Há, atualmente, uma certa classe de revoltados sui generis: revoltados com a revolta. Sim: a esquerda lhes parece algo demasiado tradicional; buscam novos ares, mais modernos… e para isso retornam – barrocos – à escolástica do liberalismo: a filosofia política do século XVIII.

Fica bem: são contrários à direita e à esquerda reais e abstratas, serão bem vistos pelos futuros sogros e patrões e, até mesmo, quem sabe, poderão abocanhar um espacinho numa respeitável revista semanal. Do Youtube pra Veja, nada mal!

Nessa época de tempo tão escasso, também é menos dispendioso. Imagina: esse negócio de ser comunista dá um trabalhão. Tem de ler as milhares de páginas de Marx, fazer um estágio não remunerado em Hegel, daí, para se dar conta, de que é importantíssimo estudar economia, ciência política, literatura, direito… cansa só de pensar. Como liberal, basta um autor, o já popstar Mises, cuja obra se conhece bastante bem pelo Wikipédia – eficiência! Se se quiser dar um tempero mais cult, manda a mão invisível de Smith e os aplausos serão automáticos – ou as curtidas. Mas o que Michel Temer e o Uber têm a ver com esses neo-liberais? – que podem ou não ser neoliberais.

A tentativa atual do Estado de exceção de Temer de desregulamentar o trabalho, em favor de uma abstrata negociação livre entre capital e trabalho, se encaixa nesse tipo de cinismo criminoso dos liberais. O quanto tem de idealismo pernicioso nesses discursos nota-se pela completa abstração das condições objetivas nas quais qualquer negociação pode se dar. Pense: quais são as possibilidades de negociação entre um facínora decidido e sua vítima? Não há qualquer interação social que ocorra, empiricamente, numa abstrata igualdade entre os envolvidos; toda negociação é uma relação de forças, dadas materialmente. Essa materialidade das relações sociais demonstra duas coisas: o argumento liberal a favor da desregulamentação do trabalho é uma ingenuidade idealista que ignora a complexidade material das relações sociais ou, se a considera, uma perversão político-social digna de um sociopata. Tendo a enquadrar Temer e [o amigo de Lula] Henrique Meirelles nesse segundo grupo.

E Fernando Haddad nos deu um privilegiado laboratório para observarmos, ao vivo, os efeitos dessa desregulamentação. Claro, falamos do Uber e seu cristalino liberalismo…

Existe um padrão dos trabalhadores que negociam com o capital-uber: pessoas em situação de vulnerabilidade empregatícia, mas seduzidas pelo canto suave da ideologia do empreendedorismo. Socialmente, proletários; espiritualmente, capitalistas. E lá vão eles, investir: carro, seguro, água mineral, bala de café e um sorriso inabalável.

Está claro que esse experimento liberal escancarou sua verdadeira face quase que imediatamente à sua implantação: jornadas de trabalho excessivas, baixa remuneração, exaustão física e emocional, e, por consequência, acidentes de trânsito.

Evito especular se essas condições degradantes inviabilizarão o Uber enquanto modelo de negócios. Tampouco importa para os propósitos desse texto. A questão posta é o alerta que esse serviço traz à classe trabalhadora a respeito dos formatos pensados pelos assaltantes que ora detêm o poder para a relação capital-trabalho. O Uber expressa, até para os mais singelo entusiasta das vantagens do consumidor, a crueza da luta de classes, pelo olhar baço do motorista que lhe sorri, solícito. Mas, se os olhos não veem, outros sentidos podem, quiçá, captar…

Para ouvidos atentos, o balanço monótono do automóvel atualiza as batidas secas do Atlântico nos cascos dos navios. Classes sociais, lemos em Castro Alves. A humanidade sob forças que sequer supõe existir. Os Tupis não sabiam, mas o que vinha nas caravelas era o Capitalismo.