Pela nona vez seguida, os resultados da boca de urna, que tem alto grau de confiabilidade, foram desconfirmados pela urna eletrônica além da margem de erro. Mais uma vez, quem perdeu esses votos foi a esquerda e candidatos fora do eixo PSDB-PMDB. Mais uma vez, a esquerda se cala como se não soubesse estatística, como se nossas urnas não fossem as mais atrasadas do mundo, como se a fraude não fosse algo facílimo de executar por seções locais do TRE, por hackers, ou mesmo pela empresa que totaliza os votos.

Esse não é um choro de perdedor. Escrevo artigos sobre isso desde 2010, prevendo esse tipo de acontecimento toda eleição. A destruição do PT e a onda conservadora são evidentes, ninguém está dizendo que elas são fruto de fraudes eletrônicas. A questão aqui não é essa. A questão aqui é que pode haver fraudes eletrônicas. A questão aqui são números frios.

A pesquisa de boca de urna do Ibope apontou em São Paulo Dória com 48% dos votos, Haddad com 20%, Russomano com 14%, Marta com 11% e Erundina com 4%. Ela tinha 2% de margem de erro e significância de 99%, o que quer dizer que a chance de a realidade estar fora da margem de erro era somente de 1%. E como ocorre há nove eleições seguidas, ela estava.

As urnas eletrônicas deram 53,3% a Dória. Isso mesmo. Mais de cinco pontos acima da boca de urna e 3,3 pontos além da margem de erro. A chance de isso ter ocorrido ao acaso é inconcebível. Haddad teve 16,7%, 3,3% a menos que o previsto, 1,3% além da margem de erro. Já os outros candidatos, e isso é o mais curioso: os outros candidatos tiveram seus resultados cravados pelo Ibope. O “erro” que atingiu Dória e Haddad não os atingiu.

No Rio a boca de urna Ibope apontou Crivella com 30%, Freixo com 20%. Pedro Paulo (PMDB) com 15%, Bolsonaro 12%, Índio 9%, Carlos Osório (PSDB) 7% e Jandira 4%. Embora no Rio os desvios tenham sido a maioria na margem de erro, a direção foi a mesma de toda eleição: da esquerda e dos populistas para a direita. No fim da apuração, Freixo e Crivella estavam com 2% a menos de votos e Pedro Paulo a somente 2% de distância de Freixo.

Pra quem não sabe, a boca de urna é a mais confiável das pesquisas. Ela pergunta a pessoas que acabaram de votar em quem votaram. Só isso. Cada pesquisador recolhe em massa respostas em vários pontos distintos de coleta num dia. Ela deve refletir, por sua ampla amostra, o resultado exato das eleições. Ela não capta tendências nem tem erros de amostragem comuns a outros tipos de pesquisa de opinião.

O que me choca como militante de esquerda é o descaso de nossos partidos com um sistema que, se já é inseguro em relação às eleições majoritárias, relativamente basiladas por pesquisas, pode apresentar fraudes brutais nas eleições proporcionais.

Esses não foram casos isolados. Esses foram parte de nossa vergonhosa tradição. Como é que escolhemos culpar institutos de pesquisa que estariam jogando sua reputação na lama sem qualquer possibilidade de influenciar o resultado das eleições? Quem os pagaria por isso? Como não duvidar das piores urnas do mundo diante de um caso após o outro, ano após ano?

Na verdade, sequer podemos imaginar o que houve no país, pois só houve pesquisas de boca de urna nas cidades do Rio e São Paulo. Mas vejamos a barbárie que acometeu vários pontos do Brasil nas últimas eleições.

No Rio Grande do Sul, em 2014, houve uma avalanche absurda de 40,4% dos votos em Sartori, quando o resultado previsto na boca de urna Ibope era de 29%. Isso mesmo. A boca de urna (de 99% de confiabilidade) dava Tarso Genro (PT) 35%, Sartori (PMDB) 29%, Ana Amélia (PP) 26%. As urnas deram Sartori 40,4%, Genro 32,5% e Amélia 21,7%. Não existe possibilidade de tal erro ter sido ao acaso, simplesmente, não existe.

No Rio, nada menos que 8% dos votos parecem ter sido transferidos de Garotinho para Pezão e Crivella, materializando uma chocante ausência de Garotinho no segundo turno. Garotinho saiu da boca de urna com 28% e das urnas eletrônicas com 19,75%. A fraude é a única hipótese razoável para isso. Pezão teve mais 6% e Crivella mais 2% além da margem de erro.

Mas há muito mais barbaridades localizadas nas eleições de 2014 que a boca de urna não registrou. Particularmente absurda foi a avalanche de vinte pontos em Aécio somente em SP em 24 horas, e a consequente derrota acachapante de Marina para Aécio em 48 horas.

Simplesmente, isso tudo era inimaginável antes das urnas eletrônicas. Comemorávamos ou lamentávamos pesquisas de boca de urna como garantidas em no mínimo um ponto além da margem de erro. Não víamos movimentos de vinte pontos em dois dias, como os de Aécio em SP, ou de quinze pontos como o de Dória esse ano.

A nova geração não sabe o que é isso e está acostumada com o “tempo real”. Mas nossa geração não tem o direito de se calar sobre essa barbárie.

O Brasil é atualmente o único país sem o comprovante impresso individual do voto, como até a Veja reconhece. A urna brasileira é obsoleta, e só chegou a ser usada, além do Brasil, no Paraguai e na Argentina, tendo sido proibidas logo depois de testadas em eleições. Hoje, são proibidas em quase todos os países do mundo e usadas em nenhum.

Especialistas da UnB, UFMG e USP já se declaram publicamente contra o sistema atual. Da mesma forma, a Sociedade Brasileira de Computação. O “Relatório Unicamp”, citado pelo TSE em defesa das urnas, tem já quinze anos e sugeriu então medidas de segurança para aperfeiçoar o sistema que nunca foram adotadas. A Coppe UFRJ também se declarou pela inconfiabilidade do sistema e pela impressão de voto em relatório oficial.

A falta de um sistema de votação seguro e da possibilidade de conferência e recontagem físicas de seções eleitorais suspeitas é um crime contra a democracia e um desrespeito à militância e ao voto de milhões de pessoas.

Mesmo que você acredite na lisura do processo eleitoral, não poderia contestar o fato de que uma eleição que não pode ser auditada nem ter seus votos checados ou recontados não é democrática.

Quem não luta por essa transparência eleitoral, não merece uma democracia.

E líderes que não contestam esse absurdo sombrio não merecem nosso voto.