É notório que o sistema capitalista está esgotado. Os defensores do neoliberalismo, corrente que ganhou força a partir dos anos 90 (depois da atuação de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos), têm tido grandes dificuldades em defender esse modelo de política econômica desde a crise mundial de 2008. Segundo algumas perspectivas neoliberais, os abismos sociais seriam dizimados com o advento da globalização. Mas eles só aumentaram nas últimas três décadas. Para termos uma ideia, o FMI (um dos maiores defensores do neoliberalismo) publicou um estudo em junho de 2016, cuja autoria é de três renomados economistas da instituição, reconhecendo que a política neoliberal (indicada pelo próprio FMI para nortear o crescimento econômico em países que estão em processo de desenvolvimento) pode ter efeitos danosos a médio e longo prazo, já que, em vez de gerar crescimento, o neoliberalismo tem aumentado as desigualdades sociais.

Por outro lado, o socialismo, como aplicado na União Soviética, também falhou. Um modelo que, na teoria, prezava pela igualdade terminou em ditadura e pobreza.

Com isso, o que deveríamos ter aprendido? Que não podemos ficar presos aos modelos existentes. Que não é lícito tratar política como se fosse futebol, de modo maniqueísta e, muitas vezes, fanático. Que é fundamental debater e, dialeticamente, encontrar uma síntese. Ou mais de uma. Trago um exemplo: Bertrand Russell, filósofo e matemático.

Em “Caminhos para a liberdade”, o pensador propõe um novo modelo de sociedade baseado em valores como justiça social, máxima liberdade individual e mínimo de controle e opressão de poderes centrais sobre os indivíduos, porém com grande papel do Estado para assuntos econômicos e financeiros. Seus pensamentos são baseados no socialismo de guilda e no anarquismo. Abaixo um pequeno trecho do livro:

O sistema que preconizamos é uma forma de socialismo de guilda, tendendo mais talvez para o anarquismo do que o aprovariam inteiramente seus defensores oficiais. É nas questões que os políticos habitualmente ignoram – ciência, arte, relações humanas e alegria de viver – que o anarquismo se mostra mais forte, e é principalmente por causa delas que incluímos em nossa discussão certas propostas mais ou menos anarquistas, como por exemplo, o salário do ócio. É por seus efeitos fora da economia e da política, ao menos tanto quanto por seus efeitos nelas, que um sistema social deve ser julgado. E, se o socialismo um dia vier, é provável que só se revele benéfico se os bens de natureza não econômica forem valorizados e conscientemente procurados.

Em outra obra, intitulada “A prática e a teoria do Bolchevismo”, Russell faz severa crítica ao fanatismo com que algumas teorias são colocadas em prática. E, tratando especificamente do comunismo, questiona a possiblidade de a teoria ser, de fato, colocada em prática:

Aquele que acredita como eu, que o intelecto livre é o principal motor do progresso humano, não pode deixar de ser fundamentalmente contra tanto ao bolchevismo, quanto à Igreja de Roma. As esperanças que inspiram comunismo são, em geral, tão admiráveis quanto aquelas instiladas pelo Sermão da Montanha, mas eles são postos em prática com fanatismo e tendem, portanto, a fazer muito mal.

Por fim, trago dois trechos de uma obra de Russell que me agrada bastante: O Elogio ao Ócio, no qual o autor assevera que é preciso saltar do senso comum para enfrentar a sociedade industrial. Apenas assim seríamos capazes de produzir algo verdadeiramente valioso. No primeiro trecho, o pensador enxerga o socialismo não como maneira de vingança dos trabalhadores, mas como possibilidade de ajustes sociais capazes de propiciar o bem-estar entre os homens:

De minha parte, enquanto eu estiver convencido de ser um socialista assim como o mais ardente marxista, eu não considero o socialismo como um evangelho de vingança do proletariado, nem mesmo, “principalmente”, como um meio de assegurar a justiça econômica. Considero o socialismo como sendo principalmente um ajuste da produção das máquinas com base em considerações de bom senso, e calculado para aumentar a felicidade, não só de proletários, mas de todos, exceto uma pequena minoria da raça humana que insistirá em combater este novo modelo de maneira tão radical que não será possível estabelecer um novo mundo sem que tal grupo seja derrotado.

Já no segundo trecho, o filósofo tece críticas sobre o modelo de trabalho após a Revolução Industrial. As máquinas, que poderiam nos auxiliar a produzir mais trabalhando menos, estão, na verdade, tornando-nos subservientes:

Os métodos modernos de produção nos deram a possibilidade de facilidade e segurança para todos: temos escolhido, em vez disso, ter excesso de trabalho para alguns e fome para os outros. Até agora, nós continuamos a ser tão ativos quanto como éramos antes de haverem as máquinas, nisso fomos tolos, mas não há nenhuma razão para continuarmos sendo tolos para sempre.

Evidentemente, Russell não é a resposta definitiva. E, além dele, existem inúmeras alternativas, inclusive as que ainda não foram pensadas. Fato é que não podemos mais jogar com as mesmas cartas. É urgente abrirmos possiblidades.