A cidade parecia um caldeirão. Fervia como a ebulição de uma juventude que parecia perdida. O bom e velho rock tinha voltado a sua origem juvenil e contestadora. Os Titãs abrem a noite e logo de cara dá o recado. Aquela noite prometia. 200 mil pessoas ecoavam juntos com eles:
“Senhores! Senhores! Senhores!
Minha Senhora!
Senhores! Senhores!
Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão! Senhores!
Filha da Puta! Bandido!
Senhores! Corrupto! Ladrão!”

Os riffs rápidos com peso e barulho davam o tom melodioso de uma ópera nos jardins do éden. Os velhos tênis, camisas pretas e bonés saíram dos armários. A juventude shopping center tinha saído da caverna. Aquele refrão tirara os incautos da cultura do entretenimento. A cultura do agronegócio naquela noite não tinha voz e vez. Quem foi achando que seria uma balada para entoar por entoar se fodeu!!!!
Logo em seguida, subiu ao palco a Plebe Rude. Já no primeiro acorde elevou ainda mais a temperatura. Philippe Seabra, a capela mandou: Com tanta riqueza por aí, onde é que está? Aquela noite não seria brincadeira. Guitarras no talo!!! Harmonias ricas em todos os sentidos. A noite só estava começando.
O ponto alto foi o encontro do Mano Brown e Kurt Cobain. Ninguém acreditava. Parecia impossível aquele encontro. O verso de Mano Brown se encontrava com a guitarra barulhenta e genial de Cobain. O rap e o punk rock abraçados em um compasso de que o jazz teria inveja. Tupac e David Bowie deviam estar delirando em outra dimensão.
De cara, Negro Drama virou um grunge distorcido que fizeram os deuses mulatos e albinos aumentarem o volume para não perder nada. De repente, Mano Brown, começa a mandar uma rima com Smells Like Teen Spirit. Agora, só o Lacan para traduzir essa noite. Era o encontro de dois caras que mandaram a ordem do pop pras cucuias. Um do capão redondo, outro do interior de Seattle. Um dormiu na rua por anos. O outro lutou contra o racismo a vida toda.
Aquela noite foi transformadora. O barulho tinha voltado. A cena pop melosa tinha perdido de 7×1.