Depois de ler o livro-manifesto “Para educar crianças feministas”, a primeira coisa que vem à tona é o quanto somos programados para não educá-las nestes moldes e o que esta simples constatação significa…

Trata-se de uma carta resposta destinada a uma amiga da autora que acabara de ter uma filha. À época, ainda sem filhos, Chimamanda Adichie, foi acionada por ser reconhecidamente feminista e o fez de maneira informal, teor que foi mantido na escrita mesmo com as adaptações para a publicação que acaba de chegar ao público.

São 15 sugestões que, a despeito da distância espacial e, em alguns aspectos, cultural entre Brasil e Nigéria, podem ser reconhecidas absolutamente em todos os sentidos no que diz respeito à educação dispensada às crianças. Cada ponto elencado, por sua simplicidade, remete ao quanto as diferenças de gênero estão naturalizadas em nossa sociedade e o quanto somos responsáveis por sua manutenção.

Embora o título remeta às crianças de maneira geral, o texto foi escrito pensando nas particulares de quem nasce menina. Há quem possa fazer disso uma crítica, já que não se refere aos meninos que, sem dúvidas, também têm seus dilemas que, por sinal, não são poucos… E isto justamente porque a educação com a qual se deparam não tem nada de feminista.

Isto revela a responsabilidade de nós, mães, pais e adultos, sem contar as instituições voltadas para a educação, em operar mudanças radicais na maneira como fazemos as coisas mais singelas. Quantas vezes não vemos situações em que meninos são repreendidos por chorar ou por brincar com bonecas? E quantas vezes não percebemos meninas sendo tratadas com desprezo por não se vestirem como consideram “adequado” ou quando se manifestam abertamente sobre a sexualidade? Mesmo que não sejamos nós a expor tais opiniões, sabemos da frequência com que isto se coloca e a pergunta é: por que não fazemos nada?

Talvez porque tenhamos sido preparados para não educar crianças feministas! E a dificuldade em fazê-lo reflete nossos medos e angústias, afinal, por mais simples que pareça se trata de ignorar muito do que aprendemos de nossos pais e mães, sem contar a briga que “compramos” com tantos que não aceitam a misoginia como uma realidade nefasta à qual estão expostas as crianças, meninas e meninos…

Daí o potencial deste livro que, em poucas páginas, ilumina realidades e explode a necessidade de transformações.