Ainda que haja uma certa impressão difusa de “dinamismo” e de “eterna mudança” nas ações humanas, a natureza da relação do homem com o meio ambiente permanece a mesma nestes 200 mil anos de Homo Sapiens no planeta Terra. A interação homem-meio sempre se passou de duas formas distintas – e complementares: primeiro na extração de recursos naturais e depois no descarte dos resíduos da atividade humana resultantes do uso destes recursos.

E assim permanece até os dias atuais.

As verdadeiras mudanças nesta relação deram-se apenas em termos de volume e de sofisticação, sempre em função do modo de produção adotado pelas civilizações.

Em épocas longínquas de extrativismo artesanal, a retirada de recursos era limitada tanto qualitativa quanto quantitativamente; poucos eram os recursos utilizados – vegetais e animais para alimentação e uso de suas peles e fibras para vestuário, pedras e metais para armamentos e ferramentas rústicas – como também eram poucos, inertes, rudimentares e biodegradáveis os respectivos resíduos.

Com a chegada da revolução industrial e do capitalismo, o volume de recursos usados nas atividades humanas ganhou escala industrial; matérias-primas coletadas na conta de dezenas passaram a ser extraídas aos milhares. Além disso novos recursos, antes não utilizados, começaram a ser extraídos, como o petróleo e diversos elementos químicos. Os resíduos gerados cresceram na mesma proporção, tanto em quantidade como em periculosidade – dejetos plásticos talvez sejam o mais emblemático exemplo deste drama.

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E a situação torna-se mais aguda a cada “avanço corporativo”: quanto mais a indústria atinge “produtividade” e “modernidade”, mais recursos são extraídos e mais resíduos são gerados.

Os números que comprovam a piora do quadro são aterradores: estima-se que nos últimos 150 anos a civilização humana tenha extraído mais de 1 milhão de vezes todos os recursos utilizados nos quase 200 mil anos anteriores! Número equivalente explica o crescimento das quantidades de resíduos gerados, em sua maioria tóxicos, perigosos e que não se degradam naturalmente como antes – alguns deles inclusive levando milhares de anos para serem absorvidos pelo meio ambiente.

Essa escalada vertiginosa de degradação ambiental começou a escancarar seus efeitos no planeta na forma de escassez de recursos e poluição.

Em 1960 os países ricos organizaram a Convenção de Roma para debater a questão, pela primeira vez encarada como um problema mundial; deste encontro surgiu o conceito de “desenvolvimento sustentável”, que deveria nortear as ações das indústrias pelo mundo, o que de fato não aconteceu. O lucro, base do modo de produção moderno, mostra-se incompatível com a ideia de moderação do uso de recursos naturais.

Os problemas seguiram aumentando, junto com a equivocada ideia de “crescimento econômico”; nos últimos anos os efeitos da maximização materialista da relação do homem com o meio começaram a afetar o clima e assim adentraram o cotidiano do cidadão médio sem pedir licença.

Outros encontros e tratados entre as nações mais industrializadas vieram, sempre cheios de pompa e circunstância, como ECO 92, Rio Mais 20 e tratado de Kyoto. Em comum todos trouxeram um punhado de promessas de medidas sustentáveis nunca cumpridas – o que não é de se estranhar, pois preservar o meio ambiente não gera dividendos no contexto industrial atual. A título de ilustração, vale dizer que nos EUA o compromisso de se adotar uma frota de veículos majoritariamente movidos a eletricidade já foi adiada mais de 4 vezes nos últimos 20 anos. E os resultados atuais apontam para novos adiamentos.

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A maioria das medidas tomadas pelos países mais ricos contra a degradação do planeta possui caráter meramente publicitário e muito pouco efetivo; certificações empresariais em normas ambientais, selos verdes, medidas de educação ambiental e programas de sustentabilidade seguem subordinados à lógica do capital, o que as torna ineficazes no nascedouro, visando apenas falsamente aplacar a insatisfação daqueles mais conscientes que clamam por mudanças. No Brasil comemora-se a redução das taxas de desmatamento da Amazônia, como se desmatar menos fosse motivo de festejos. No mundo já foram emitidos até 2014 mais de 1 milhão de certificados ISO 14001 sem que isso mostre evolução considerável nos volumes de reaproveitamento e de reciclagem de resíduos em escala global.

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Em tempos de verborragia como principal arma contra ações ecologicamente injustificáveis, termos como “economia verde”, “sustentabilidade”, “responsabilidade ecológica e social” são pouco mais que chavões usados para vender imagens que não se sustentam com as projeções dos estragos ambientais futuros.

As conclusões advindas desse cenário são bastante simples e diretas: a visão fatalista – e com fundo religioso – de que a Terra “acabará” com a ação humana não se efetivará, pois o planeta já resistiu a cataclismos muito mais devastadores que as ações humanas; é o homem que sucumbirá se não mudar sua relação com o planeta, com os demais seres que o coabitam e, em especial, o modo de produção adotado.

Porque não há planeta suficiente para tanto capitalismo; e lucro não rima com sustentabilidade – em nenhum idioma.

O maior desafio das próximas gerações será coadunar produção industrial de forma a atender a demanda de 8 bilhões de pessoas sem destruir – e, para além disto, recuperando – o meio ambiente.

(Imagens: a primeira mostra a proliferação das “ilhas de plástico” pelos oceanos, a segunda escancara a poluição de Los Angeles por conta de sua forta de mais de 10 milhões de automóveis e a terceira mapeia o desmatamento na Amazônia)