1. As Olimpíadas revelam nosso elitismo

As Olimpíadas no Brasil terminaram. O quadro de medalhas coloca o Brasil na 13ª posição no ranking geral da competição. O Brasil conquistou 19 medalhas, sete de ouro, seis de prata e seis de bronze. Os EUA apareciam com 121 medalhas; a Grã-Bretanha logo atrás, com 67 medalhas; e a China, em terceiro, com 70 medalhas.

Este foi o melhor resultado do Brasil em Olimpíadas. O maior número de medalhas de ouro até aqui havíamos conquistado em Atenas, em 2004: 5 medalhas. Agora, foram 7. O maior número total de medalhas em Olimpíadas havia sido conquistado em Londres, em 2012: 17 medalhas. Agora, conquistamos 19.

O judô continua na vanguarda das conquistas (3 medalhas). Assim como a ginástica artística e a canoagem (também 3 medalhas em cada modalidade), seguida pelo vôlei (de praia e de quadra). O futebol masculino reluziu ouro pela primeira vez. Então, parece que somos bons em esportes de elite, em lutas e esportes coletivos. Já fomos mais elitistas nos esportes olímpicos. Na nossa primeira participação, em 1920, conquistamos uma medalha de ouro no tiro esportivo, através de Guilherme Paraense. Em 1948, conseguimos uma medalha de bronze no basquete masculino. Em 1953, a estrela de um negro brasileiro brilhou: Adhemar Ferreira da Silva, no salto triplo. O atletismo sempre me pareceu, ao lado do futebol, a área esportiva com que a maioria do nosso povo tem mais afinidade. Achei sempre meio estranho nos destacarmos no tênis ou na Fórmula 1.

No atletismo, já havíamos conquistado 4 ouros, 3 pratas e 7 bronzes. No boxe, 1 prata e 4 bronzes. No futebol feminino, duas pratas. No judô, 3 ouros, 3 pratas e 13 bronzes. Mas, ainda parece estranho que esportes que envolvem muito pouco as classes subalternas (pelo custo de equipamento ou pelas dificuldades de acesso popular ao treinamento) ainda apareçam com destaque na nossa história nas Olimpíadas. Caso do basquetebol (1 prata e 3 bronzes), canoagem, ciclismo, handebol, hipismo (1 outro e 2 pratas), tênis, tiro (1 outro, 1 prata e 3 bronzes) e vela (6 ouros, 5 pratas e 6 bronzes).

Há algo de estranho neste cenário, não? É verdade que a educação física nas escolas nasceu como “gymnastica” e tinha seu currículo fundado em esgrima, lutas e equitação.

Desta vez, 77% dos medalhistas foram financiados pelo Bolsa Esporte, parte das políticas sociais que o (des) governo Temer está demolindo. Não por outro motivo, vários medalhistas exigiram a permanência desses programas. Talvez, por aí, tornemos as conquistas e os treinamentos olímpicos mais populares no Brasil.

Mas, continuemos analisando a performance do Brasil nesta Olimpíada.

Cuba sempre esteve à frente de nossas conquistas olímpicas. Desta vez, estiveram atrás de nós. Isto não é pouco. Os cubanos são fantásticos, se refazem do nada, possuem um orgulho que se compara ao dos norte-americanos, se superam e são bons no que fazem. Em quase todas as áreas. Em Atenas, ultrapassamos a Argentina no quadro de medalhas. Agora, somos os primeiros na porção da Terra que denominamos de América Latina. Da América, apenas os EUA aparecem à nossa frente.

Saímos do quadro  total de medalhas, de um dígito, para dois dígitos em Atlanta, em 1996. Depois, oscilamos: 15 (1996), 12 (2000) e 10 (2004), para começarmos a deslanchar (16 medalhas em Pequim; 17 em Londres; e 19, no Brasil).

Enfim, melhoramos. Mas num país tão profundamente desigual (estamos abaixo da média latino-americana de desigualdade – o IDH-D -, embora sejamos o país mais rico da região), sem ação estatal, não conseguiremos equilibrar socialmente o acesso ao esporte de alto rendimento e seremos medalhistas do tamanho de nossa elite.

Melhoramos. Muito. Mas ainda não estamos no esporte olímpico à altura do que somos econômica e politicamente. Continuamos mais ou menos no ranking. Continuamos elitistas, mornos.

2. Também tivemos manifestações mornas

Pior foi o impacto das manifestações contra Temer durante esta jornada esportiva em que o mundo estava aqui.

É verdade que Temer levou uma vaia histórica. Aliás, o jogo de cena na abertura, levando a erro ao anunciar a tribuna num palco que não era o correto, a câmera que jogava a imagem nos telões do evento abrindo a ponto de não se perceber quem estava na tribuna, o início da fala do interino sobre penumbra, tudo indica que a impopularidade de Temer é mais que evidente para o próprio. Mas não chegou à segunda frase e tomou a vaia, que foi noticiada no mundo todo. Menos aqui no Brasil, como deveria.

É verdade que a primeira medalhista de ouro do Brasil nestas Olimpíadas, a judoca Rafaela Silva, fez um elogio público à Dilma Rousseff e exigiu a permanência de políticas sociais, como o Bolsa Esporte.

É verdade que foi seguida por outros, como Robson Conceição, medalha de ouro no boxe, que criticou publicamente a redução da idade penal e pediu mais programas sociais para crianças e adolescentes. Disse com todas as letras: “Não acho justo puni-los” .

É verdade que houve protesto. Que metrôs e túneis do Rio de Janeiro foram tomados pelo “Fora Temer”. Que estádios, no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, gritaram a plenos pulmões contra o interino.

Mas é verdade também que mais uma vez os manifestantes foram cercados pelo “Caldeirão de Hamburgo” que o governo Dilma trouxe da Alemanha para inibir as manifestações durante a Copa de Futebol.

É verdade que Temer não sai mais fortalecido, possivelmente até começa a ter seu verniz de para-autoridade ainda mais arranhado, mas também não se gerou uma comoção a ponto de inviabilizar sua permanência no cargo.

Temer continua com a estatura baixa que se projeta nas fotos.

Continua com seu índice de apoio popular ao redor de 11%. Talvez já esteja abaixo disto em virtude dos efeitos que já são criticados nas feiras, nos bares, nos táxis, nos pontos de ônibus.

Mas as manifestações foram, ao final, protocolares. Fizeram parte da paisagem esperada e nada mais.

Talvez porque a população brasileira, em sua grande maioria, continue em silêncio. Talvez, porque rejeite Temer, mas também rejeite outros que se postam como líderes. Talvez, aguarde, como uma estratégia histórica de não se envolver em brigas entre elites.

Mas, talvez, ainda não tenha chegado a hora. Foram somente poucos meses de governo provisório. Com o golpe consolidado, não haverá mais motivos para comparação alguma. Será Temer sozinho com sua impopularidade.

As Olimpíadas brasileiras, afinal, foram mornas. A temperatura atual do Brasil.