Vira e mexe, amanhecem pichados os monumentos paulistanos que celebram os famigerados feitos bandeirantes. E o senso comum mais conservador possível, que é a alma da cidade de São Paulo, e que considera até ciclovia como pichação, não se conforma com tamanho absurdo. Absurdo. Pois é. Ora, vamos ter alguma decência: absurdo é mantermos em pé monumentos a assassinos de índios e negros. Absurdo, errado, infame, sacana, grotesco, desumano, escroto. Já tivemos uma coluna tratando dessa questão, na edição anterior dessa revista, mas eu gostaria de aventar alguns outros pontos e abordagens, aqui.

Muitos têm defendido que o patrimônio histórico deve ser conservado para que não se perca essa referência no futuro. Mas que futuro tem uma sociedade que preserva esse tipo de entulho sob a égide de um contexto ideológico incapaz de o renegar? E para que servem os livros? Sim, há outras formas menos ingênuas de se manter viva essa triste memória. Os grandes monumentos detêm um poder político-cultural muito contundente, para nos deixarmos levar por academicismos. A história continua a acontecer e tentar paralisá-la é uma bobagem. Uma perigosa bobagem.

Outros tem apelado à velha prerrogativa da Arte como uma manifestação humana acima do bem e do mal. Outra perigosa bobagem. Quer dizer que a “Arte” é como um deus, assim e simples assim? Quer dizer que se deve respeitar – e ponto final – uma construção que glorifica a mais pura e odiosa barbárie, porque é “Arte”? Deve ser absolutamente intocável uma obra que perpetua uma perspectiva “histórica” infeliz de cem anos atrás e que vangloria o suposto heroísmo de uma classe de gente sem escrúpulos que, de acordo com os valores humanitários atuais, deveria ser alvo de sistemáticas e severas críticas?

Não importa se os bandeirantes também encontraram ouro, ou se colaboraram para que se expandisse o território brasileiro: as chacinas promovidas contra índios e negros continuam gritando lá do fundo da nossa História e fazendo eco letal nos dias de hoje. Não se trata de uma “visão” da História, é gente como eu e você que foi morta em nome da “civilização” (mil aspas) e do enriquecimento pessoal. Não dá para um povo alimentar o orgulho desse tipo de passado torpe e criminoso.

A malfadada mitificação do bandeirante, consolidada no começo do século XX, foi empreendida em nome da produção de uma memória estrategicamente forjada – a partir do estrangulamento da História – para legitimar no imaginário social o projeto de poder dos Barões do Café na República Velha. Traficantes de escravos nativos (dos chamados “negros da terra”) e mercenários contratados para devastar quilombos e dizimar tribos indígenas foram oficialmente transformados em gigantes altivos e arrojados, cuja iniciativa teria escrito as mais valorosas páginas da construção da pátria. O poder paulista, que dirigia o Estado brasileiro durante a República Oligárquica, se assentava na insolente ideia de que, em toda a história nacional, caberia à São Paulo e sua vocação pujante e empreendedora (Non Ducor Duco, “Não sou conduzido, conduzo”, conforme se registra no brasão da cidade) tomar a frente e promover as maiores glórias ao Brasil (Pro Brasilia Fiant Eximia, “Pelo Brasil façam-se grandes coisas”, como se lê no brasão estadual). Acontece que a República Velha, sustentada sobre essa orgulhosa exaltação da paulistanidade, terminou em 1930. Ainda que a figura do bandeirante tenha também sido utilizada politicamente em outros momentos, a historiografia, hoje, percebe a realidade colonial de outra forma, muito mais realista. E não só isso: o mundo mudou. Em toda parte, como se sabe, as populações historicamente marginalizadas vêm buscando uma justa condição de dignidade e respeito, o que envolve, necessariamente, não apenas o presente, mas também o passado e o futuro.

O problema mais profundo, em relação a isso tudo, é que alterar a simbologia de um lugar pressupõe mudar estruturalmente esse lugar. Não dá para trocar os heróis de um povo sem trocar os valores desse povo e sua visão de mundo. Ainda que um ato de vandalismo abra a possibilidade do debate e do esclarecimento, nada indica, concretamente, que a cultura hegemônica em São Paulo vá, tão cedo, abandonar o elitismo, o racismo, a hipocrisia e o reacionarismo cego e desmedido.

E tem mais… Para os povos indígenas, uma pintura não é uma agressão ao corpo que a recebe, mas uma forma de transformá-lo. Marcos Tupã, da Comissão Guarani Yvyrupa, organização política autônoma que articula populações guaranis no sul e sudeste do país, prega que o Monumento às Bandeiras, ao ser banhado de tinta colorida – como ocorreu agora ao final de setembro –, deixou de ser pedra e sangrou, passando a constituir, por um momento, um monumento à resistência de seu povo. De acordo com ele, o que está oficialmente estabelecido é o simbolismo colonizador das elites, que para eles representa a morte. E arremata: “Para nós, arte é a outra coisa. Ela não serve para contemplar pedras, mas para transformar corpos e espíritos. Para nós, arte é o corpo transformado em vida e liberdade, e foi isso que se realizou nessa intervenção.” E então, por que a vontade branca e “civilizada” (mil aspas) deve prevalecer, mais uma vez? Em nome de quê?

O outro monumento à suposta grandiosidade de São Paulo é o Obelisco do Ibirapuera, erguido em honra aos “heróis de 32”, aos “mártires da Revolução Constitucionalista”. Para quem não sabe, é a surreal celebração de uma derrota militar, de um pau homérico que São Paulo levou do exército nacional quando não aceitou perder o poder político central para Getúlio Vargas. Tem até feriado em São Paulo para essa aventura juvenil fracassada.

A louvação a assassinos e traficantes de gente. O enaltecimento de uma derrota. São Paulo é um lugar que jamais para pra pensar. É claro que o preço a pagar por isso é muito caro. É claro que manter monumentos oficiais a assassinos, em um lugar assim, vai, basicamente, pela Ordem e pelo Progresso, legitimar assassinos oficiais no presente.

A república picareta fundada e organizada em torno dos interesses dos setores economicamente poderosos, feita para assegurar privilégios à sua elite tacanha e resguardar a supremacia de São Paulo, simplesmente se recusa a aceitar os direitos fundamentais de determinados grupos, de modo a não permitir a existência verdadeira de um país, por aqui. Esse é o problema de não termos um país e de termos uma engenharia de mentiras, esquizofrenias e estupidez em seu lugar: um povo tratado como bosta, que pode ser feito de escravo, sim, e, sendo escravo, se começar a incomodar, vai ser pior. Ordem e Progresso. É por acaso que o governo de São Paulo já gastou mais de R$ 3 milhões em bombas de efeito moral em 2016? Não, não é. É por acaso que bala da polícia só mata preto? Não, não é. É por acaso que uma merda de um pé de soja vale mais que um índio? Não, não é. É por acaso que uma panela batida em uma varanda gourmet nos Jardins vale mais do que todas as panelas vazias do Sertão? Não, não é. Ordem, pra cima deles; e progresso, pra nós.