havia percebido este senso de realidade nas líderes de ocupações das escolas de Belo Horizonte.

Durante uma das conversas que tive numa escola ocupada, o diretor apareceu para informar que eles deveriam decidir sobre a realização de exames dos estudantes do 3º ano até dia 17, para envio das notas à Secretaria de Educação. Imediatamente, disseram que tomariam a decisão logo depois do encerramento do nosso bate-papo. Mais uma vez, sem alarde, com firmeza, sem qualquer exasperação. Aliás, desde as manifestações de 2013, parece cada vez mais presente a cultura de respeito às decisões horizontalizadas, colegiadas, sem definição de lideranças centrais ou comandos verticalizados. Embora aceitem visitas de partidos e órgãos centralizados de organismos de representação estudantis, os ocupantes deixam claro que não aceitam proselitismo partidário ou tentativa de comando externo.

Ao final, fiquei me perguntando de onde saíram. Não percebíamos que se forjavam adolescentes com tal capacidade de liderança e senso de realidade?

Enfim, as ocupações secundaristas se transformaram numa escola de civilidade. Discutem, dividem tarefas, acolhem, dialogam e preservam o patrimônio público.

Precisam se abrir mais para o extramuro, abrir as escolas para os bairros, se comunicar mais via WhatsApp (todos criaram fanpage no Facebook e relatam seu dia a dia), mas acho que podem dar uma demonstração cabal à sociedade de como deveria ser uma escola voltada para a lógica dos adolescentes. Se avançarem sobre isto, desmontam, na prática, esta proposta caduca, atrasada, dos velhos que compõem o CONSED e que, já provaram, não são competentes para fazer o Ensino Médio gerar sucesso. A reforma proposta para o ensino médio, cotejada pelo ambiente das ocupações, parece realmente coisa de gente que pouco entende o que ocorre com nossa adolescência.

O sucesso escolar, enfim, parece estar menos nos gestores educacionais do alto escalão e mais nas mãos dessas meninas e meninos.