Mais importante que saber de onde sair ou onde chegar é conhecer as “Regras do Caminho”. Para os índios Guaranis, o caminhar ou “guata”, na língua materna, é a essência da vida e significa evoluir e fortalecer-se espiritualmente. A prática faz parte do movimento migratório dos guaranis desde os tempos da colonização e é justificada pela busca da terra sem males, uma terra que lhes permita viver com dignidade.

Boracéia, em Bertioga, se mostrou a terra prometida para a Aldeia do Rio Silveira. Os curiosos em desbravar essa rica cultura teriam que se apropriar dessa atividade tão corriqueira para nós, mas de extrema importância ao Guarani: a caminhada.

A manhã de nossa jornada amanheceu cinza, mas não retirou o colorido de toda nossa aventura. Depois de uma longa jornada na estrada Rio-Santos, uma enfadada placa da FUNAI, em meio à Mata Atlântica, nos avisa que havíamos chegado à aldeia. Deixando o carro de lado, é preciso botar os pés na lama e se unir a uma caminhada rústica. Diferentes tipos de plantas e um silêncio descomunal nos transportam para uma outra realidade, esquecendo por alguns segundos que apenas alguns quilômetros nos separam da estrada. Os Guaranis estavam certos sobre aquele lugar.

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Enquanto seguíamos cada vez mais pelo caminho enlamaçado, pequenos curumins passeavam de bicicleta sobre os buracos empoçados que pareciam não ser obstáculos para a sua trajetória já conhecida. Sempre receptivos, acenavam com uma das mãos, na outra, seguravam um pacote rosa: pipoca doce, para nossa surpresa. Alguns paravam para nos observar, curiosos com nossa visita. Outros até nos ofereciam aquele curioso alimento que, já do gosto daquelas crianças, era incorporado à vida dos indígenas, assim como outras influências da nossa cultura, como vestimentas e a própria bicicleta.

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Em determinado ponto da viagem já era possível visualizar as primeiras casas: algumas de pau a pique e palha, outras construídas com madeira da própria aldeia. Aproximadamente 50 famílias residem na região, separadas em cinco pequenos grupos, cada um com um líder. A maior parte das casas não possui banheiro, mas contam com áreas externas construídas para atender a suas necessidades e a dos visitantes que os surpreendem.

Caminhando mais um pouco, avistamos a escola Txeru Ba ‘e’ Kua-i (no guarani, “Deus Celestial da Sabedoria”). Ali, em dias normais de aula, um professor divide a classe com um índio adulto que contribui na tradução do Guarani para o português e vice-versa, facilitando o ensino. A escola foi fundada em 1996, atendendo a um pedido da comunidade indígena, e é uma das pioneiras em ser intercultural e bilíngue: os jovens índios aprendem nosso idioma apenas depois dos sete anos de idade. Em ambiente escolar, também é possível o acesso à internet.

Por fazer fronteira entre dois municípios, ambos se dividem na manutenção dos direitos básicos: a prefeitura de Bertioga é responsável pela distribuição diária de merenda escolar, enquanto a de São Sebastião zela pela saúde dos índios, deslocando semanalmente um médico para atendimento na reserva.

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Depois de aproximadamente 3 quilômetros percorridos, chegamos ao final da trilha e, junto dela, a moradia do cacique. Recluso, mas mantendo o ar de “boas-vindas”, Adolfo nos convida a nos aquecermos em sua residência. Em meio à fogueira e recebidos com um cafezinho, o chefe da tribo começa a contar um pouco da história Guarani e observa como “seus livros de história estão errados, tratando os bandeirantes como heróis e não vilãos. Eles foram responsáveis por matar grande parte da nossa gente”.

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Pouco a pouco iam surgindo os olhares curiosos de novos curumins, que não demoraram muito para trazer um grande banco sobre as costas para se juntarem a nós. Como toda boa criança “hiperativa”, não demoraram muito a se levantar e cantar músicas em guarani, rodeando a fogueira.

Foi nos oferecido palmito nativo e artesanato, formas de sustento da tribo. Também comercializam o mel e o biju (espécie de tapioca feita com mandioca ou fubá) para complementar a renda das famílias.

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Muitos costumes e tradições permanecem vivos na aldeia, como a arte, comidas típicas, rezas, rituais de passagem, danças, língua e pinturas corporais. A influência de outras culturas como a nossa é notória nos pequenos detalhes: presença de televisores, bicicletas, carros modelo fusca, roupas e até mesmo camisas de futebol. O contrário também é verdadeiro, o que prova que a coexistência é possível. Valorizar e preservar a cultura Guarani é preciso.

*Textos e fotos de Elisa Esposito em viagem à Aldeia Guarani do Rio Silveira