Bernardete Costa, ou Beth Cheirosinha, é daquelas pessoas com a qual se proseia o dia inteiro e não se cansa. Beth é das mais antigas erveiras do mercado Ver-o-peso, em Belém do Pará.  É patrimônio imaterial de Belém, do Pará, do Brasil. Seu ofício é tradição passada de geração a geração. Beth aprendeu o segredo das ervas com a mãe, que aprendeu com a avó, e já ensinou para seus filhos e netos. Hoje vive a quinta geração de erveiros na família.

Em cinquenta anos vendendo ervas, poções e garrafadas no Ver-o-peso, Beth adquiriu conhecimento sobre mais de mil tipos de plantas diferentes para uso medicinal ou para os banhos, como costuma dizer – sabe o nome, a procedência, como preparar e o modo de usar.

Os fregueses que procuram Beth Cheirosinha em busca da cura de doenças discorrem sobre os sintomas, e ela avalia qual a melhor erva ou garrafada a se utilizar. A erveira garante os resultados e pede que as pessoas comuniquem se houve melhora ou não.

Já as poções – que agregam ervas, raízes, cascas, óleos e simpatias – são os produtos mais procurados na barraca de Beth. Certamente, a mais conhecida é a poção do amor, que é produzida com as ervas carrapatinho, agarradinho, chega-te a mim, chora-nos-meus-pés, pega-e-não-me-larga, faz-querer-quem-não-te-quer, além da queira-ou-não-queira, tem-que-me-querer. Todas as plantas são da região paraense, de municípios como Barcarena, Mosqueiro e Icoaraci. Beth diz que o ofício de mateiro tem de ser reconhecido, pois são eles que se embrenham na mata enfrentando cobra, onda e o carapanã para coletar o material de que as erveiras fazem uso.

Há cinqüenta anos que a erveira chega ao Ver-o-peso às sete horas da manhã para comprar as plantas dos mateiros – que as colhem na mata e as vendem no mercado desde a madrugada. Depois das compras, Beth decora sua barraca e começa a atender a freguesia. Atende até as dezesseis horas, quando recolhe a mercadoria, embala cuidadosamente as ervas que não foram vendidas e volta para casa para cuidar da família e esperar amanhecer um novo dia. Essa é a rotina de segunda a segunda, sem folga ou descanso.

Domingos e feriados a jornada é menor, Beth fica no Ver-o-peso até o meio-dia, depois vai passear na praia de Mosqueiro ou dançar carimbó, que ela adora.

 Atualmente, professores de universidades de Belém do Pará levam alunos da disciplina de fitoterapia para assistir palestras voluntárias de Beth Cheirosinha sobre o conhecimento das ervas. Recentemente, o Exército brasileiro a contratou para ensinar aos soldados em treinamento de sobrevivência na selva, o que se pode ou não se pode comer na mata, o que é venenoso, o que é receio e como deve ser preparado, etc.

 A simpatia e o profundo conhecimento de Beth Cheirosinha transcenderam a Ver-o-peso. Ela tornou-se uma espécie de embaixatriz e adido cultural do mercado e do estado do Pará. A erveira é representante da cultura popular e do inato carisma paraense.

* Na quinta-feira, dia 24 de março, Beth Cheirosinha participou do programa Outras Viagens, no Sesc Ribeirão Preto, divulgando a cultura popular paraense e o mercado Ver-o-peso.