Enquanto isso, às cinco da manhã na casa do Reginaldo – um petralha sem vergonha – e da Cleuza – fã do Bolsonaro e esposa-modelo -, a porta da sala se abre:

– oi amor…

– “oi amor”??? Você não tem vergonha não? Chega em casa com esse bafo de cachaça, essa roupa mais amarrotada que os ternos do Antonio Ermírio de Moraes, essa mancha de batom aí na gola da camisa, uma puta marca de chupada no pescoço e vem com esse papinho de “oi amor”?? Onde você estava, Reginaldo??

– eu… eu fui na casa do Serjão, ele vai viajar amanhã pro Nepal cobrir o campeonato mundial de rapel… e ficamos lá bebendo um licor de limão que a mãe dele trouxe da Nicarágua… parecia fraquinho, mas quando me dei conta já tava bêbado e por isso nem te liguei antes… a roupa ficou assim porque aquele sofá da sala do Serjão é um horror, né, amor… o batom foi da filhinha dele de quatro aninhos, que veio no meu colo toda vestida de perua e acabou me sujando… e isso aqui não é chupão não, é um roxo que fiz quando caí de pescoço no chão ao trocar o pneu do carro no caminho de casa…

– e você quer que eu acredite nessa história absurda, Reginaldo?

– bom, Cleuza, se você acredita que feminismo é coisa de mulher mal comida, se você acredita em opção sexual, se você acredita que o PT é comunista, se você acredita na meritocracia capitalista, se você acredita que o Aécio é um honesto pai de família, se você acredita que o impeachment da Dilma não foi golpe, se você acredita que a Marcela é gamada no Temer, se você acredita na versão do Bush pro onze de setembro, se você acredita que flexibilizar a CLT vai ser bom pros trabalhadores e se você acredita nas pregações do Silas Malafaia, acho até que minha história ficou bem boa, viu…

– tá. Entra, vai. Toma um banho enquanto eu faço um café bem forte pra gente não perder a hora pro trabalho.

– sem açúcar pra mim, por favor, amor.