I

Câmara Federal, CPI do CARF, agora.

cobrindo mais uma sessão da CPI que, primeiro, no Senado, agora na Câmara, investiga os crimes revelados pela Operação Zelotes, da PF, sobre empresas corruptoras de servidores lotados na Receita Federal para que estes limpassem seus crimes de sonegação e evasão de divisas, que, em apenas 5 anos, resultaram num roubo de R$ 2 TRILHÕES dos cofres públicos – valor equivalente a 1,5 Orçamento Anual da União.

me sinto sufocado.

não é a gravata, que odeio.

é uma certeza óbvia – e o óbvio é sempre massacrante.

ano passado, durante vários dos meses em que essa CPI acontecia no Senado, fui o único jornalista a reportar o que acontecia ali, citando nomes das empresas corruptoras e sonegadoras e os respectivos valores que roubaram, como podem comprovar muitos que já me acompanhavam nesse trabalho.

não digo isso com orgulho, mas com tristeza, a mesma que embasa a certeza que me sufoca.

se essa CPI recebesse da mídia, jornalisticamente, 1/5 da atenção persecutória, criminosa e falaciosa que é dada, por recente exemplo, a uma conversa telefônica entre a presidenta e o futuro ministro-chefe da Casa Civil – conversa, diga-se, de um teor protocolar menos atraente do que uma conversa entre adolescentes discutindo uma prova de matemática que farão no dia seguinte -, não digo que a matilha fascista que, por conta das distorções dessa conversa, foi às ruas babar seu ódio o fizesse contra o paulo skaf ou outro dirigente da FIESP [que abriga muitas das empresas sonegadoras investigadas], mas, seguramente, se perguntaria se há mesmo alguma razão para o horror que imputou a qualquer um/a que se recusou a se irmanar à sua demência vocacional.

se perguntaria o óbvio: para haver corrupto [seja lá de qual partido], tem que haver quem corrompa; logo, quem corrompe? como?

na resposta, o massacre do óbvio conteria o horror – ou, no mínimo, a hipocrisia que também o alimenta.

chegamos àquele delicado momento em que o único aliado da razão é o tempo.

enquanto isso, pé na reta, fé na curva e à luta.

II

pelo celular:

– Pirata, meu amor, help me!

– quem tá falando?

– Tx%$#@!= [repórter do grupo globo].

– o que foi?

– tá na Câmara, né? te vi chegando.

– tô. cobrindo a CPI do CARF.

– me encontra aqui na porta pra me levar praí, não sei em que plenário é. tá pegando feio pra quem é da imprensa.

– claro. mas só uma coisa.

– o quê?

– retira o “meu amor”.

– por quê?

– você sabe o porquê.

– para com isso.

– tô falando sério.

– tá, retiro.

– ok, descendo.

a gente é, tecnicamente, colega, temos que ser humanos, sempre, mas não precisamos ser hipócritas.

ano passado, cobrindo essa mesma CPI no Senado, numa discussão entre colegas, ela disse que, por minhas posições, jamais poderíamos estar do mesmo lado.

a vida, com seus métodos, arrebenta com essas certezas cabais.

perdoo, claro.

mas o blend calabrês e libanês que me corre as veias me impede o esquecimento.

sabe, de coração, que tudo isso sirva ao menos para nos humanizar a todos.

III

Câmara Federal, CPI do CARF, agora.

no final dessa CPI no Senado, teve início um processo sórdido que agora ganha corpo na Câmara: o absoluto desvio de propósito da CPI, que seria o de investigar, apurar e denunciar os crimes de corrupção, sonegação e evasão de divisas praticados por bancos, montadoras automobilísticas, indústrias e empresas de comunicação, para, unicamente com base em acusações e ilações sem quaisquer provas, criminalizar a presidenta Dilma, ex-integrantes de seu governo, além de, claro, Lula e seu filho, Lulinha.

exemplo: a Mitsubishi, em apenas um processo, sonegou mais de R$ 200 milhões, mas o foco dos parlamentares de oposição é o de, com rocambolesca retórica, levantar a bola para que o convidado de hoje, Frederico Paiva [à esq, na mesa], principal procurador à frente da Operação Zelotes, confirme que, sim, é possível que a Mitsubishi tenha cometido o crime somente porque seus dirigentes tiveram encontros com os ex-ministros Gilberto Carvalho e Erenice Guerra, bem como se beneficiou de uma MP sancionada por Lula – mas de autoria do agripino maia [dem-RN].

– não dá pra dizer que os ex-ministros garantiram algum benefício econômico à montadora, mas pode-se imaginar que outro benefício possa ter se dado? – pergunta carlos sampaio [psdb-SP]

– não se pode afirmar, porque não se sabe, mas sempre é possível – responde o procurador.

requerimentos para depoimentos dos ex-ministros, do ex-presidente e de seu filho já solicitados.

a meu lado, a colega que trabalha pro g1, que recentemente me implorou pra acudi-la, temendo apanhar na cobertura que fazia da primeira tentativa de posse de Lula como ministro-chefe da Casa Civil.

em seu tablet, comunica a redação: “CPI apura participação de ex-ministros de Dilma e de Lula nos processos de sonegação de montadora”.

terminou de redigir, olhou pra mim, arguiu:

– tua cara dispensa legenda. não foi isso que ele falou aí?

– você responde: foi?

silêncio.

mudei de assento.

IV

Câmara Federal, CPI do CARF, agora.

funciona assim:

ao tratar das investigações e acusações contra as empresas corruptoras e sonegadoras, pede-se irrestrita obediência ao rigor da Lei, que não permite conjecturas, pra que não se incorra em injustiça.

ao tratar de políticos adversários, ou de pessoas ligadas a estes, destaca-se toda e qualquer interpretação que, atropelando a Lei, legitime suspeitas – e, logo, acusações e convocações para as devidas explicações.

some-se a isso que não há uma só frase em que o procurador convidado para “colaborar com a CPI” não encaixe um “graças a Deus”, “com a graça de Deus”, “se Deus assim permitir”.

imberbe, auto-ungido, relativizando crenças e ideologias, emerge o taliban dos trópicos.