O último mês desmentiu duas máximas sobre a política tupiniquim. A primeira, que a esquerda sempre se divide. A segunda, que a direita é unida e inteligente (daí sempre dominar a política nacional).

Os dois blocos políticos que se formaram há mais de um mês desfazem estas duas lendas. Começo descrevendo os dois blocos.

BLOCO TEMER

Composto por 4 agrupamentos distintos.

O primeiro agrupamento é o liderado pela FIESP. Há várias notas que indicam o envolvimento direto na trama que levou à abertura do processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Alimentou a campanha dos patinhos amarelinhos, apoiou o acampamento de radicais de direita à frente da sua sede e ofereceu jatos particulares para transportar deputados a Brasília no dia da votação em plenário do acolhimento do processo. Tudo registrado em matérias da grande imprensa. Sua demanda é a adoção de uma agenda econômica ultraliberal, uma utopia egocêntrica que se baseia na queda do custo de produção à custa dos direitos sociais e trabalhistas. O ministro Meirelles seguiu esta cartilha e sua última intervenção foi a mais radical, sugerindo a adoção de um teto de gastos públicos da ordem de 1,5% a 2% do PIB nos próximos dois anos. Citou, explicitamente, efeitos sobre a saúde e educação. A intenção teórica é que o corte diminua a necessidade de arrecadação do governo federal, diminuindo o custo empresarial. Trata-se de uma medida inócua e tecnicamente equivocada. A Receita Federal já indicou uma lista de mais de 300 grandes empresas que não pagam impostos. O Banco Mundial afirma que o Brasil é o segundo país no mundo que mais sonega impostos, chegando a 13,6% do PIB (cinco vezes a soma de toda corrupção do país, dado elaborado pela própria FIESP). Mas o mais grave é que corte em saúde gera morte e epidemia (segundo David Stuckler, da Universidade de Oxford), aumentando os gastos governamentais a médio prazo para responder ao dano provocado.

O segundo agrupamento é o que mais dá dor de cabeça a Temer, há mais de um mês: o baixo clero. O líder deste agrupamento era, até então, o deputado afastado Eduardo Cunha. Computa-se que metade do ministério de Temer foi indicado direta ou indiretamente por Cunha. Este é o caso do ex-ministro Henrique Alves, do turismo. São ministros sem expressão política relevante e que não são técnicos experimentados nas áreas de suas pastas. Chegam a tomar medidas desconcertantes como a de receber Alexandre Frota em audiência. Como vivem de sua base territorial, mais especificamente de trocas clientelistas, pulverizam suas ações e demandas de maneira a desdobrar esforços de negociação do governo central. Foi assim com Dilma, está sendo assim com Temer.

O terceiro agrupamento é composto pelos tucanos. O PSDB é um dos poucos partidos brasileiros que formulam políticas nacionais. Este é o interesse central em tê-los no governo interino. Ocupam pastas importantes, como Relações Exteriores, Justiça e Cidades. Já fizeram pronunciamentos desastrosos, contudo, e espera-se uma atuação enérgica (possivelmente mais uma atuação desastrosa) do Ministro da Justiça, conhecido pela truculência no trato das mobilizações sociais em São Paulo. O ministério Temer não conta com – em contradição com o que seus colegas peemedebistas que assumiram governos anteriormente, como Sarney e Itamar Franco – nenhum ministro que tenha trânsito com organizações populares e sociais.

Portanto, ao assumir uma agenda ultraliberal “impopular e que não garantirá votos”, como afirma o formulador da “Agenda para o Futuro” (referência do governo Temer), Roberto Brant, a reação social é mais que esperada. Na medida em que não há mediadores com as possíveis organizações que podem liderar os conflitos aguardados, a reação truculenta parece que terá origem na atuação de um dos ministros tucanos. Ocorre que o PSDB trava uma luta intestina entre Serra, Alckmin e Aécio Neves (eternos candidatos à Presidência). A Folha de São Paulo já noticiou que um dos temores de Michel Temer é uma debandada de tucanos, ruptura que poderia lançar um candidato do PSDB à Presidência e ferir de morte o PMDB e principalmente a liderança de Temer.

Finalmente, o próprio PMDB. Trata-se de um partido peculiar, que possibilita trazer para o centro da Corte os Estados mais frágeis ou periféricos da economia nacional. A cúpula deste partido é composta majoritariamente por caciques do norte e nordeste e, em especial, de Estados menos pujantes economicamente destas duas regiões. Com estilo coronelístico, tais caciques não toleram que um deles se destaque no cenário nacional, caso em que sua liderança local seria colocada à prova. O PMDB, então, é um partido dotado de um frágil equilíbrio interno, um acordo tácito de convivência em que cada território forma um feudo intransponível. Este é outro problema de difícil manejo para Michel Temer, em especial porque parte desta cúpula está sendo duramente denunciada e cuja prisão preventiva já foi solicitada pela Procuradoria Geral da República.

Como se percebe, um governo frágil se equilibra como pode entre os que o sustentam.

Do outro lado, forjam-se articulações oposicionistas. Estão se unificando lentamente e apresentam uma novidade: o bloco de oposição a Temer não é liderado por partidos, mas por organizações de representação de massas e organizações populares. São, também, quatro blocos. Vamos a eles.

O primeiro é composto por forças sociais que apoiam o retorno de Dilma Rousseff e se apresentam como defensores da agenda lulista. Articula-se ao redor de várias organizações de massa, como UNE e CUT, ao redor da Frente Brasil Popular. Seu projeto é defender o legado lulista e retomar o poder nas bases da conciliação de interesses ou pacto desenvolvimentista. Não rompem, portanto, com o projeto rooseveltiano, mas são radicalmente contrários à agenda liberal ou ultraliberal na economia e aos impactos sociais, em especial, à perda de direitos trabalhistas e sociais conquistados nas gestões Lula (como aumento real do salário mínimo, Prouni e cotas para acesso à universidade, piso salarial nacional de professores, Bolsa Família, entre outros). Este bloco vivenciará um impasse crescente e enfrentará uma disputa sobre os rumos a serem tomados. Os próximos meses poderão definir a capacidade de liderar, se continuará atrelada a certa orfandade com a crise do lulismo ou se reinventará programaticamente. A própria radicalização ou insatisfação de sua base social impulsionará esta decisão.

O segundo bloco é composto por organizações de lutas sociais específicas e que denominarei aqui de pragmáticos. Inclui algumas organizações de luta por direitos sociais (a maioria, vinculada ao que a literatura especializada denomina de “demandas materiais”), parte vinculada às igrejas progressistas ou pastorais sociais. Embora mais crítico ao lulismo, este bloco, por ser pragmático, negocia com diversos governos para conquistar benefícios sociais para sua base (moradia, ampliação do programa saúde da família, creches etc.), podendo apresentar oscilação em relação à agressividade contra o governo Temer. No próximo período, este bloco será disputado palmo a palmo, incluindo um possível deslocamento do primeiro bloco para compor com este segundo.

O terceiro bloco é o que denomino aqui de organizações sociais que pretendem radicalizar as lutas por direitos no próximo período. Hoje, articulado ao redor da Frente Povo sem Medo (que envolve 30 organizações nacionais) e tendo como principal liderança o coordenador do MTST, Guilherme Boulos. Este bloco supera estrategicamente a agenda lulista e articula uma resistência de ações de massa contra o governo Temer, como bloqueio de rodovias. Nas últimas semanas, articula-se com a Frente Brasil Popular.

Finalmente, os herdeiros de 2013. Majoritariamente composto por jovens que gravitam ao redor do autonomismo ou de lutas identitárias. É o bloco mais radical em relação à ruptura com a lógica institucional e que rejeita radicalmente estruturas verticais e centralizadas de organização. Pratica a ação direta e ocupação de espaços públicos. No momento, a maior expressão pública deste bloco são as ocupações de escolas públicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Pará e Rio Grande do Sul, mas também são destaque nas ocupações da Funarte e órgãos da área da cultura. Adotando métodos inovadores, diferenciados e radicalizados, ainda que mantenham alguma relação com princípios que surgiram com alguns movimentos sociais dos anos 1980. Apareceram, ainda, nas grandes marchas feministas pelo “Fora Cunha”, nas marchas e movimentos LGBT’s e movimentos negros, incluindo a luta pela legalização da maconha como elemento de disputa na sociedade, influenciando culturalmente uma geração. Esse movimento de forças tende a ampliar suas manifestações e articulações, mas sofrendo com limitações de não ter um projeto estratégico definido.

Os quatro blocos oposicionistas citados acima estão progressivamente convergindo, em especial, os três primeiros, e têm na abertura das Olimpíadas seu marco de mobilizações contra o governo Temer.

Enfim, as duas máximas, que citei no início deste texto, caem por terra. A direita se divide, apesar de ter tomado o governo e Temer procurar liderar uma miríade de disputas e demandas. Do outro lado, a esquerda, agora liderada por movimentos sociais, vai se unificando, ainda que tendo diferenças importantes de leitura sobre os erros e acertos cometidos pelas gestões lulistas.

O Brasil não é para amadores. Neste momento, nem Deus, que é declaradamente brasileiro, tem muita certeza sobre nosso futuro.