Golpe consumado, surpresa nenhuma.

Todavia permito-me cinco breves reflexões.

A primeira, quanto a valentia, altivez e grandeza de Dilma; uma pena que esse seu espírito adormecido de estadista tenha despertado tão tardiamente, quando tudo já estava inexoravelmente arranjado para sua saída. Ainda assim há um lugar de honra na história exclusivamente reservado à primeira mulher a comandar o país e cujo segundo mandato foi abortado por um golpe parlamentar, orquestrado por crápulas conspiradores sem moral alguma – ainda mais quando comparados à indubitável honestidade da presidente. E vale aqui breve nota de agradecimento à minúscula base parlamentar do governo deposto, que agiu com bravura até o fim deste putrefato processo.

A segunda, em relação àqueles alienados que hoje, sem qualquer consciência de sua posição social, comemoram tal qual marionetes dos poderosos a saída de Dilma como sendo legítimo “impeachment”, simplesmente por não aprovarem o governo petista: estes sequer se dão conta que lhes foi suprimido o direito de voto – um dos poucos disfarces da democracia burguesa tropical que funcionava ininterruptamente desde 1989.

A terceira, reservada especialmente aos que, com ares de inteligência, debocham do uso do termo “golpe”: parecem estes ainda viverem no século XX, quando deposições de presidentes eram executadas com armas e tanques nas ruas; não percebem, portanto, as sutilezas deste golpe parlamentar-midiático moderno, cujas armas sem pólvora são grampos federais estadunidenses, poderes legislativo e judiciário recheados de bandidos fáceis de serem comprados, um pré-sal bilionário pronto para ser repartido entre os poderosos, uma imprensa classista lobotomizadora, uma classe dominante ávida por exercer seu ódio de classe, a potencialização das fraquezas dos adversários e, principalmente, o seguimento de ritos pseudo-republicanos usados como camuflagem institucional e legal. E assim, com a aplicação de todo esse arsenal, esconde-se o mais simples: não houve qualquer crime de responsabilidade que validasse a deposição de Dilma.

A quarta, sobre o futuro do Brasil – agora de fato e sem disfarces nas mãos dos grandes falcões capitalistas, sem haver sequer o PT como tímido intermediário: será inevitavelmente sombrio. Perder-se-ão (essa mesóclise é homenagem ao golpista-mor) em meses todas as conquistas sociais e trabalhistas obtidas com décadas de lutas – enquanto a grande imprensa (apostem) começará a mudar o tom das notícias e mostrar maquiavelicamente “otimismo com as mudanças”.

A última, brevíssima. é direcionada a todos que não aceitamos essa vergonha e que pensamos preocupados no futuro de nossos filhos e netos: chegou a hora de agir. Seremos nós e nossas ações a partir de agora a decidir o quão fácil será, para os repugnantes bandidos que tomaram o governo, retroceder o Brasil ao pais semi-escravagista de antes de Lula.

(a foto que ilustra este artigo a tirei às margens da rodovia BR 101, na divisa da Bahia com Sergipe, e reflete metaforicamente os três poderes desta república apodrecida)