O chão da esquerda brasileira tem se tornado cada vez mais uma terra de lamúrios, o que contrasta vexatoriamente com nossa origem e história de lutas e de perseverança.

Primeiro lamentamos muito e agimos pouco em relação aos nossos problemas internos; choramos um golpe branco sem operar de forma proporcional à perda de direitos que nos assola e tivemos que esperar pela reação de jovens estudantes a lutar pelas vergonhas que aceitamos de cabeça baixa.

Agora pranteamos indevidamente sobre os resultados das eleições presidenciais estadunidenses; fico profundamente constrangido ao perceber, dentro da esfera progressista brasileira, certa preferência por Hillary em relação a Trump, como se um mal fosse menor que o outro, como se houvesse entre ambos candidatos diferenças que justificassem uma tomada de lado tão peremptória e que gerasse, adivinhe só? Mais vagidos – destarte pela derrota democrata.

Este partidarismo da esquerda tupiniquim no pleito dos EUA mostra que não sabemos nos compadecer nem quando tal prática é justificável; pois hoje, podemos sim lamentar sem parecermos os chorões incorrigíveis que nos tornamos nos últimos tempos.

Mas lamentemos pelas razões corretas, por favor.

Chorar a derrota de Clinton? A mulher que enquanto secretária de estado massacrou líbios e sírios? Que representou os interesses de Wall Street com todas suas forças? Não, obrigado.

Chorar pela derrota dos democratas? Esses mesmos democratas que grampearam Dilma e que validaram institucionalmente seu impeachment para comprar nosso pré-sal a preço de banana? Não, obrigado.

Chorar pela vitória de Trump e por seus apoiadores racistas, machistas e sectaristas? Não, obrigado – e pergunto: quando esta gente escrota que elegeu Trump esteve efetivamente alijada do poder nos EUA? Bill Clinton não tratou sua estagiária como um bife, em especial quando teve seu mandato ameaçado? A polícia estadunidense matou menos negros durante o governo Obama? Imigrantes e estrangeiros tem sido tratados com respeito por quaisquer governos estadunidenses anteriores a Trump? Será o republicano realmente “isolacionista” com os EUA consumindo mais de dez milhões de barris estrangeiros de petróleo todos os dias? Trump deportará mesmo mais ilegais que os democratas, ciente que é do papel destes imigrantes ao ocuparem subempregos que fazem rodar a economia do seu país?

Em suma, a vitória desse animal bilionário e símbolo-mor de tudo o que desprezamos tem, na prática, efeito muito parecido ao que seria a vitória do monstro Hillary: as políticas segregacionistas, imperialistas, virulentas e orientadas para o acúmulo do capital e destruição do meio ambiente permanecerão, e não serão novidade qualquer. Tudo seguira o mesmo roteiro já escrito por Reagan, Clinton, os Bush e Obama.

Onde reside então nosso direito legítimo de lamentar? Na manutenção mundial de políticas que promovem desigualdades, na falta de empatia que toma os povos, na destruição desenvolvimentista das riquezas naturais do planeta, no individualismo que nos toma desde o berço, no recrudescimento da direita como prova cabal dos erros da esquerda e, em especial, na vitória do engodo burguês que é a “democracia representativa” – muitas aspas aqui – do século XXI.

Porque até para chorar nossas pitangas é preciso bom senso, meus queridos. E quanto ao republicano Trump e a democrata Hillary? Dormi o sono dos justos sem saber quem ganharia, já que isso nada muda naquilo que deploro genuinamente.