“Extirpado de sua terra, atirado ao porão do negreiro, quis o destino perverso torná-lo mais um brasileiro.”

É provável que os primeiros negros africanos tenham chegado ao Brasil na expedição comandada por Martim Afonso de Souza, em 1531. Desde então, passaram a ser utilizados como mão de obra escrava em diversos setores da economia colonial, com predominância na região canavieira do Recôncavo Baiano e na Capitania de Pernambuco, onde surgiria mais tarde o mais relevante quilombo da colônia, Palmares.

A escravidão é história de violência, humilhação, exploração e tortura, sem dúvida a mais triste página de nossa história, e que gerou muitas riquezas para a coroa portuguesa e para a burguesia colonial.

Com o achamento do ouro e das pedras preciosas nas Minas Gerais, muitos negros foram deslocados para a região, enquanto outros chegavam da África para complementar a demanda de mão de obra. Mais uma vez, os escravizados submetidos a jornadas diárias de até 20 horas geraram grande riqueza para a metrópole portuguesa e para a burguesia que se deslocou para as minas.

Após o declínio do ouro, ocorreu a ascensão do café nas províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, e muitos outros negros foram violentamente extirpados de sua terra, a Mãe África, expostos a grandes sofrimentos e carências nos porões dos negreiros, e escravizados quando aqui chegaram. À custa de seu sofrimento foi construída a  prosperidade econômica do Império, o café, que era exportado aos mercados consumidores europeu e estadunidense. Muitas famílias enriqueceram, muitas cidades brotaram e prosperaram, muitos impérios privados foram construídos à sombra da exploração do trabalho do escravizado. À custa de seu suor e seu sangue.

Então veio a “abolição”! E a própria historiografia, em sua grande parte, se omitiu à verdade no que se refere ao fim da escravidão e ao que a precedeu. Quando a Lei Áurea foi assinada, apenas 5% da população negra continuava sob o regime da escravidão. Os 95% restantes tinham conseguido a liberdade de formas diversas, como a compra de alforria por parentes, irmandades religiosas ou por trabalhos avulsos e acordo com patrões; ou por intermédio da revolta e da luta contra seus senhores e o poder instituído. Muitas vidas se perderam neste caminho. Portanto, não foi a mão benevolente da princesa branca que deu liberdade ao negro. A liberdade foi conquistada com muito suor e sangue!

Antes da Lei Áurea, outras leis, como Eusébio de Queirós, Sexagenários e Ventre Livre, foram promulgadas com intenção de prorrogar ao máximo a escravidão.

Portanto, abolição da escravatura no Brasil é mais uma das meias-verdades da história, ou, mais uma das balelas entre tantas outras que nos contam. E a partir de 1888, o negro foi quase completamente preterido como mão de obra, sendo colocado à margem da sociedade, exceção feita a alguns que viviam nas Casas Grandes e, por uma questão de laço afetivo, foram “apadrinhados” pelos seus senhores.

Depois de 1888, se deu preferência à mão de obra imigrante, com o objetivo escuso de clareamento do trabalhador brasileiro, já que o negro era considerado a razão do atraso e subdesenvolvimento do país.

Sofrendo do preconceito,  discriminação e vítima de projetos de higienização social,  casos de decretos da Câmara Municipal de São Paulo do final do século XIX e da Reforma Pereira Passos, no Rio de Janeiro, o negro foi empurrado para as periferias, morros e áreas sem interesse comercial das cidades, onde havia e há  ausência e descaso do Poder Público.

A maior parte da população afrodescendente, seja negra ou mestiça, teve seus direitos totalmente suprimidos por décadas após a abolição, inclusive não podendo votar. E até hoje sofre com as injustiças históricas, o preconceito e a discriminação, que lhes reduzem as oportunidades no mercado de trabalho e no ambiente acadêmico.

Hoje, a maioria da população brasileira pobre ou abaixo da linha da pobreza é de origem negra. Portanto, se queremos uma sociedade mais justa, devemos reparar os erros da história.

Fotografia: Cadu de Castro