pertinho de casa, quiosque de um profissional muito caro à memória afetiva de tantos de nós: o sapateiro.

tenho uma mochila de lona cujo uso frequente exigiu uns reparos, com o que, pela primeira vez nos 4 meses de novo endereço, fui ao sapateiro assuntar se faria tal serviço, soube que sim, preço acertado, serviço pedido.

ontem, com algum atraso meu, fui buscá-la.
ao me entregá-la, Seu Raimundo, até então um conciso, um sovina das palavras, deitou falar sobre as bandas estampadas nos muitos bottons que espetei na mochila.

quando chegou a vez de falar do Bowie, fase Ziggy Stardust, seu Raimundo trocou o entusiasmo por um certo cuidado:

– ele morreu outro dia, foi não?
– sim, em janeiro – confirmei.
– moço, acredite se quiser, mas eu fiz muito sacrifício por esse homem.
– me conte, Seu Raimundo, quero muito saber.
– eu sou um ilhéu do Maranhão, e o povo lá do meu tempo – e eu já tô com 63, então pense na lonjura do tempo – dizia que ele era homem bicha; então, quem gostasse era homem bicha também. eu não era, não sou, mas gostava, e pra melhorar, as moças gostavam também. eu comprei um LP dele, na época que ele usava essa farda mesmo, mas tinha que deixar escondido na casa de uma namoradinha que eu tinha em São Luis, e toda vez que queria ouvir tinha de ir pra lá. o bom é que namorava também. mas veja só: o namoro não era escondido, mas o disco, sim – e os olhos muito grandes marejaram.
– Seu Raimundo, que história bonita! mesmo.
– até hoje, só conto pra estranho, porque sei lá o que vão pensar. e repara não o mal jeito [choro], mas desde que parei de beber pinga, dei de ficar assim, fraco.
– para com isso, Seu Raimundo! isso é bonito demais, e tanto, que vou lhe dar esse bottom.
– faça isso não!
– já fiz. tó, é seu. chora aí, que choro junto.
– ô, moço, muito obrigado, então – e marejou de novo.

e marejei junto.

44 anos depois, Ziggy devolvendo a dois galalaus de idades e origens distintas aquele mesmíssimo frenesi experimentado quando, adolescentes, conheceram suas canções, modas e modos.

e [também] isso, afinal, não é o rock?

Bowie, seu danado.
e necessário.