Está cientificamente comprovado: a maioria dos brasileiros – 57%, para sermos mais exatos – costuma recitar aquele que pode ser considerado o mais clássico clichê da língua portuguesa: “bandido bom é bandido morto”. Foi o que apontou uma recente pesquisa do Datafolha encomendada por um tal Fórum Brasileiro de Segurança Pública e que foi, evidentemente, divulgada com muito gosto pela grande imprensa nacional, nesse início de novembro.

No ano passado, no entanto, eram 50% a favor da ideia. Quer dizer, antes de mais nada, temos mais um indício de que há, efetivamente, uma onda fascista crescente varrendo o país – talvez até não restar pedra sobre pedra.

De acordo com a apuração de 2016, o índice de apoio à pena de morte aumenta entre as famílias com renda mensal superior a dez salários mínimos. Nesse grupo, a concordância à medida é de 72%. Pois é. Uma série de sinais tem revelado a presença cada vez mais destemperada de uma classe média bastante arrogante, no país. Pretendendo que o Estado simplesmente ignore as determinações da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, assustada com um mundo caótico e duplamente reacionária diante do recente crescimento da classe C, tende a depositar suas expectativas em um projeto nacional autoritário e excludente – como historicamente quase sempre fez, motivada por razões próximas às atuais. Por outro lado, o pobre está cansado de saber quem costuma ser punido pela Justiça brasileira.

Pode-se sustentar, ainda, que boa parte dessa opinião lastimável pela alternativa mais extrema é também resultado de mais de vinte cinco anos de programas policiais na TV aberta que, praticamente durante todo o tempo em que permanecem no ar, glorificam a figura do PM. Mais do que como herói, é apresentado quase como santo contemporâneo, e a partir dessa exaltação maniqueísta, Datenas originais e genéricos clamam ostensivamente, em todo o país, todos os dias, pela pena de morte, que, em última análise, poderia equivaler, em um país como o nosso, à plena liberdade de ação para uma polícia apresentada infantilmente como salvação nacional, porém comprovadamente violentíssima (a própria pesquisa do Datafolha, se aproveitando do atual momento de franca expansão conservadora no país e feita para forçar a barra mais um pouco a favor da pena capital, indica que 70% da população sente que as polícias cometem excessos de violência no exercício da função). Essa doutrinação televisiva ferrenha e grotesca, por sua vez, vem reforçando predisposições herdadas de duas décadas de Regime Militar e tem direcionado uma enorme massa de gente perdida em seu tempo a um fluxo de revolta simplória e à crença pueril em uma solução estúpida para problemas sociais reconhecidamente complexos. As robustas bancadas da bala, firmes e fortes em todas as esferas do Legislativo nacional, atuando em coro com os interesses da extrema-direita, são o resultado político mais bem-acabado, por ora, dessa retrógrada cultura da truculência.

Se considerarmos que boa parte dessa imensa turma do “bandido bom é bandido morto” também aprova a gestão Temer – que, entre outras arbitrariedades, congelou os gastos com Educação pelos próximos vinte anos –, se conclui que uma parcela significativa dessas pessoas ou é incapaz de raciocinar a ponto de perceber o que seus supostos juízos e desejos são capazes de acarretar à sociedade brasileira, ou quer, na verdade, uma desculpa qualquer para que o Estado tenha uma única função: matar preto pobre. Ou será que apoiam, realmente, pena de morte também para o playboy que, bêbado, atropela e mata alguém; para aquele conhecido que faz caixa dois na empresa e sonega fortunas aos cofres públicos; para aquele amigo do amigo que vende drogas na faculdade; para o humorista da moda que é racista; para o pastor que incita à agressão; para o policial que mata inocentes na periferia; para o latifundiário que manda assassinar índios; para o dono de confecção que usa trabalho escravo; para o político que mata indiretamente ao articular o fim de programas públicos de Saúde; para o ídolo adolescente que defende publicamente torturador; para o juiz que autoriza tortura contra menores de idade em manifestações estudantis contra o governo?… Não, né? Claro que não. Crime, no Brasil, é ser pobre demais e ser escuro demais. O resto é hipocrisia de um país escravocrata que acha que vingança é Justiça e que finge que a barbárie se chama ordem.