Lembro de, na minha infância, muitos programas aos quais assistia conterem um espaço para ensinar a crianças como fazer ou transformar alguns materiais em objetos úteis, como porta-retratos, quadros, etc. Talvez o que seria a origem dos tutoriais do youtube.

É a cultura do Faça Você Mesmo (traduzida do inglês, Do It Yourself – DIY), que nada mais significa o que o próprio nome diz: aprender como fazer sozinho. E, na moda, está em alta desde meados da primeira década do século 21.

Primeiro, foram os tutoriais de maquiagem, para, em pouco tempo, passar aos ensinamentos de como fazer turbantes até chegar a como customizar roupas e sapatos.

Segundo um relatório do WGSN, líder em previsão de tendências de moda e consumo, um dos motivos para a volta desse movimento é a crise – o mesmo motivo de quando foi criado, na década de 50, época no pós-guerra se incentivava o uso e conserto das coisas pelas próprias pessoas por falta de alguns materiais e mão de obra.

Então, com a situação financeira mais apertada é preciso entender e pesquisar novas possibilidades para fazer as coisas. E muito desse movimento é, nada mais, do que o incentivo a não terceirizar o que podemos fazer tranquilamente, mas, em momentos de maior poder aquisitivo, acabamos contratando outros serviços, pelo simples fato de poder.

Mas, além disso, há dois outros importantes motivos: o consumo consciente e a personalização das peças.

O consumo consciente de moda se propaga cada vez mais e, com ele, aumenta o número de pessoas a se questionarem sobre como as roupas são feitas, por quem e de que modo. Por isso, as pessoas optam por criar e modificar suas peças em vez de comprar algo que não sabem como é ou um serviço cujo preço é injustificável.

Ou elas mesmas as produzem. Nos últimos dois anos, aumentou a procura por cursos de crochê e tricô, por exemplo.

É a partir do faça você mesmo que se torna possível ter uma ideia do trabalho e custo de cada peça e aí já se pode saber quando o é um comércio justo e quando é apenas lucro pelo lucro. Esse entendimento incentiva um novo olhar para as roupas e novo hábito de consumo.

E mais: possibilita exercer a criatividade e colocar um pouco de si na roupa. Com o fast fashion, era possível vermos alguns “uniformes” (pessoas vestidas de forma idêntica – graças aos preços baixos e desejo pelas tendências).

Muitos se incomodam ao se perceberem nessa situação e buscam destaque através do estilo. Para se diferenciar, cresceu o número de pessoas em busca de novas formas de usar uma mesma peça.

Esse movimento já traz algumas mudanças no mercado de moda, como a criação de peças dupla face, por exemplo, ou peças que podem ser usadas tanto como vestidos ou saias.

Talvez o faça você mesmo, que surge em um momento de crise, possa nos mostrar novos caminhos para nossa relação com as roupas e possamos valorizar o trabalho artesanal e criativo.