Muito já se falou em prol dessa tal eugenia. Sobre as campanhas eugenistas pelo mundo- pelo Brasil, inclusive- documentos não faltam.

Depois de consumada sua catástrofe durante a 2º Guerra Mundial, não se falou mais. A eugenia, de missão médica, jurídica e política assumida com afinco por países de todo o globo, virou tabu.

Isso tem mudado, já que a eugenia persiste em seus aspectos filosóficos, confirmações cotidianas e projetos futuros, gerando inquietação e mal-estares éticos.

Assistindo ao premiado documentário “Betinho- a Esperança Equilibrista” (dirigido por Vítor Lopes), talvez tenha compreendido como nunca esse mal-estar ético, o fio condutor comum que leva historiadores, sociólogos, psicólogos a optarem pelo estudo crítico do tema da eugenia.

Por que o Betinho?

Contrariando todas as expectativas da Medicina- neste caso, pautada pela Estatística e pela Biologia-, Betinho sobreviveu à hemofilia e, mais tarde, sobreviveu à AIDS para além do que era esperado. Sua história de vida, de acordo com suas próprias palavras, parece sempre ter sido no limite.

Ainda, contrariando os desejos de vingança e assepsia política do regime ditatorial, Betinho sobreviveu aos anos de chumbo, nunca cessando suas atividades, apesar das condições de seu corpo.

Passou anos no exílio e retornou ao Brasil. O desenvolver de suas atividades contrariou novamente, e ainda mais, o campo da Biologia, quando Betinho assumiu a fome como um problema cultural. Desta vez, contrariou aquelas teorias que conferem aos caracteres hereditários o poder de determinar como o ser humano é e como se faz no mundo. Para Betinho, a fome não derivava de incapacidades físicas e sim de hipocrisias institucionais.

Desta vez, portanto, Betinho contrariou a Biologia ao compreender os processos históricos e socioeconômicos que levaram à mais grave e imoral consequência da brutal desigualdade que vive nosso país: a fome! Fome, inclusive, que permanece como principal problema da Saúde brasileira.

E foi assim, compreendendo a fome em sua amplitude e complexidade, que decidiu combatê-la. Julgariam os eugenistas que o combate à fome seria perda de tempo e, principalmente, de dinheiro já que suas causas estariam nas características do plasma germinativo que tornava alguns seres humanos aptos, outros inaptos a conquistarem seu próprio alimento.

Porém, alegava Betinho – e tantos outros, como o próprio Charles Darwin- que, ao contrário dos caracteres hereditários e, a partir do início do século XX, dos chamados genes, as nossas instituições eram as culpadas pela fome.

Tal debate acerca da fome ou como consequência de falta de capacidades individuais ou da nossa cultura– pode parecer ter sido um delírio momentâneo, restrito no tempo e no espaço, ou mesmo circunscrito aos horrores do holocausto.

No entanto, um olhar atento para os discursos de Betinho neste documentário mostra a necessidade constante por parte dele de explicar, inclusive em discurso na ONU, perante renomados cientistas, que a restrição alimentar e a escassez nada mais têm a ver com causas “naturais”, negando inclusive as causas atribuídas aos indivíduos e suas capacidades. A necessidade de explicar mostra que o debate persistia.

E assim Betinho esclareceu como nunca a permanência do debate e dos constructos teóricos eugenistas.

Me refiro aqui às teorias eugenistas que foram criadoras de um suposto sistema explicativo perfeito para as mazelas do mundo ao usar métodos observacionais e estatísticos correlacionais que estabeleciam associações “certeiras” entre situações circunstanciais (como a miséria) e os caracteres hereditários; me refiro às teorias que não cessam a busca por respostas deste tipo para explicar questões estritamente éticas… Como é a fome! Me refiro, ainda, aos projetos ou teorias que seguem métodos científicos e se travestem de uma absoluta isenção, alegando não ser intencionais, mas apenas mensageiros de uma certeza, ou de uma verdade, mesmo que desagradável. São métodos produtores de repostas que orientam parte das críticas às ações contra a fome, tais como foram conduzidas pelo Betinho.

A ideia do melhoramento da humanidade remete a tempos remotos e lugares diferentes (do Japão à Grécia), tornando seu mapeamento absoluto tarefa quase impossível. No entanto, a eugenia, termo que veio nomear uma forma de ciência que surgiu a partir desta ideia, é muito bem localizado, muito bem documentado e se apresenta como tema rico para estas reflexões atuais.

Os labirintos da história da campanha eugenista caberão em outra coluna. Por enquanto, caso o termo/conceito cause confusão, fiquemos com seu oposto, que é tudo o que Betinho propunha ao expor que a miséria quem faz somos nós como um todo, não as pequenas células que nos constroem.